Família do marido quer passar um mês em casa, no meu pós-parto

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Por Telma Elorza

“Preciso de ajuda urgente. Vivo em uma cidade litorânea no Nordeste. Tive bebê há menos de 15 dias e estou me recuperando da cesárea, sem poder fazer quase nada em casa, com muitas dores ainda. Mas a família do meu marido – sogros, cunhada, o marido dela e três filhos – resolveram vir ‘nos visitar’ para conhecer meu filho e, ao mesmo tempo, tirar férias. A ideia deles é passar um mês em casa. Não me perguntaram se podia, se eu estava de acordo. Combinaram com meu marido e ele não me falou nada. fiquei sabendo por acaso e quando reclamei, ele me disse para parar de drama. O que faço para impedir isso? Não quero minha casa cheia de gente num momento tão delicado. Me ajuda!”

Amiga,  você não está sendo dramática, está sendo a única adulta lúcida nessa história. Parir há 15 dias, de cesárea, com dor, hormônio dançando lambada aí dentro e um recém-nascido que depende 100% de você (com as comuns cólicas de recém-nascido e adaptações com noites mal dormidas? Afe!)? A família do bonitão aí é uma sem noção tremenda. Não é porque você mora numa cidade litorânea do Nordeste brasileiro que precisam transformar sua casa num resort all inclusive, neste momento!

Sinceramente, se a MINHA família dissesse que viria passar um mês em casa, mesmo sem bebê nenhum, eu já subiria nas tamancas e eles sairiam com dois quentes e três ferventes. Falta de noção se trata assim. Imagina a família do companheiro, que você não deve ter quase intimidade. Não é visita, é invasão abusiva.

Esse momento pós-parto é seu e de seu bebê. Vocês precisam de tempo, calma, paz e sossego para começar essa relação mãe/filho. Com o corpo se recuperando de uma operação que é fodida, como a cesárea, já é difícil. Imagina com uma casa cheia de parentes indesejados. Pós-parto não é e nem deve ser fase de socialização. Qualquer pessoa que minimiza esse período, inclusive o seu marido, está totalmente fora da casinha e mereceria ser tratado à vassourada.

Mas vamos aos planos práticos, porque revolta e indignação sem ação vira uma gastrite foda.

O primeiro passo é conversar com o marido sem rodeios. Explique – e desenhe se for preciso – que você está em recuperação cirúrgica, com dor (muita, eu sei, já fiz cesárea), risco de infecção, com movimentos limitados, privação de sono e criando uma rotina para seu filhinho. Portanto, esse não é o momento mais adequados para ter casa cheia, barulho, demandas, estresses, riscos. NÃO É OPINIÃO, é fato. E já avisa: “isso não vai acontecer”.

Se ele vier com “você está exagerando, fazendo drama”, já devolva: “ah, ótimo, então você assume todos os cuidados com a casa, limpeza, comida, das visitas, das crianças correndo e ainda garante silêncio absoluto para mim e seu filho. Consegue”? Spoiler: ele não consegue.

O passo dois é falar diretamente com a família. Nem se preocupe em ser diplomática. Expresse com todas as letras que você não quer e não pode receber visitas prolongadas agora, por orientação médica. Que está sangrando (sangramento pós-parto pode durar até 40 dias), com dores e sem condições físicas e psicológicas para receber pessoas por mais que uma hora por dia. Seja educada, sim, mas firme, clara e irredutível. Se alguém se ofender, problema dele. Quem tem bom senso entende. Mas talvez não seja o caso deles, né?

E se o marido continuar apoiando a família?

Se mesmo assim, a decisão da visita continuar em pé, com seu marido apoiando totalmente a família dele, você precisa ter um plano B ou até um plano C.

O plano B é buscar abrigo na casa de seus pais (não sei onde eles moram, se perto ou longe de você, mas pode ser também na casa de uma amiga). Se a família do marido for mesmo sabendo que você não os quer ali, saia você da casa. Vá para um local onde possa ter paz e sossego. Aposto que você tem, pelo menos, uma amiga que vai ficar feliz em ajudá-la. E, se tiver dinheiro, pode até pensar em se hospedar num bom hotel ou pousada.

Essa é a cartada mais segura para você e o bebê. Se você tem para onde ir, com cuidado, apoio e paz, vá. Sem culpa, sem drama, sem discursos. Sair do cenário é mais eficiente que mil discursos, brigas e acusações. E, de quebra, seu marido vai entender rapidinho a encrenca que ele criou quando tiver que lidar sozinho com a própria família.

O plano C só deve ser usado se você não tiver nenhum lugar para ir, nem dinheiro para se hospedar num hotel ou pousada. Se “entoque” no seu quarto (melhor ainda se for suíte) com seu bebê. Tranque a porta e deixe o mundo fora dessas quatros parede (nem seu marido deve ter autorização para entrar, mesmo para dormir). Só saia de lá o mínimo necessário, tipo para pegar comida. Só abra a porta para jogar as fraldas sujas no corredor e não interaja com ninguém. Se isso não for um sinal claro que não são bem-vindos, não sei mais o que seria. Quem sabe vão embora logo, né?

Mas o importante é o que você deve aprender com toda a situação. O maior erro aqui não foi da família invasiva, foi do seu marido. Que decidiu por você, sem ouvi-la. Isso precisa ser corrigido agora, porque amanhã ele pode tomar qualquer outra decisão absurda e você não vai ter voz. Casamento deve ser parceria, com conversas, decisões em comum e, principalmente, respeito. Se isso não está acontecendo agora, num momento delicado seu, cuidado. Fique esperta. E reveja se vale a pena continuar com um homem que acha que pode tomar decisões por você e seu corpo.

Espero ter ajudado.

Tem dúvidas sobre relacionamentos? Mande um e-mail para telma@olondrinense.com.br

A família do marido resolver visita-los no pós-parto da leitora, sem consultá-la e com apoio do parceiro. O que você faria?
Tia Telma versão IA

Quem é a Tia Telma

Telma Elorza é jornalista, divorciada e adora dar pitaco na vida dos outros. Mas sempre com autorização.

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