Por Telma Elorza
“Tenho 26 anos, faço faculdade (estou para me formar) e trabalho desde os 14. Sempre fui a mais responsável entre meus irmãos (tenho 2). O caçula, com 18 anos, também já começou a trabalhar e está , mas a de 23 não que quer saber de trabalhar e muito menos estudar, só quer ir para baladas e fazer compras. O problema é que minha mãe obriga eu e meu irmão a bancarmos as festas e roupas dessa irmã. Estou cansada de ser explorada e também me preocupo com meu irmãozinho, que nem ganha tanto assim. Como fazer para dar uma chacoalhada na família para ver se elas se tocam e parem de nos explorar?”
Ixi, amiga, família exploradora é foda, né? Isso parece estar ficando tão comum, hoje em dia. Mas senta aqui um pouquinho e vamos conversar por alguns minutinhos para ver se arrumamos uma solução para seu caso.
Vamos começar pelo óbvio: sua irmã de 23 anos está vivendo a vida como se fosse uma influencer de luxo, mas sem contrato, sem publi e – detalhe importante – sem renda. Os grandes patrocinadores são você e seu irmão, coagidos pela sua mãe. É tipo um reality show, um conto de fadas, onde dois trabalham, estudam, se dedicam e um vive como uma rainha, sob os auspícios da fada-madrinha que é sua mãe, garantindo que o fluxo de dinheiro para a belezinha não pare nunca. Seria interessante se não fosse revoltante.
Mas bora ao que interessa: como dar a tal “chacoalhada” nessa galera?
Vocês não são responsáveis pela sua irmã
Primeiro passo: conversa séria. Não é DR fofinha, não. É reunião extraordinária com pauta clara. Chama sua mãe e seu irmão (a estrela da balada pode entrar depois, para a parte final do espetáculo). Explique que vocês trabalham, têm suas próprias contas e que não existe justificativa para bancar quem decidiu viver como se estivesse de férias permanentes. E por dois motivos: a irmã já é adulta e não é responsabilidade de vocês. Diga isso sem rodeios, mas sem gritar — firmeza dói mais quando é dita com calma. Quem nunca levou uma patada educada e ficou dias refletindo?
Segundo passo: limite. E limite é limite, não é sugestão. Você e seu irmão precisam combinar entre vocês o seguinte: o dinheiro de vocês pertence a vocês. Parece óbvio? Para sua mãe, talvez não. Então definam juntos: acabou a era de financiar festinhas, looks novos e uma vida que nem vocês têm tempo de viver. Sua irmã quer balada? Ótimo, que trabalhe pra comprar a própria bebida. Quer roupa? Maravilha, salário é pra isso aí também — quando ela tiver um.
Terceiro passo: pare de pedir permissão. Quando a gente cresce como o adulto responsável da casa, a tendência é achar que precisa justificar cada movimento. Não precisa. Se sua mãe reclamar, dramatizar, jogar aquele “vocês estão abandonando a família”, lembre-se: família não é sinônimo de exploração. Amor não deveria vir com boleto embutido. E, sinceramente, se alguém aí está abandonando alguém, é sua irmã, que abandonou qualquer noção de responsabilidade. E também sua mãe, que, pelo favoritismo claro com a filha do meio, está explorando os outros dois.
Quarto passo: prepare-se para o show. Pode vir choro, drama, chantagem emocional, testamento emocional, teatro de quinta categoria. Famílias adoram um palco quando a fonte seca. Segure firme. Todo vício dói quando acaba, inclusive o vício de viver às custas dos outros.
Quinto passo: responsabilização. Sua irmã precisa entender que balada não paga aluguel e que fatura de cartão de crédito não é holograma. Se ela ficar revoltada, ótimo — raiva move mais do que preguiça. Quem sabe isso não a empurra pra um emprego? Às vezes, o empurrão é a melhor forma de carinho.
E, por último, um recadinho direto pra você: pare de tentar salvar todo mundo. Você já fez muito mais do que sua parte. Trabalhar desde os 14 é coisa de gente forte, e gente forte, muitas vezes, vira muleta dos outros sem perceber. Mas você não é muleta. Você é adulta, com futuro, com planos, com vida própria. E seu irmão também. Ninguém merece carregar gente que tá achando que a vida é open bar financiado pela família.
No fundo, a grande chacoalhada não é neles — é em você. É você perceber que só continua sendo explorada porque ainda aceita ser explorada. E não tô te julgando, tá? Isso acontece com um monte de gente que é “certinha”. Mas chega uma hora em que dá vontade de perguntar pro universo: “e eu, caramba?” Pois é. Chegou sua hora.
Então faça o seguinte: respire fundo, alinhe a coluna, coloque a voz no lugar e diga “não” com gosto. Um “não” bem dito muda famílias. E se não mudar, pelo menos muda sua paz — que já é mais do que qualquer balada da sua irmã poderia oferecer.
Se nada disso der certo, comecem a pensar, você e seu irmão, a buscarem um cantinho para vocês. Com o que atualmente gastam com a irmã exploradora, acho que daria para buscar um apartamentozinho, uma casinha, para os dois dividirem, inclusive o sossego. Você está prestes a se formar, portanto já pode pensar em sair da casa da mãe. Seu irmão já é maior e também já se mostrou responsável. Que tal se alinharem e darem uma banana para uma casa onde vocês não são respeitados? Não tendo os dois no mesmo local, para serem chantageados, com certeza as coisas podem mudar definitivamente
Agora é com você. Vai lá e acaba com esse patrocínio involuntário. Se tem alguém nessa história que merece viver uma vida boa — e financiada por si mesma — é você.
Espero ter ajudado.
Tem dúvidas sobre relacionamentos? Mande um e-mail para telma@olondrinense.com.br

Quem é a Tia Telma
Telma Elorza é jornalista, divorciada e adora dar pitaco na vida dos outros. Mas sempre com autorização.
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