O Drama troca conforto por veneno

O-Drama-1-1024x576

Por Marcelo Minka

Há filmes que querem comover. O Drama, de Kristoffer Borgli (Doente de Mim, 2022), prefere constranger. E faz bem. Num cinema cada vez mais obcecado em ser simpático, inclusivo, redondo e emocionalmente explicadinho, Borgli entrega um filme que troca conforto por veneno. O romance aqui não é promessa de redenção; é teste de resistência. Amar, no universo do filme, não significa acolher o outro, mas descobrir até onde se suporta a verdade quando ela deixa de ser abstrata e ganha corpo, rosto e passado.

O grande mérito de Borgli é entender que o escândalo contemporâneo não está apenas no que acontece, mas no modo como acontece socialmente. Nada existe sozinho: tudo vem acompanhado de julgamento, ruído, eco moral e ansiedade de posicionamento. O Drama fala de um casal, sim, mas seu verdadeiro assunto é outro: a fragilidade da intimidade num tempo em que todo mundo parece pronto para julgar e quase ninguém está realmente disposto a compreender. O filme não pede que o espectador escolha um lado com facilidade. Pede algo mais incômodo: que ele reconheça a própria pressa em condenar.

Zendaya (Duna, 2021) é o centro nervoso dessa provocação em O Drama. Há nela uma inteligência cênica rara, uma recusa muito precisa ao desejo de agradar. Sua personagem não se oferece como vítima nem como heroína, e essa recusa dá ao filme parte de sua força. Robert Pattinson (Batman, 2022) faz o contraponto com um talento especial para interpretar homens emocionalmente desorganizados sem transformá-los em piada ou em tese ambulante. Ele vai se quebrando aos poucos, e o filme tem a sensatez de entender que uma rachadura é sempre mais interessante do que um colapso barulhento.

O Drama não se contenta em ser um filme atual, é observador e, pior, é lúcido. O filme acerta porque não oferece limpeza emocional, deixando resíduos
Fotos: Divulgação

O Drama não se contenta em ser atual

O que torna O Drama especialmente bom é que ele não se contenta em ser “atual”. Ele é observador. Sabe que vivemos numa época em que a linguagem da empatia foi absorvida pelo vocabulário do julgamento. Fala-se muito em acolhimento, mas pratica-se triagem moral. Todo mundo parece disposto a entender, desde que o outro chegue previamente editado, explicado e absolvido. Borgli mira exatamente nessa hipocrisia elegante da vida contemporânea e a transforma em forma dramática. Não é um filme histérico. É pior: é lúcido.

Há aqui mais do que uma estreia comentável. Há um filme que toca num nervo real do presente. Num país em que a vida íntima virou espetáculo recorrente e a moral pública se alimenta de indignação instantânea, O Drama acerta porque não oferece limpeza emocional. Ele deixa resíduos. Pode desagradar, e isso conta a favor. Cinema que quer agradar a todos normalmente termina sem dizer nada a ninguém. Este prefere sair da sessão grudado na pele do espectador, como certas verdades que a gente rejeita primeiro e reconhece depois. Não é um filme amável. É um filme afiado. E, hoje, isso vale mais.

Marcelo Minka

Mestre em Antropologia Visual (UEL), dá forma à linguagem estética da Angatu Joias, unindo arte, forma e símbolo em criações que revelam a poética entre design e significado. Artista visual e pesquisador, transita entre o pensamento e o fazer, inspirado pelas viagens, pelos sabores, pela natureza e pelas culturas que encontra pelo Brasil e pelo mundo. Cinéfilo nas horas vagas.

Me siga no Instagram: @marcelo_minka 

Leia todas as colunas de Cinema

(*) O conteúdo das colunas não reflete, necessariamente, a opinião do O LONDRINE̅NSE

Compartilhe:

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Anuncie no O Londrinēnse

Mais lidos da semana

Anuncie no O Londrinēnse