Querem que eu dê minha vaga para meu irmão

consultorio-sentimental

Por Telma Elorza

“Eu e meu irmão mais velho nos formamos na mesma área e acabamos passando em um concurso da minha cidade, que oferecia três vagas. Eu em segundo lugar e ele, em quarto. Agora estou sofrendo pressão da família para desistir da vaga e deixar ele ser chamado. A justificativa é que ele é casado e tem um filho e precisaria dessa estabilidade. Me esforcei muito para passar, tenho planos de casar esse ano e essa carreira me ajudaria muito. Sou egoísta por não querer renunciar?

Menina, eu vou começar sendo bem direta. Não, você não é egoísta. Egoísta é o sistema patriarcal – e, muitas vezes, a família que vira a perpetuadora dele. O básico: concurso público não é sorteio de Natal, nem herança de família. É (muito) estudo, renúncia, cansaço e provas. No fim de todos esses esforços, a classificação vem. E você foi melhor que seu irmão. Ponto. O resto é chantagem emocional embrulhada em discurso de “família”.

Repare como como a história começa sempre do mesmo jeito: quando a mulher vence, alguém sempre aparece para dizer que venceu “demais”, que talvez pudesse abrir mão por um motivo ridículo ou outro. Ou que outra pessoa “precisa mais”. Curiosamente, quem precisa mais é sempre um homem, quase sempre com a mesma justificativa: tem esposa, filhos, boletos. Como se mulheres não tivessem responsabilidades à altura, contas, planos ou sonhos.

Responsabilidades dele não são suas

Para começo de conversa, as responsabilidades do seu irmão não são suas, nem a esposa, nem o filho. A estabilidade financeira da família dele também não. O concurso não perguntou o estado civil nem o número de dependentes. Perguntou conteúdo. Você respondeu a ele melhor que seu irmão.

E aqui entra a parte mais difícil de falar para alguém: quando dizem que você deveria desistir porque “seu irmão precisa mais” estão dizendo, com todas as letras, que sua vida vale menos que a dele. Que seus planos de casamento são adiáveis, sua segurança pode esperar e que uma carreira é acessório. É assim que é feito o apagamento feminino, não com violência explícita, mas com pequenos “gestos de generosidade” que a mulher deve dar sempre.

Apagamento das mulheres

A História está lotada dessas “renúncias femininas”. Rosalind Franklin foi essencial para a descoberta da estrututura do DNA, mas quem levou o Nobel foram três homens – ela ficou apenas com notas de rodapé dos livros, isso quando lembram dela. Jocelyn Bell Brunell descobriu os pulsares – estrelas de nêutrons altamente magnetizadas que giram rapidamente, emitindo feixes de radiação eletromagnética — principalmente ondas de rádio — de seus polos magnéticos , mas o Nobel de Física de 1974 foi para o seu orientador. Chien-Shiung Wu comprovou experimentalmente a quebra da paridade na física, mas o prêmio ficou com dois homens teóricos (obrigada, ChatGPT por esses e outros exemplos de mulheres que foram apagadas da história. Conferi uma por uma e aprendi mais).

Coincidência? Não. Padrão.

“Ah, mas é só um concurso público, ninguém ganha um Nobel por isso”. Tudo bem, mas sabe o que essas mulheres têm em comum com você? Todas ouviram, em algum momento, que não era “a hora delas”, que alguém ao redor precisava mais do reconhecimento. Que era melhor não criar conflito. Resultado taí: homens que se aproveitaram do trabalho delas para serem premiados e elas, esquecidas. Seu irmão ficou em quarto lugar, você em segundo. Você acha justo deixar todo seu esforço de lado para ele se aproveitar?

Se você ceder agora, a mensagem que fica é perigosa e clara: sempre que você conquistar algo, alguém poderá reivindicar. Hoje é o concurso, amanhã é a promoção, depois o salário…. E quando você perceber, sua vida virou um anexo da dos outros.

Dizer NÃO não vai transforma-la em vilã, e sim em adulta. Em alguém que entende que justiça não é dividir as conquistas individuais à força. Família saudável comemora sua aprovação. Família tóxica faz pressão para você “deixar de ser egoísta” e ceder seu lugar ao irmão.

Irmão casou porque quis

Seu irmão é adulto. Casou porque quis, teve filho porque quis e, até agora, vem sustentando a família (aliás, a cunhada deve contribuir, né?). Ele pode prestar outro concurso quando houver – e se dedicar mais aos estudos para obter uma colocação melhor. Você não tem obrigação moral de se sacrificar para manter o conforto dele intacto.

Não é egoísmo ficar com o que você lutou e conquistou. Egoísmo é achar que a vida e os esforços de uma mulher sempre é negociável. Não aceite esse papel. A História já tem mulheres apagadas demais. Não se apague.

Espero ter ajudado.

Tem dúvidas sobre relacionamentos? Mande um e-mail para telma@olondrinense.com.br

A leitora passou em segundo lugar em um concurso e agora vem sendo pressionada pela família para renunciar à vaga para beneficiar o irmão, que passou em quarto lugar no mesmo concurso.
Tia Telma versão IA

Quem é a Tia Telma

Telma Elorza é jornalista, divorciada e adora dar pitaco na vida dos outros. Mas sempre com autorização.

Siga O LONDRINE̅NSE no Instagram

Leia mais colunas do Consultório Sentimental da Tia Telma

(*) O conteúdo das colunas não reflete, necessariamente, a opinião do O LONDRINE̅NSE.

Compartilhe:

Uma resposta

  1. Menina! Por favor! Nao se deixe sacrificar por irmao ou ninguém! Porque qdo ele conseguir o que quer, ninguem vai lembrar do seu sacrificio e qdo a grana faltar a “vagabunda” vai ser vc! Sua familia e seu irmão que se fodam! Acredite! Vc em primeiro lugar!

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Anuncie no O Londrinēnse

Mais lidos da semana

Anuncie no O Londrinēnse