Querem me convencer a ter filhos

consultorio-sentimental

Por Telma Elorza

“Desde que comecei meu relacionamento com meu namorado, há cinco anos, avisei a ele que não queria filhos, por vários motivos, mas principalmente porque nunca me vi como mãe, não tenho instinto materno e quero focar na minha carreira que vai indo muito bem. Desde o início, ele concordou. Disse que também não queria, que a gente poderia viajar o mundo, fazer planos de longo prazo, etc. Mas agora que estamos de casamento marcado para o ano que vem, ele começou a falar de, no futuro, pensarmos em ter filhos, pelo menos um, para “alegrar nossa velhice”. O pior é que toda a família dele está fazendo ‘campanha’ para que eu mude de ideia. Não vou mudar e estou com medo de ser ‘obrigada’, depois do casamento, a engravidar. O que faço? Termino ou insisto nessa relação que prevejo que vai ser complicada”.

Amiga, que situação, heim? Mas ó, vamos conversar e você vai tomar sua decisão. Primeiro de tudo, você não está confusa. Está EM ALERTA. E isso já a coloca à frente de muitas mulheres que também não queriam ter filhos e só percebem o problema em que se meteram depois do teste de gravidez positivo. Porque é mais comum do que parece, essa tal gravidez indesejada.

Mas antes, um parênteses: não sou contra filhos. Eu também não queria filhos e veio um, que me pegou de surpresa (faço parte da estatística dos 0,1% de falha da pílula). Não me arrependo de o ter, ele foi um bebê ótimo, uma criança incrível e hoje é um adulto funcional e querido. Mas eu digo que tive sorte porque ele já nasceu assim. Eu, como mãe ‘nada tradicional’, não fui das melhores. Fiz o melhor que pude, mas não tinha (e não tenho ainda hoje) instinto materno. Minha irmã decidiu não ter filhos e eu super apoiei. Mas entendo as mulheres que desejam e querem tê-los, um, dois ou dez. Só que isso deve ser ESCOLHA, não imposição.

Vamos ser diretas: no final do segundo tempo, seu namorado mudou o combinado. Não é um detalhe irrelevante, não foi uma opinião sobre a palheta de cores do casamento, nem o destino da próxima viagem. Ele mudou o projeto de vida do casal. E isso não se negocia, na base do “vamos ver mais pra frente” porque isso quase sempre termina em fralda, ressentimento, uma mulher exausta (porque criação dos filhos sempre sobra para a mulher, por mais que os pais jurem de pé juntos que vão participar) sendo chamada de egoísta por não estar feliz com uma escolha que nunca foi dela.

Você foi clara desde o início. Não querer filhos não é trauma, não é falta de caráter, não é falta de amor. É decisão. Ponto. E decisão legítima, madura e responsável. Especialmente quando vem acompanhada de autoconhecimento e coerência.

Filhos na velhice

Filhos para “alegrar” ou “cuidar” na velhice é uma das frases mais burras que já foram normalizadas socialmente. Criança não deve nascer com missão de preencher vazios existenciais, de saúde ou financeiro de adulto. Quando alguém diz isso, está deixando claro que enxerga filhos como uma reserva de apoio, não como pessoas. Além disso, há aquelo velho ditado que diz: ‘uma mãe cuida de 10 filhos. Dez filhos não cuidam de uma mãe”. Quem garante que lá, no futuro, filhos vão realmente alegrar sua vida?

Se a família dele está fazendo pressão para você mudar de ideia, lembre-se: ele não vai engravidar, parir, amamentar, não vai interromper a carreira, não vai carregar a “culpa social” (porque hoje, tudo é culpa da mulher). A campanha da família que você descreve tem nome, “invasão”. E é outro sinal de alerta importante sobre como suas decisões podem ser tratadas depois do casamento. Spoiler: tende a piorar depois de um tempinho de casados.

Seu medo de ser “obrigada” a engravidar não deve ser ignorado. Relacionamentos saudáveis não geram esse tipo de temor. Relacionamentos baseados em respeito não fazem uma mulher cogitar que o companheiro possa tomar decisões sobre SEU CORPO. Ele não pode virar território de negociação ou coerção emocional, moeda de chantagem.

Cenários para o futuro

Insistir nessa relação esperando que ele entenda sua posição sobre filhos ou que o assunto “se resolva” sozinho é apostar demais com sua própria vida. Há quatro cenários que vislumbro aqui.

No primeiro, você cede aos apelos e vive uma maternidade indesejada, com altas chances de frustação e culpa. No segundo, você não cede e passa anos sendo pressionada, culpabilizada e vista como a mulher que “estragou sonhos”.

O terceiro cenário é uma possibilidade remota, um cenário de terror, mas que, infelizmente, acontece: ele pode fingir aceitar sua decisão, mas sabotar seus métodos contraceptivos. Recentemente, fiquei sabendo da história de um casal cujo marido furou as camisinhas e trocou os anteconcepcionais orais para que a mulher engravidasse. Não sei quais métodos você usa para prevenir uma gravidez, mas, a menos que você tenha controle absoluto (com implantes subdérmicos – com 0,05% de falha – ou DIU ) sobre eles, é algo a se evitar.

No quarto cenário, você encerra esse relacionamento agora e preserva sua autonomia, seus planos de carreira e vida e, principalmente, sua saúde mental.

Percebe como só um desses cenários respeita quem você é? Amar alguém não significa abrir mão de si. E casamento não é prêmio de resistência, nem contrato vitalício de concessões unilaterais, mesmo que seja sobre filhos. Se, mesmo antes de casar, você prevê uma relação complicada, acredite nos seus instintos.

Terminar dói. Mas muito mais doloroso é acordar, anos depois, com uma vida que lhe foi empurrada goela abaixo, em nome de amor, família e expectativas alheias.

Espero ter ajudado.

Tem dúvidas sobre relacionamentos? Mande um e-mail para telma@olondrinense.com.br

A leitora nunca quis ter filhos e deixou claro sua decisão quando começou a namorar. Agora, com o casamento marcado, o noivo está falando em "pensar" em ter filhos. O que você faria?
Tia Telma versão IA

Quem é a Tia Telma

Telma Elorza é jornalista, divorciada e adora dar pitaco na vida dos outros. Mas sempre com autorização.

Siga O LONDRINE̅NSE no Instagram

Leia mais colunas do Consultório Sentimental da Tia Telma

(*) O conteúdo das colunas não reflete, necessariamente, a opinião do O LONDRINE̅NSE.

Compartilhe:

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Anuncie no O Londrinēnse

Mais lidos da semana

Anuncie no O Londrinēnse

Opinião

Bolsa Família e escassez de mão de obra

Empresários e parte dos políticos insistem em culpar o programa Bolsa Família por falta de mão de obra no mercado. Mas eles esquecem que há outros fatores que influenciam mais que o programa

Leia Mais