OSCAR 2026: brasileiros estão na disputa real em duas frentes distintas e nobres

Kleber Mendonça e Wagner Moura

Na cerimônia deste domingo (15), O Agente Secreto tem indicações relevantes, incluindo melhor filme, melhor filme internacional, melhor elenco e melhor ator para Wagner Moura e Adolpho Veloso, indicado a melhor fotografia por Train Dreams

por Marcelo Minka

No Brasil, desta vez, acompanhar o Oscar não será apenas assistir ao ritual anual em que Hollywood distribui honrarias a si mesma enquanto tenta parecer ao mesmo tempo grandiosa, sensível e historicamente lúcida. Haverá razão concreta para prestar atenção. A cerimônia da 98ª edição acontece neste domingo, 15 de março, no Dolby Theatre, em Los Angeles, com transmissão no Brasil pela TV Globo, pela TNT e pela HBO Max.

A cobertura do tapete vermelho começa no início da noite e a cerimônia principal está marcada para as 21h, no horário de Brasília. O comediante Conan O’Brien volta como anfitrião de uma noite que promete menos autoparódia confortável e mais aquilo que toda premiação realmente precisa para fazer algum sentido: risco.

O Oscar de 2026 parece melhor do que muitos de seus equivalentes recentes justamente porque ainda hesita. Há anos a premiação vinha se tornando, com frequência constrangedora, uma espécie de ata de reunião com vestidos caros, um mecanismo de consagração que chegava à cerimônia já praticamente resolvido. Desta vez não.

Há uma disputa mais viva no centro da noite, e ela não opõe apenas filmes, mas temperamentos de cinema, fantasias de prestígio e maneiras diferentes de uma indústria explicar a si mesma o que considera importante.

De um lado está One Battle After Another (Uma Batalha Após a Outra), de Paul Thomas Anderson (Sangue Negro, 2007), com todo o peso do grande filme de autor que pede reconhecimento quase como reparação histórica. Do outro está Sinners (Pecadores), de Ryan Coogler (Pantera Negra, 2018), que cresceu como força da temporada não apenas por aclamação, mas porque transmite a sensação mais rara e mais difícil de domesticar: a de um filme que ainda pulsa.

Essa tensão ajuda a explicar por que a corrida principal parece mais interessante do que a média. Entre os indicados a melhor filme estão Bugonia, F1, Frankenstein, Hamnet, Marty Supreme, One Battle After Another, O Agente Secreto, Sentimental Value, Sinners e Train Dreams. O quadro é variado o bastante para sugerir um Oscar menos preso ao velho automatismo do consenso morno.

Sinners lidera em número de indicações e chega como presença robusta em múltiplas frentes, o que costuma ser sinal de capilaridade dentro da Academia. One Battle After Another, por sua vez, encarna o tipo de ambição formal e autoral que o Oscar gosta de abraçar quando deseja se ver como guardião da arte e não apenas como espelho da indústria. Entre esses dois polos, o prêmio de melhor filme deixa de ser simples confirmação e volta a ser escolha, o que é sempre mais digno.

O Agente Secreto corre por fora

Foto: Divulgação

Para nós, no entanto, a noite tem outro centro de gravidade. O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho (Bacurau, 2019), não aparece nesta edição como lembrança simpática de que o mundo existe para além dos Estados Unidos. O filme recebeu indicações relevantes, incluindo melhor filme, melhor filme internacional, melhor elenco e melhor ator para Wagner Moura (Tropa de Elite, 2007), e isso muda de escala o lugar que ele ocupa na conversa.

Não se trata apenas de um longa brasileiro respeitado no circuito externo. Trata-se de uma obra absorvida pela disputa principal sem ter precisado se descaracterizar para caber nela. Essa é a parte realmente significativa. O Agente Secreto não chega ao Oscar como turista. Chega como cinema.

E isso importa mais do que um leitor apressado talvez imagine. Há filmes internacionais que entram na temporada como cartões-postais de respeitabilidade, obras que o circuito anglófono acolhe desde que tragam uma dose administrável de exotismo, sobriedade e dor traduzível.

O Agente Secreto parece escapar um pouco dessa moldura. Sua presença sugere algo mais interessante: a possibilidade de que um filme de identidade forte, direção autoral reconhecível e densidade política própria possa ser levado a sério sem precisar pedir licença. Para o cinema brasileiro, isso vale quase como correção de escala. Durante muito tempo fomos admitidos na festa em regime de exceção. Desta vez, ao menos por um instante, estamos numa mesa menos periférica.

Brasil e as chances concretas no Oscar 2026

As chances concretas de prêmio pedem, ainda assim, menos entusiasmo e mais precisão. Em melhor filme, O Agente Secreto corre por fora. Essa continua sendo a categoria mais dependente de consenso amplo, articulação de campanha e conforto institucional. Filmes não falados em inglês ainda enfrentam barreiras reais ali, mesmo quando admirados.

Em melhor filme internacional, o cenário parece mais aberto ao longa brasileiro, embora a disputa permaneça forte. Já a indicação de Wagner Moura em melhor ator talvez seja um daqueles casos em que o gesto da nomeação já produz um efeito histórico antes mesmo do resultado. Há sinais de favoritismo para Michael B. Jordan (Creed, 2015), por Sinners, mas isso não reduz a importância da presença de Wagner. Reduzir seria não entender a gramática do Oscar. Nem toda vitória é a estatueta. Às vezes a vitória é entrar no campo central sem ser tratado como nota de rodapé.

