Por Telma Elorza
“Tenho 35 anos e sou divorciada, sem filhos. Vi sua coluna na semana passada, sobre a mulher que está sendo ‘convencida’ a ter filhos, mesmo não querendo. Eu estou em uma situação semelhante, mas sendo pressionada insistentemente por meu ginecologista. Ele diz que minha fase mais fértil já passou e que seria interessante eu congelar meus óvulos para que pudesse vivenciar a maternidade mais pra frente. Já falei que não quero e ele fica insistindo muito, de forma até agressiva. Sim, vou mudar de ginecologista. Por que as pessoas, principalmente os homens, acham que a gente (mulher) tem que ter filhos para ser completa? Gosto da minha vida assim, sem esse compromisso para a vida inteira. É tão difícil aceitar isso?”
Depois da coluna da semana passada, recebi vários e-mails de mulheres relatando situações semelhantes à da leitora cujo noivo mudou de ideia e passou a querer ter filhos. E resolvi escrever mais um pouco sobre essa cobrança que as mulheres sofrem para serem mães. Mas vou um pouco além, explicando o contexto onde mulheres, feminismo e liberdade de escolher ter ou não filhos está desagradando governos do mundo inteiro.
Então vamos lá.
A discussão sobre ter ou não filhos deixou de ser um tema que interessa só ao casal e, mais especificamente, à mulher, para se tornar uma pauta de Estado em vários países. O Brasil está nessa lista. A queda das taxas de natalidade não é um fenômeno isolado, mas uma tendência global. Nos países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), por exemplo, caiu de 3,3 filhos por mulher em 1960 para 1,5 filho em 2022. Um índice muito abaixo dos 2,1 filhos por mulher necessários para manter a população de qualquer país estável sem imigração. E isso está preocupando os “donos do mundo” porque afeta o futuro da força de trabalho, financiamento de aposentadorias e até vantagens competitivas e dinamismo econômico geral.
No Brasil, essa queda mantém a tendência global. Segundo dados do IBGE, a taxa de natalidade está em níveis historicamente baixos, cerca de 1,5 filho por mulher, o menor patamar já registrado. Isso significa que, em algumas décadas, teremos um número cada vez menos de jovens entrando no mercado de trabalho.
É nesse contexto que o debate sobre maternidade, autonomia feminina e expectativas sociais precisa ser feito. Por um lado, é legítimo que os Estados se preocupem com tendências demográficas e elaborem políticas que incentivem a criação de filhos, como creches públicas acessíveis a todos, licenças parentais e redução do custo de vida para famílias. Em muitos países, políticas públicas já estão sendo estudadas e implementadas para responder ao envelhecimento populacional e às quedas de natalidade.
Por outro lado, a discussão fica complicada e muito preocupante quando o discurso de “estimular a maternidade” por questões econômicas começa a se misturar com ideias conservadoras sobre o papel da mulher na sociedade. É preocupante porque, em vários contextos, retomar uma visão tradicional de “família”, em que a mulher é vista principalmente como mãe e cuidadora, tem sido usado como argumento político, principalmente por parte da direita, para que a sociedade conservadora assuma essa pressão (efetivamente) sobre as mulheres. Até há rumores que o presidente estadunidense Donald Trump estaria elaborando políticas para retirar mulheres das universidades e mantê-las em casa, parindo. Rumores, mas, com o laranjão, é bom ficar espertas.
Valor da mulher não pode ser medido por filhos
E aqui entra meu conselho direto, como mulher, mãe e feminista: não aceite que seu valor como pessoa seja reduzido a uma função biológica de ter filhos ou a uma estatística demográfica. A ideia de que a mulher deva “voltar” à submissão ou que ter filhos é uma obrigação social ou “patriota” é uma forma de instrumentalizar uma expectativa social por trás de um fenômeno complexo. Submissão ao homem, maternidade e a dependência financeira ao marido não deve ser romantizado, como vem sendo feito nas redes sociais, pelo contrário.
Os direitos que as mulheres conquistaram como autonomia para comprar e vender um imóvel, estudar, votar, acesso ao trabalho e, principalmente, ao controle sobre o próprio corpo para não ter filhos dá justamente a opção de cada uma escolher verdadeiramente o que quer para si. Não imposições disfarçadas de políticas públicas.
Isso não significa que a questão demográfica seja irrelevante. Mas quando governos planejam estímulos à maternidade, eles precisam criar condições reais para que as mulheres façam essa escolha sem sacrifício extremo. Exemplos de políticas eficazes envolvem apoio entre a conciliação da vida profissional feminina com a familiar, licenças parentais compartilhadas entre mães e pais e incentivos fiscais à famílias com filhos. A experiência de países nórdicos mostra que onde há divisão de tarefas domésticas e apoio à parentalidade (e não apenas à maternidade), as taxas de natalidade tendem a ser relativamente mais altas. Não por obrigação, mas por suporte social.
A Suécia, por exemplo, dá 480 dias de licença paga por filho (inclusive para o pai, mas por um período menor), mais um subsídio mensal por filho e oferece creches públicas de qualidade totalmente subsidiadas para que os pais possam trabalhar tranquilos. A Dinamarca tem um forte sistema de benefícios familiares pagos em dinheiro e licenças parentais longas, com 80 a 100% do salário pago, além de creches acessíveis e amplamente disponíveis.
Além disso, associar diretamente a queda da natalidade à “crise de valores morais” ignora os fatores econômicos e sociais que são tão ou mais importantes. A vida mais cara, a falta de políticas de proteção social e o peso da dupla jornada pesam na decisão de ter filhos, principalmente numa sociedade ainda machista e patriarcal, onde a mulher ainda é vista “quase” como uma propriedade, basta ver a taxa de feminicídios. Ignorar tudo isso é simplificar demais um problema real.
É preciso analisar tudo isso antes de condenar uma mulher quando ela diz que não quer ter filhos. É preciso dar condições que sociais e econômicas que sustentem escolhas, não imposições. A resposta na queda na natalidade não deve retroceder nos direitos e na autonomia de escolha das mulheres.
E quanto à você, uma das várias leitoras que me escreveu contando que está sendo “doutrinada” a ter filhos, meu conselho é: resista. Se não quer, não quer e pronto. Não deixe ninguém a convencê-la do contrário. No caso da leitora de hoje, o que eu diria para ela é mudar de ginecologista. E isso ela já fez.
Espero ter ajudado.
Tem dúvidas sobre relacionamentos? Mande um e-mail para telma@olondrinense.com.br

Quem é a Tia Telma
Telma Elorza é jornalista, divorciada e adora dar pitaco na vida dos outros. Mas sempre com autorização.
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