Por Marcelo Minka
Nos cinemas, a semana em Londrina veio com aquela sensação de “já vi isso antes”: estreias corretas, mas sem um título que pareça inevitável para o leitor do O Londrine̅nse. O curioso é que o acontecimento pop mais comentado está fora da sala escura e dentro do streaming: Rivalidade Ardente, já completa na HBO Max. A série fez o que muita produção “de nicho” promete e não cumpre: furou bolhas e virou conversa de grupo de amigos, casal, academia, torcida, gente que normalmente não clica em romance esportivo.
Aqui vai um alerta de honestidade: quando se diz que “conquistou o público hétero”, dá para soar como se a aprovação viesse de um júri externo, como se o amor na tela precisasse de carimbo para valer. O que a série conquistou, na prática, foi público que gosta de narrativa bem calibrada, conflito claro e personagens com contradições reconhecíveis. E isso não é “pauta”, é dramaturgia.
O motor é simples e eficiente: dois astros do hóquei, Shane Hollander e Ilya Rozanov, que mantém uma rivalidade em público e são íntimos em segredo, presos num jogo de reputação, ambição e desejo que não cabe no discurso esportivo tradicional. A direção entende que rivalidade é embalagem; o conteúdo é o atrito entre identidade e imagem, entre o que se vive e o que se encena para sobreviver.
Os dois primeiros episódios chegam perto do soft porn. Não pelo explícito, mas pela insistência na eletricidade física e no risco, pela câmera que alonga a tensão até virar linguagem. É um começo que testa o espectador: quem vier pela curiosidade fica pela construção; quem vier caçando “tema” percebe que há mais artesanato do que cartilha.
Rivalidade Ardente também fora da tela

Parte do fenômeno de Rivalidade Ardente também nasce fora da tela. A série explodiu em recortes, memes, edits e discussões que atravessaram países, com o boca a boca digital empurrando gente para o “só vou ver o primeiro episódio” que vira maratona. Veículos brasileiros descrevem o título como sucesso global e fenômeno alimentado por redes sociais, justamente por manter a conversa acesa a cada capítulo e por gerar uma cultura de fandom muito ativa.
Quando a temporada chega ao quinto episódio, a série dá o salto que separa entretenimento de lembrança. Ele é inesquecível porque muda a escala emocional: o que era adrenalina vira consequência; o que era segredo vira peso. Sem precisar de reviravolta barata, o roteiro encontra um ponto de verdade em que nenhum dos dois consegue mais fingir que o jogo é só no gelo. É ali que Rivalidade Ardente prova por que furou bolhas: ela trata o romance como coisa séria, com custo, com perda, com escolhas que não cabem num placar.
Marcelo Minka

Mestre em Antropologia Visual (UEL), dá forma à linguagem estética da Angatu Joias, unindo arte, forma e símbolo em criações que revelam a poética entre design e significado. Artista visual e pesquisador, transita entre o pensamento e o fazer, inspirado pelas viagens, pelos sabores, pela natureza e pelas culturas que encontra pelo Brasil e pelo mundo. Cinéfilo nas horas vagas.
Me siga no Instagram: @marcelo_minka
Leia todas as colunas de Cinema
(*) O conteúdo das colunas não reflete, necessariamente, a opinião do O LONDRINE̅NSE


