Por Marcelo Minka
Tem filme que chega cercado de prestígio, cheiro de prêmio, conversa de corredor sobre Oscar, e quando a gente senta para ver percebe que o pacote era maior que o produto. Devoradores de Estrelas, felizmente, não cai totalmente nessa armadilha. Mas também não sai ileso dela. É um filme bom, às vezes muito bom, embora em certos momentos tenha aquele ar de aluno brilhante que faz questão de levantar a mão o tempo todo para mostrar que entendeu a matéria. Você admira, claro, mas também dá vontade de dizer: calma, meu filho, respira.
A premissa de Devoradores de Estrelas é daquelas que a ficção científica adora: sujeito acorda sozinho numa nave, sem memória, sem contexto, sem nem o luxo básico de saber onde foi que a vida desandou. É quase uma segunda-feira cósmica. Aos poucos, o protagonista vai remontando não só a própria identidade, mas a dimensão da encrenca. E o filme acerta em cheio quando entende que espaço sideral não é só cenário para efeitos visuais bonitos; é também um triturador de ilusões. No espaço, some a pose, some a rede de apoio, some a conversa fiada. Fica você, sua cabeça e o tamanho do problema.
Ryan Gosling (Barbie, 2023) segura muito bem essa equação. Ele tem uma qualidade rara: consegue parecer inteligente sem ficar com cara de quem quer humilhar a plateia. Seu Ryland Grace não é um herói de bronze, desses que resolvem tudo com olhar firme e trilha sonora subindo. É um homem em desalinho, meio improvisado, tentando manter a compostura enquanto o universo lhe passa a conta. E isso ajuda muito, porque o roteiro flerta várias vezes com o risco de transformar seu protagonista naquele tipo insuportável de gênio que só existe para ser admirado. Gosling puxa o personagem de volta para a humanidade, que é sempre mais interessante que a competência.

Em Devoradores de Estrelas faltou a coragem de deixar o silêncio falar
O melhor do filme está justamente nessa mistura de escala e fragilidade. Quando ele confia na solidão, no estranhamento, no peso moral da missão, funciona lindamente. Quando decide explicar demais, mastigar demais, organizar demais a emoção, aí escorrega. Falta, aqui e ali, a coragem de deixar a cena em paz. O cinema contemporâneo anda com pavor de silêncio, como se o espectador fosse levantar da cadeira se passasse vinte segundos sem alguém explicar alguma coisa. Devoradores de Estrelas às vezes sofre desse mal. É como aquele amigo que conta piada e, antes de você rir, já começa a explicar por que a piada é boa.
Ainda assim, há algo de generoso nele. Devoradores de Estrelas quer encantar, quer pensar, quer emocionar. Quer ser grande sem ser cínico. E isso hoje já vale bastante, porque boa parte do cinema de estúdio anda parecendo reunião de marketing com orçamento bilionário. Aqui, pelo menos, existe uma tentativa real de ligar inteligência e afeto, ciência e espanto, cálculo e desamparo. Não é pouco.
Talvez Devoradores de Estrelas não seja a obra definitiva que alguns discursos de premiação insinuam. E tudo bem. Nem toda feijoada precisa de paio para ser boa. O que importa é que ele entrega uma ficção científica com cérebro, coração e alguma coragem, mesmo quando tropeça no próprio desejo de parecer importante. Numa temporada em que tanto filme se vende como acontecimento e entrega só espuma, este aqui pelo menos oferece substância. Não salva o universo do cinema, mas já ajuda bastante a passar a semana.
Marcelo Minka

Mestre em Antropologia Visual (UEL), dá forma à linguagem estética da Angatu Joias, unindo arte, forma e símbolo em criações que revelam a poética entre design e significado. Artista visual e pesquisador, transita entre o pensamento e o fazer, inspirado pelas viagens, pelos sabores, pela natureza e pelas culturas que encontra pelo Brasil e pelo mundo. Cinéfilo nas horas vagas.
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