Por Marcelo Minka
Num tempo em que quase tudo no cinema precisa gritar para parecer importante, Jim Jarmusch (Paterson, 2016) volta fazendo o oposto: baixa a voz, alonga o silêncio e observa o constrangimento familiar como quem examina uma rachadura que já estava na parede muito antes de alguém notar. “Pai Mãe Irmã Irmão” é um filme em três partes, ambientado em lugares diferentes, mas unido pela mesma matéria emocional: parentes que ainda se reconhecem pelo sangue, mas já não sabem mais se reconhecer pela linguagem.
O melhor do longa “Pai Mãe Irmã Irmão” é que ele recusa a histeria. Não há grandes explosões, revelações escritas em neon ou reconciliações fabricadas para arrancar aplausos. Há pausas, mal-entendidos, frases que chegam tarde demais e um humor seco que percebe algo essencial: muita família não acaba em tragédia, acaba em desgaste. O filme entende que o afeto pode sobreviver mesmo depois de perder a fluência, e transforma esse embaraço em forma. É um cinema de observação, não de explicação.

“Pai Mãe Irmã Irmão” não tem atores roubando a cena
O elenco é daqueles que, em outro tipo de produção, seria usado como vitrine. Aqui não. Cate Blanchett (Tár, 2022), Adam Driver (História de um Casamento, 2019), Charlotte Rampling (45 Anos, 2015), Tom Waits (Daunbailó, 1986) e Vicky Krieps (Trama Fantasma, 2017) sustentam presenças contidas, quase anti-vaidosas. Isso ajuda a firmar a proposta de “Pai Mãe Irmã Irmão”: ninguém está ali para “roubar a cena”, mas para habitar aquele desconforto miúdo e reconhecível que existe entre pais envelhecidos, filhos ressentidos e irmãos que compartilham memórias sem compartilhar mais intimidade. A escala é pequena, mas o eco é grande.
Isso não significa que o filme seja imune à crítica. Não é. Em alguns momentos, sua delicadeza beira a rarefação; há quem veja profundidade no que outros verão como frouxidão dramática. Essa objeção é justa. Jarmusch confia que o espectador adulto não precisa ser guiado pela mão a cada cinco minutos.
Para o público londrinense, aí está a força do filme. Ele oferece uma percepção precisa de como o amor, dentro da família, pode continuar existindo mesmo quando a convivência se torna opaca, defensiva, meio ferida. “Pai Mãe Irmã Irmão” talvez não seja um filme para todos, mas é claramente um filme para quem ainda espera que o cinema sirva não só para entreter, e sim para observar a vida comum com uma lucidez incômoda.
Marcelo Minka

Mestre em Antropologia Visual (UEL), dá forma à linguagem estética da Angatu Joias, unindo arte, forma e símbolo em criações que revelam a poética entre design e significado. Artista visual e pesquisador, transita entre o pensamento e o fazer, inspirado pelas viagens, pelos sabores, pela natureza e pelas culturas que encontra pelo Brasil e pelo mundo. Cinéfilo nas horas vagas.
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