Como recomeçar a vida depois da traição do marido

consultorio-sentimental

Por Telma Elorza

“Me casei há três anos e, por insistência do meu marido, sai do meu emprego. Agora descobri uma traição dele e estou pensando em me separar porque fiquei com nojo dele, mas não tenho para onde ir. Meus pais são falecidos e minha única irmã mora fora do país. Temos um filho de um ano e ele me disse que vai me deixar sem nada e tirar a guarda do meu filho se sair de casa. O que posso fazer, se não tenho como me sustentar? Não sei nem onde buscar ajuda, porque minha melhor amiga mudou de cidade e não tenho mais contato com outros antigos amigos e colegas de trabalho.”

Minha amiga, calma. Para tudo dá-se um jeito. Mas saiba que a história que você contou – de ter largado tudo por amor ao marido e hoje estar sem renda, sem apoio e sendo ameaçada – é mais comum do que imagina. As mulheres são criadas para acreditar no amor eterno, no “felizes para sempre” e acabam entrando no casamento confiando cegamente no marido. Largam carreiras que poderiam ser bem sucedidas para agradar o parceiro e cortando relações de amizade em prol da “felicidade conjugal”. Ou seja, confiam tanto que entregam a vida para o companheiro que, nem sempre, retribui tanta dedicação e fidelidade. O resultado, geralmente, é esse. Uma mulher desesperada com o fim do casamento, sem saber o que fazer e onde ir.

Então, vamos lá.

Ninguém gosta de burocracia e luta, mas é isso que você vai precisar fazer para garantir sua sobrevivência e da sua criança. Você precisa tratar isso como prioridade. Mas calma, vamos organizar isso em passos claros e práticos, sem romantizar, ok?

Marido ameaça de tomar a guarda e deixar sem nada

A ameaça do seu marido de “te deixar sem nada” e tentar tirar a guarda é comum e típica de relações abusivas — não importam intenções ou promessas vazias. O simples fato de você considerar isso como “impossível de enfrentar” já mostra que falta informação, e informação é poder.

No Brasil existe a Lei Maria da Penha, que protege mulheres em situação de violência doméstica — inclusive psicológica e financeira (isolamento, controle e ameaça contam) — e pode acionar medidas protetivas em 48 h se houver risco.

Onde buscar ajuda agora:

Ligue 180 – Central de Atendimento à Mulher: gratuita, 24 h, orienta sobre direitos, serviços especializados, Delegacias da Mulher e como registrar denúncia.

Essa ligação pode ser feita sem compromisso e sem você precisar ir a lugar nenhum no primeiro momento — é o passo inicial que muitas mulheres acham pesado, mas é o que a coloca no radar de proteção pública.

Assistência jurídica gratuita

Você acha que “não tem como pagar um advogado” para se divorciar de seu marido? Existe um serviço oficial que resolve isso de graça:

Defensoria Pública — em todas as capitais e grandes cidades, dá assistência jurídica integral (divórcio, pensão, guarda, partilha de bens, medidas protetivas, etc.). A defensoria atua sem custo para quem não pode pagar. Em cidades que não existe o órgão, a OAB local (praticamente todas as cidades têm uma representação) pode indicar um defensor público.

Como funciona na prática:

  • Você vai à Defensoria ou OAB munida de documentos básicos (RG, CPF, certidão de casamento, certidão de nascimento do filho). Se tiver conta em banco no seu nome, leve também extrato bancário dos três últimos meses para comprovar que tem renda menor de 3 salários mínimos. Se não tiver conta em banco, não é necessário
  • Eles abrem um processo de separação/divórcio e pedido de pensão alimentícia para o filho — isso não pode ser negado por ele. A pensão é um direito da criança, não é concessão voluntária do pai.
  • Eles podem pedir uma estimativa de renda do seu marido e bloquear transferências de patrimônio ou exigir depósito judicial da pensão.

Importante: pensão para você (ex-cônjuge) pode ser concedida pensão alimentícia se houver dependência econômica comprovada (você largou emprego por insistência do seu marido e não conseguiu se reinserir, ainda), mesmo que temporária.