Melhor fotografia: Adolpho Veloso

Créditos da imagem: Netflix/YouTube/Reprodução

E o Brasil não está representado apenas nesse eixo mais visível. Há também Adolpho Veloso, indicado a melhor fotografia por Train Dreams. Essa indicação tem um valor especial porque fotografia costuma ser uma categoria em que a retórica patriótica cai por terra rapidamente. Não basta “estar lá”; é preciso que o trabalho imponha linguagem, atmosfera, construção de mundo. E foi exatamente isso o que Veloso conseguiu.

Train Dreams aparece na temporada como um desses filmes em que a imagem não ilustra a narrativa, mas a funda, em que a paisagem deixa de ser pano de fundo e passa a pensar junto com o filme. Quando um brasileiro é lembrado por um trabalho assim, o que se reconhece não é apenas competência técnica, mas visão. E visão, em cinema, é o que separa o belo do necessário.

Talvez esse seja o traço mais bonito da participação brasileira neste ano. Não chegamos apenas por uma via. Estamos presentes em duas frentes distintas e nobres. De um lado, um longa autoral brasileiro em categorias centrais, incluindo melhor filme e melhor ator. De outro, um brasileiro reconhecido por um dos trabalhos visuais mais sofisticados da temporada.

É cedo para transformar isso em narrativa triunfalista, e convém resistir a esse vício nacional de chamar qualquer lampejo de “momento histórico” até esgotar a expressão. Mas é honesto dizer que há aqui algo raro: o Brasil aparece não como cota sentimental do resto do mundo, e sim como participante efetivo de debates estéticos relevantes dentro da premiação.

No restante da corrida, o Oscar parece preparado para distribuir poder. Frankenstein, de Guillermo del Toro (O Labirinto do Fauno, 2006), tem fôlego nas categorias técnicas e carrega o tipo de força artesanal que a Academia continua admirando quando bem embalada. Hamnet surge como presença importante em atuação, com Jessie Buckley (The Lost Daughter, 2021) bem posicionada.

Foto: Divulgação

Na direção, o embate entre Paul Thomas Anderson e Ryan Coogler talvez concentre o subtexto mais eloquente da noite. Se Anderson vencer, a Academia reafirma sua afeição pelo grande autor monumental, o cineasta que parece carregar o cinema como peso e legado. Se Coogler levar, o gesto será lido como reposicionamento histórico e estético, uma tentativa de dizer que Hollywood ainda consegue reconhecer energia contemporânea antes que ela seja transformada em peça de museu.

Também há pequenas mudanças institucionais que ajudam a dar algum verniz de seriedade adicional à cerimônia. A Academia passou a exigir que os votantes assistam aos filmes indicados em cada categoria antes de participar da votação final correspondente. Além disso, 2026 marca a estreia do Oscar de casting. Nada disso deve ser romantizado.

Oscar 2026, uma arena de vaidades

O Oscar continuará sendo uma arena de vaidades, campanhas, medos reputacionais e inclinações ideológicas, como sempre foi. Mas, ao menos no plano simbólico, essas mudanças sugerem uma tentativa de reduzir a sensação de voto por ruído, moda ou puro reflexo de corredor. Já é alguma coisa. Em tempos de opinião instantânea sobre obras não vistas, exigir que se veja o filme antes de premiá-lo chega a soar quase revolucionário, o que talvez diga mais sobre o nosso tempo do que sobre a Academia.

Créditos da imagem: Omelete – Montagem/Reprodução

No fim, o melhor que se pode esperar desta noite não é justiça, palavra severa demais para caber numa festa televisionada, mas revelação. Que o resultado diga alguma coisa verdadeira sobre a indústria que o produz. Se One Battle After Another vencer melhor filme, o Oscar estará premiando a forma clássica do prestígio, a crença persistente de que grande cinema ainda se parece com monumento. Se Sinners levar, a Academia estará tentando afirmar que ainda sabe reconhecer um filme quando ele vibra no presente em vez de apenas ser embalado para a posteridade.

E, para o Brasil, haverá uma narrativa paralela talvez ainda mais importante do que o vencedor principal. Assistiremos para ver até onde vai essa fresta aberta por O Agente Secreto e por Adolpho Veloso. Há anos o país não chegava ao Oscar com essa combinação de presença, densidade e legitimidade. Desta vez, ao menos por uma noite, não estaremos ali apenas para torcer. Estaremos ali para medir o tamanho do espaço que finalmente conseguimos ocupar.

Foto: capa: imagens.ebc.com.br

Marcelo Minka

Mestre em Antropologia Visual (UEL), dá forma à linguagem estética da Angatu Joias, unindo arte, forma e símbolo em criações que revelam a poética entre design e significado. Artista visual e pesquisador, transita entre o pensamento e o fazer, inspirado pelas viagens, pelos sabores, pela natureza e pelas culturas que encontra pelo Brasil e pelo mundo. Cinéfilo nas horas vagas.

Me siga no Instagram: @marcelo_minka 

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