Por Edra Moraes
No meu último artigo falei sobre o Coletivo Marianas e entrevistei sua idealizadora Andreia Gavita, falamos sobre como os coletivos se tornaram uma das formas mais potentes de organização da produção artística contemporânea. Hoje, artistas se reúnem para dividir espaços, desenvolver projetos, produzir exposições e criar redes de colaboração. Mas essa forma de fazer arte em conjunto não nasceu agora.
Vivi minha juventude em Londrina nos anos 1990, e neste período Londrina já era uma cidade referência em arte. Há uma história apaixonante da arte de Londrina. Uma história que começa antes mesmo da palavra “coletivo” se tornar comum no vocabulário cultural da cidade. Quando um grupo de amigos artistas decidiram que “juntos também eram mais fortes.”
Quem me levou até essa memória foi a artista plástica, artesã, colunista e ativista cultural Angela Diana, uma das idealizadoras da Oficina de Arte Contemporânea, espaço criado em 1993 e que, olhando hoje em retrospecto, reunia muitas das características que atualmente associamos aos coletivos artísticos. Mais de 30 anos depois, parte desse grupo volta a se reunir em uma exposição comemorativa no Sesc Cadeião, no dia 25 de abril de 2026.
Mas para entender a importância desse reencontro, é preciso voltar um pouco no tempo.

Quando os coletivos ainda não tinham esse nome
Hoje a palavra coletivo aparece com frequência em editais, projetos culturais e na própria forma como artistas se apresentam. Nos anos 1990, porém, essa palavra quase não era usada. Naquele período, os artistas se organizavam de outras maneiras e os nomes também eram outros.
O termo mais comum era simplesmente grupo. Falava-se em grupo de artistas, grupo experimental, grupo de arte. Era uma forma direta de nomear pessoas que se reuniam para produzir juntas. Outro termo muito presente era ateliê. Muitos desses agrupamentos surgiam a partir de um espaço físico compartilhado. Assim apareciam expressões como ateliê de artistas, ateliê coletivo ou oficina de arte.
Nesse sentido, o nome Oficina de Arte Contemporânea não é apenas uma escolha estética. Ele reflete exatamente a forma como esses espaços eram compreendidos naquele momento histórico.
O que hoje chamamos de coletivo, muitas vezes era simplesmente um ateliê onde artistas se encontravam para trabalhar, ensinar, aprender e compartilhar processos criativos.
O nascimento da Oficina de Arte Contemporânea
A ideia da oficina nasceu de uma conversa entre Angela Diana e a artista Mira Benvenuto, no início da década de 1990. Ambas sentiam falta de um espaço onde pudessem trabalhar e desenvolver suas produções. A proposta inicial era simples: dividir um ateliê e, ao mesmo tempo, oferecer algumas aulas.
Em 1993 surgiu o lugar ideal. O maestro Antônio Benvenuto indicou um imóvel localizado sobre a Farmácia Central, na Rua Souza Naves, 143. O espaço tinha duas salas iguais, uma sala maior de convivência e uma cozinha. Segundo Angela, parecia ter sido feito sob medida para o projeto.
A abertura oficial aconteceu alguns meses depois, com um pequeno coquetel entre amigos. O que ninguém esperava era que, pouco tempo depois, o espaço começaria a atrair cada vez mais pessoas interessadas em aprender arte.
Um espaço de criação e troca
Adolescentes, crianças e adultos começaram a frequentar o ateliê. As aulas incluíam pintura, escultura, desenho, leitura de obras, história da arte e processo de criação. Mira também trabalhava com música, oferecendo aulas de flauta e violão, criando uma integração pouco comum entre linguagens artísticas.
De forma orgânica e sem planejamento formal, um grupo começou a se formar e motivo era um só: arte, e o fazer artístico.
Ao longo dos anos, cerca de 50 pessoas passaram pela oficina, sendo que entre 20 e 30 participaram de forma mais constante. Muitos permaneceram por vários anos, criando uma convivência intensa baseada na troca de experiências e na colaboração entre artistas.
Diversos participantes seguiram carreira nas artes, na educação artística ou em áreas criativas. Entre os nomes que passaram pelo espaço estão: Angela Diana, Val Frei, Charlotte Louise, Livia Dotto Martucci, Marília Menon, Lucas Gibim, Ticiana Galindo entre outros.

