Sem dinheiro para Assistência Social, mas com o maior Papai Noel do mundo

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Por Ana Paula Barcellos

Primeiro, achei que era zoeira. Brincadeira do Joziel, o motorista da corrida das 11h43, daqueles que enchem o papo com fofoca delícia enquanto o Uber rola devagar na Av. São Paulo. “Londrina vai ter o maior Papai Noel do mundo, lá no Igapó, ô!”, ele solta, entre uma freada e uma buzina. Ri sozinha, imaginando o boneco boiando na água suja, as algas garrando na bota.

Mas não era piada. O prefeito garantiu: 27 metros de altura – nove andares inteiros de Papai Noel feito de espuma vermelha e barba branca, flutuando no Lago Igapó 2, adornado com mais de 400 mil luzinhas de LED piscando como se fossem hipnotizar o esquecimento coletivo. Fiquei estática no banco de trás, o celular na mão, paralisado. “Pra isso ele arruma grana?”, deixei escapar. Tarde demais. A promessa de paz – nada de debates políticos até 31 de dezembro, nem no Uber, nem no balcão da padaria – já tinha ido pro beleléu.

Eu tava preparada, juro. Diálogos ensaiados na cabeça: “Ventinho gelado hoje, né, Joziel? Quem diria que o sol tava fritando ontem?”. Ou, pra variar, “Minhas plantas tão sofrendo com essa seca, seu Ronaldo, mas o boldo tá vingando”. Temas neutros, inofensivos, como o tempo ou meus vasos sobreviventes. Mas o Noel gigante invadiu, e Joziel rebateu na hora: “Pois é, pra saúde que tá capenga, nada. É duro!”. Duro mesmo.

Noel gigante e corte na Assistência Social

As águas do Igapó, que mal aguentam o esgoto e o lixo, agora vão carregar um recordista pro Guinness – expectativa oficial, dizem os releases da Prefeitura. E não para por aí: roda gigante no Calçadão, vila gastronômica no Aterro, ônibus decorados pra rodar grátis pela cidade, 172 atrações culturais espalhadas. Investimento? Uns R$ 4,3 milhões da prefeitura, mais R$ 1,5 da iniciativa privada, pra um mês de brilho que some em janeiro, deixando um rombo nas contas. Um boneco cafona do Noel de quase 30 metros pra distrair os olhos das prioridades… É assim que pensam transformar Londrina em município turístico? Que piada de mau gosto.

A gente fica quieto no carro, remoendo o Noel amargo. O trânsito empaca um pouco na J.K., e o rádio entra como escape. Mas nem o pagode leva embora essa energia de governo freestyle, de boy leite com pera que baixou pesada. As luzinhas vão piscar, hipnotizar as famílias no Calçadão, fazer a galera postar stories com filtro de rena.

Vão ofuscar o corte na Assistência Social, que deixa gente na rua sem teto nem cesta; o sucateamento da Cultura, com teatros rangendo e artistas mendigando edital; os escândalos na Câmara. O prefeito fala em “Natal descentralizado”, levando o brilho pros bairros – 88 eventos no Centro, 53 na Norte, como se isso apagasse o centralismo das verbas mal geridas. Truque fajuto, colocar o Noel gigante vermelho ali, de 30 de novembro a 6 de janeiro, pra gente esquecer que o barco da saúde afunda devagar.

Roda gigante no Calçadão: sobe 40 metros pra ver o buraco da cidade de cima. Gira, pisca, encanta criança. Embaixo, o asfalto quebrado, a assistência sem verba e a saúde em pane continuam invisíveis. Natal de ilusão.

Cheguei em casa, joguei a bolsa no sofá. Até esfriou de repente…

Ana Paula Barcellos

Um boneco gigante do Papai Noel no lago Igapó é a atração de Natal do governo freestyle, enquanto as verbas da Assistência Social são cortadas

É graduada em História pela Universidade Estadual de Londrina (UEL), Mestre em Estudos Literários, integra coletivos culturais da cidade e é agente cultural.

Sacoleira e brecholenta, trabalha com criação de joias artesanais e pesquisa de tendências, e escreve também a coluna de Moda deste jornal. Siga o Instagram @yopaulab

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(*) O conteúdo das colunas não reflete, necessariamente a opinião do O LONDRINE̅NSE

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Uma resposta

  1. Ana, eu também havia me comprometido a não falar nada desse monstrengo noel, enquanto aqueles que realmente precisam ficam sem qualquer auxílio.
    Que mais londrinenses tivessem essa coragem de falar sem medo das imagens nas redes sociais.

    Muito obrigado por falar por mim!

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