Atendimento social e reinserção no mercado de trabalho

Você também precisa buscar fontes de renda. E não se desespere em não saber como. Antes de tudo, você não está sozinha — existem redes públicas de apoio. Procure no seu município:

CRAS (Centro de Referência de Assistência Social) — orienta em programas sociais, renda mínima e encaminhamento para cursos e emprego.

CREAS (Centro Especializado de Assistência Social) — ajuda com orientação legal, psicológico e social, principalmente em casos de violação de direitos.

Casa da Mulher Brasileira – um lugar onde você encontra serviços integrados: Delegacia da Mulher, Defensoria, Juizado, apoio psicológico, capacitação e até alojamento temporário.

Organizações como Fala Mulher têm programas de apoio, orientação legal e até abrigo temporário em casos de risco.

Cuide da sua documentação e estabilize sua posição legal

Assim que conseguir atendimento na Defensoria ou no Juizado:

  • Abra processo de separação/divórcio de imediato (não espere).
  • Solicite pensão alimentícia provisória para seu filho e, se aplicável, para você.
  • Peça guarda unilateral ou compartilhada (a decisão depende muito do histórico e do que for melhor para o filho).
  • Peça medidas protetivas se ele ameaçar, coagir ou praticar violência.

Nunca aceite acordo informal sem registro judicial, por mais que seu marido diga que vai ser “bondoso” com você. A lei dá suporte à criança e à mãe na maioria dos casos.

Trabalho e independência começam agora

Enquanto tudo isso acontece, comece a retomar sua autonomia:

Se você é formada em alguma profissão, procure cursos de atualização para tentar vagas na sua área. Se não é, procure estudar e obter qualificação:

  • Matricule-se em cursos gratuitos ofertados pelo CRAS/CREAS ou SINE.
  • Prepare currículo básico e vá atrás de trabalhos no comércio local mesmo que seja temporário — renda própria dá força legal e emocional.
  • Use redes de apoio social (grupos de mulheres vítimas de violência, serviços comunitários) para recuperar confiança e rede de contatos.

Sua saída tem base legal e apoio — só falta você dar o primeiro passo

Ficar paralisada pelo medo do “não sei onde buscar ajuda” é completamente compreensível, mas existem canais oficiais prontos para ajudá-la, sem custo, sem julgamento e com foco na sua segurança e da sua criança. Você tem direitos — e a lei brasileira protege mães e crianças em situações como essa. Ligue 180 (Central de Atenimento à Mulher) hoje mesmo, procure a Defensoria Pública ou Casa da Mulher Brasileira na sua cidade.

Acione sua irmã

Não é porque sua irmã está morando fora do país que você não pode contar com ela. Se vocês têm uma boa relação, é claro que ela vai fazer o possível para ajudá-la. Retome o contato, explique a situação com seu marido e peça ajuda. Com quase toda certeza, ela vai poder fazer alguma para ajudá-la, mesmo de longe. O mesmo vale para sua melhor amiga. É muito importante ter esse contato com quem gosta verdadeiramente de nós. Nem que seja apenas para apoio emocional, num ombro acolhedor.

E não perca tempo: começar hoje muda tudo amanhã. Amparada, você terá muitas oportunidades na sua vida e garanto que será bem mais feliz.

Espero ter ajudado.

Tem dúvidas sobre relacionamentos? Mande um e-mail para telma@olondrinense.com.br

A leitora descobriu uma traição do marido e quer se separar, mas ele a isolou de amigos e do trabalho e está ameaçando-a. O que fazer?
Tia Telma versão IA

Quem é a Tia Telma

Telma Elorza é jornalista, divorciada e adora dar pitaco na vida dos outros. Mas sempre com autorização.

Siga O LONDRINE̅NSE no Instagram

Leia mais colunas do Consultório Sentimental da Tia Telma

(*) O conteúdo das colunas não reflete, necessariamente, a opinião do O LONDRINE̅NSE.

Compartilhe:

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Anuncie no O Londrinēnse

Mais lidos da semana

Anuncie no O Londrinēnse