Por Marcelo Minka
Sem lançamentos relevantes nas telonas, vamos escrever sobre um filme que estreou semana passada. Marty Supreme chega às salas de cinema como um dos títulos mais comentados da temporada e não apenas pelos trocadilhos com pingue-pongue. Dirigido por Josh Safdie, este drama esportivo ambientado na Nova York dos anos 1950 acompanha Marty Mauser, um hustler carismático e obsessivo interpretado por Timothée Chalamet, em sua busca por grandeza num esporte que ninguém leva a sério: o tênis de mesa. A trama é livremente inspirada na figura real de Marty Reisman, lenda do ping-pong que atravessou décadas como campeão e showman.
O que à primeira vista poderia soar como uma fábula excêntrica, um jovem perseguindo glória num esporte minoritário, transforma-se numa autópsia sagaz do sonho americano. A cinefilia de Safdie está lá: ritmo frenético, ambientação que transborda textura e uma câmera que parece perseguir a própria ansiedade do protagonista. Marty Supreme é, antes de mais nada, uma obra sobre ambição e o preço destrutivo que esta pode cobrar quando levada ao extremo, um tema que reverbera muito além das mesas de raquetes.
Marty Supreme: protagonista no Oscar
Além de sua força narrativa e estética, Marty Supreme se consolidou como um dos grandes protagonistas da temporada de premiações. O filme recebeu nove indicações ao Oscar 2026, incluindo Melhor Filme, Melhor Direção para Josh Safdie, Melhor Ator para Timothée Chalamet, além de nomeações em categorias técnicas como roteiro original, cinematografia, montagem, design de produção e figurino. Chalamet também figura entre os principais favoritos ao prêmio de Melhor Ator da cerimônia que será realizada em março de 2026.

Chalamet oferece uma das performances mais vigorosas de sua carreira, encarnando Mauser com uma mistura de vulnerabilidade e autodestruição que fez críticos ao redor do mundo aclamarem seu trabalho e conquistarem prêmios como o Golden Globe de Melhor Ator. Ele, e o filme em si, captura de maneira impressionante a pulsão de um homem que não só quer vencer, mas precisa vencer para se sentir visto.
No entanto, a própria ambição de Safdie pode ser também a sua armadilha: em vários momentos, a narrativa se perde num labirinto de anedotas e subtramas que soam mais como devaneios do que como avanço dramático. Essa sensação de sobrecarga, que alguns chamam de descarga adrenalínica intelectual, pode encantar espectadores que gostam de cinema que exige pensamento intenso, mas também cansar quem procura um arco emocional mais contido.
Além de Chalamet, o elenco impressiona com nomes como Gwyneth Paltrow, Odessa A’zion e Tyler, the Creator, cada um adicionando camadas inesperadas à tapeçaria caótica da história. A cinematografia de Darius Khondji e a trilha sonora de Daniel Lopatin também merecem destaque em Marty Supreme: juntas, elas elevam a sensação de que estamos testemunhando algo que vai além de uma simples narrativa esportiva.
Em sua essência, Marty Supreme é um filme que confronta o espectador com suas próprias expectativas sobre sucesso e identidade. É uma obra que pode dividir opiniões e isso é justamente parte do seu vigor artístico. Se o público sair da sala falando mais sobre a obsessão do protagonista do que sobre quem ganhou ou perdeu, então Safdie terá conseguido o que poucos filmes conseguem: nos fazer pensar.
Marcelo Minka

Mestre em Antropologia Visual (UEL), dá forma à linguagem estética da Angatu Joias, unindo arte, forma e símbolo em criações que revelam a poética entre design e significado. Artista visual e pesquisador, transita entre o pensamento e o fazer, inspirado pelas viagens, pelos sabores, pela natureza e pelas culturas que encontra pelo Brasil e pelo mundo. Cinéfilo nas horas vagas.
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