Quando arte e ação social se encontram, e isto foi lá nos anos 1990
Uma das iniciativas mais marcantes da história da oficina nasceu de uma ideia de Mira Benvenuto: oferecer aulas voluntárias de arte para crianças de um bairro periférico de Londrina. Assim surgiu o projeto Sob a Proteção dos Anjos, desenvolvido no bairro União da Vitória.
O projeto chegou a atender cerca de 150 crianças e adolescentes, organizados em turnos. As aulas aconteciam semanalmente e muitas vezes utilizavam os próprios materiais do ateliê.
Quando não havia recursos, improvisava-se com o que fosse possível e, se hoje é comum, naquela época, pintar em pedra recolhidas na rua, tintas reaproveitadas e qualquer suporte que permitisse manter viva a experiência da criação, era uma novidade.
Com o tempo, o trabalho chamou a atenção da área de assistência social do município. Após visitar uma exposição com obras das crianças, Márcia Lopes, então ligada à política social da cidade, passou a apoiar o projeto com fornecimento de materiais, e o mais bonito, ela se lembra do projeto ainda hoje, todas as vezes em que nos encontramos.
A construção de uma identidade
Outro capítulo importante dessa história envolve o coletivo de design Imagê. Formado por Cristiane Batista Tavares, Ana Carolina M. Distéfano Alfieri, Robson Oliveira, o escritório foi responsável por desenvolver toda a identidade visual da Oficina de Arte Contemporânea. Cartazes, material gráfico e comunicação visual do projeto foram produzidos por esse grupo de jovens designers, que também estavam iniciando suas trajetórias profissionais naquele momento. A parceria acabou se tornando parte da própria memória estética da oficina.
O reencontro 30 anos depois
Mais de três décadas depois, parte dos artistas que passaram pela Oficina de Arte Contemporânea volta a se reunir.
A exposição marcada para 25 de abril de 2026, no Sesc Cadeião, tem caráter comemorativo, mas também simbólico. Não se trata apenas de rever trabalhos ou revisitar trajetórias individuais.
É também uma oportunidade de reconhecer que, muito antes de a palavra coletivo se tornar uma tendência na arte contemporânea, artistas de Londrina já experimentavam formas de criação compartilhada, formação artística e colaboração. Talvez a diferença estivesse apenas no nome.
Porque, como tantas histórias da arte mostram, as práticas quase sempre nascem antes das palavras que usamos para descrevê-las.
E às vezes é no reencontro dessas memórias que percebemos o quanto certos movimentos começaram de maneira silenciosa, mas deixaram marcas profundas na cultura de uma cidade. E em nós. Eu posso te dizer que sinto saudade, sinto saudade deste agrupamento genuíno artístico, um artista apoiando o outro. Porque a arte é uma expressão humana, e como humanos somos frágeis, mas juntos “somos mais fortes.”
RESSIGNIFICARTE
Exposição coletiva da Oficina de Arte Contemporânea
Abertura: 25 |abril | sábado | 16 horas
Terça a domingo: 9hs às 19hs
Sesc Cadeião Londrina
R Sergipe, 52
Edra Moraes

Profissional de marketing, produtora cultural e escritora. Agitadora cultural e idealizadora do Movimento Londrina Criativa.
Prêmios: Obras Literárias Digitais 2020, “Antologia Poética | Seleção da Autora, Memorial Vivência, Literatura, Livro e Leitura Unespar, Cultura nas Redes 2020 e FCC Digital 2020.
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