Por Marcelo Minka
Há algo de sintomático em (Des)controle. Lançado em novembro de 2025 nos festivais de cinema e agora estreando para o grande público, o filme parece ter encontrado um tempo histórico mais afinado com sua proposta. Trata-se de um drama brasileiro que rejeita o alarde e a pedagogia emocional, preferindo observar o esgotamento como estado permanente. Em vez de narrar uma crise específica, o longa se constrói como uma experiência de pressão contínua, onde a sensação de instabilidade antecede qualquer acontecimento concreto. É um filme menos interessado em contar uma história do que em fazer o espectador habitar um clima — denso, silencioso, incômodo, algo que lembra profundamente nosso cotidiano.
A direção de (Des)controle aposta numa mise-en-scène de contenção rigorosa. Espaços cotidianos são filmados como se estivessem sempre um pouco menores do que deveriam ser; a câmera raramente oferece alívio visual, e a montagem evita ritmos catárticos. Tudo contribui para uma percepção de desgaste acumulado, como se o filme estivesse constantemente à beira de um colapso que nunca se consuma de forma espetacular. (Des)controle pertence a uma linhagem de cinema que confia no desconforto como linguagem e recusa a ideia de resolução como obrigação narrativa. Isso pode afastar parte do público, mas é justamente o que dá consistência estética ao projeto.
Tematicamente, (Des)controle dialoga com um Brasil urbano atravessado por demandas de desempenho, equilíbrio e autocontrole, onde o fracasso emocional é tratado como falha individual e não como sintoma coletivo. O filme evita discursos explícitos, mas seu comentário social emerge da observação minuciosa do cotidiano: relações familiares tensionadas, ambientes profissionais sufocantes, afetos corroídos pela exaustão. Ao não oferecer respostas ou diagnósticos claros, (Des)controle se coloca como um retrato aberto, mais próximo da experiência vivida do que da tese sociológica.
Atuação é fundamental em (Des)controle

É nesse ponto que o trabalho dos atores se torna fundamental, sem jamais tomar o centro do filme. Carolina Dieckmann (Avenida Brasil, 2012) sustenta a narrativa com uma atuação baseada na economia e no desgaste progressivo, recusando explosões dramáticas fáceis. Caco Ciocler (Tropa de Elite, 2007) atua como força de contenção emocional, quase sempre em registro baixo, enquanto Júlia Rabello (Porta dos Fundos, 2012) introduz um contraponto mais direto e verbal, sem romper o tom geral. Irene Ravache (A Mulher do Meu Amigo, 2008) e Daniel Filho (O Quatrilho, 1995) acrescentam densidade às relações familiares, trazendo à tona camadas de cansaço e frustração que antecedem a narrativa. O elenco, como um todo, trabalha a favor do filme, nunca acima dele.
(Des)controle não é um filme de impacto imediato, mas de permanência, sugerindo que certas obras precisam de tempo para serem percebidas. Num cenário dominado por narrativas explicativas e emoções sublinhadas, o longa se destaca pela sobriedade e pela confiança na inteligência do espectador. Um filme que não pede identificação fácil, mas oferece algo mais raro: reconhecimento incômodo. Ao lado de O Agente Secreto, mais um bom filme brasileiro em cartaz.
Marcelo Minka

Mestre em Antropologia Visual (UEL), dá forma à linguagem estética da Angatu Joias, unindo arte, forma e símbolo em criações que revelam a poética entre design e significado. Artista visual e pesquisador, transita entre o pensamento e o fazer, inspirado pelas viagens, pelos sabores, pela natureza e pelas culturas que encontra pelo Brasil e pelo mundo. Cinéfilo nas horas vagas.
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