Relembre a cena: o dia 20 de julho de 2013 reuniu mais de 1,5 milhão de pessoas em manifestações pelo Brasil todo contra o aumento de R$ 0,20 nas passagens do ônibus em diversas cidades. O resultado? Governo Federal e Congresso Nacional tomaram uma série de medidas para conter a onda de insatisfação política. Deu certo? Alguns anos mais tarde, os protestos se intensificaram culminando com o impeachment da presidente Dilma Rousseff. Existe, portanto, uma vontade coletiva?
A sensação que temos é que sim. A realidade, entretanto, é muito diferente. Vamos à filosofia? Um dos autores que trata desse assunto é o contratualista Jean-Jacques Rousseau. Resumidamente, acredita que a sociedade é criada a partir de um contrato social: o homem é bom e livre por natureza, mas quando surge a propriedade privada passa a conhecer a desigualdade, o que pode lhe tirar suas características naturais. Então, resolve criar a sociedade, que corrompe sua natureza.
Por isso é preciso estabelecer o que ele chama de vontade geral. Se no estado natural (antes da sociedade), o homem tem liberdade total, agora sua liberdade está cerceada pela civilidade, ou seja, pela lei. Assim como sua vontade. O homem não pode fazer tudo o que quer, mas apenas tudo o que está descrito nas regras. E isso, embora dê a sensação de que a voz dos cidadãos é ouvida, turva o real significado de vontade geral porque dá margem às vontades parciais, estabelecidas por grupos de poder, justamente o que se pretende combater.
Já para o pensador italiano Antonio Gramsci, a vontade social ou coletiva é resultado das relações interpessoais entre os homens e tem papel fundamental na construção de uma realidade social, de uma ordem social e política e, assim, se constitui como um elemento da própria democracia. O autor, todavia, vai além e considera a vontade coletiva como algo que provém da realidade objetiva. No caso, como seu pensamento é fundamentado no marxismo, vem das relações sociais de produção.
Podemos, então, fazer um paralelo com a realidade brasileira que despertou a partir de 2013? Se, por um lado, a vontade geral “acordou”, como bradavam gritos com palavras de ordem à época, a partir de incongruências nas relações de produção (o aumento da passagem de ônibus estava acima da inflação), também é certo que, infelizmente, noutros momentos a vontade geral esteve submissa às parcialidades que se deviam evitar, tais como quando o já então presidente Michel Temer foi flagrado em conversas suspeitas em maio de 2017, supostamente incentivando o pagamento de propina. Na ocasião, o gigante adormeceu. Por interesse de quem?
foto: Manifestações de 2013 – Wikipedia
Fábio Luporini

Sou jornalista formado pela Universidade Norte do Paraná e sociólogo formado pela Universidade Estadual de Londrina (UEL) . Fui repórter, editor e chefe de redação no extinto Jornal de Londrina (JL), atuei como produtor na RPC (afiliada da TV Globo), fundei o também extinto Portal Duo e trabalho como assessor de imprensa e professor de Filosofia, Sociologia, História, Redação e Geopolítica, em Londrina.

