A Noiva! tem personalidade própria

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Por Marcelo Minka

Há filmes que chegam aos cinemas querendo atualizar um mito. E há filmes que chegam querendo provar que têm personalidade suficiente para encarar esse mito sem pedir licença. A Noiva!, em cartaz nos cinemas da cidade, pertence claramente ao segundo grupo.

Escrito e dirigido por Maggie Gyllenhaal (A Filha Perdida, 2021), o longa parte do imaginário de Frankenstein, do romance de Mary Shelley (Frankenstein, 1818) e também da sombra de James Whale (A Noiva de Frankenstein, 1935), mas tenta deslocar o centro de gravidade da história. Em vez de tratar a criatura feminina como apêndice do horror masculino, o filme a empurra para o primeiro plano e pergunta o que acontece quando uma mulher criada para ser desejo alheio resolve existir como problema, força e desordem.

A trama de A Noiva! se passa em Chicago nos anos 1930 e acompanha uma jovem assassinada que é trazida de volta à vida para se tornar companheira do monstro. Jessie Buckley (Os Banshees de Inisherin, 2022) assume essa figura com o tipo de presença que nunca pede simpatia fácil. Ela não interpreta uma “vítima reanimada”, mas uma consciência em combustão, alguém que nasce já contaminado pelo olhar dos outros e, justamente por isso, transforma cada cena numa disputa por autonomia. Christian Bale (Batman: O Cavaleiro das Trevas, 2008), como o monstro, entra menos como centro emocional e mais como contraponto bruto, enquanto Jake Gyllenhaal (O Abutre, 2014) integra um elenco que reforça a sensação de espetáculo gótico, excessivo e deliberadamente febril.

A Noiva! chega deslocando o centro de gravidade história, fazendo a criatura feminina deixar de ser apêndice do horror masculino
Fotos: Divulgação

O que torna A Noiva! interessante

Não é só a premissa, mas a disposição de Maggie Gyllenhaal em filmar o grotesco sem domesticá-lo que torna o filme interessante. Há, ao que tudo indica, um desejo claro de misturar romance, terror e melodrama com uma energia quase punk, sem a reverência acadêmica que costuma asfixiar releituras de clássicos. Isso pode dividir público e crítica, porque o filme parece menos preocupado em ser “elegante” do que em ser inquieto. Esse é, ao mesmo tempo, seu trunfo e seu risco. Quando funciona, a obra parece viva, impura, perigosa. Quando força a mão, corre o risco de parecer um gesto de estilo muito consciente de si. Ainda assim, entre a assepsia dominante do cinema de franquia e um delírio autoral com dentes, é melhor ficar com o delírio.

Talvez o mérito maior de A Noiva! seja lembrar que monstros continuam úteis quando falam menos sobre laboratório e mais sobre fabricação social. Quem é montado pelos outros, quem recebe um papel antes de ter uma voz, quem é desejado antes de ser compreendido, tudo isso está embutido nessa história desde sempre. O filme parece entender que o horror mais duradouro de Frankenstein nunca foi o choque elétrico que anima a carne, mas a arrogância de quem acredita ter o direito de inventar a vida alheia. Se A Noiva! estiver à altura do que promete, não será apenas um filme de atmosfera sombria. Será uma história sobre criação como violência, desejo como posse e identidade como revolta. E isso, num cinema cada vez mais treinado para não ofender ninguém, já é quase um milagre indecente.

Marcelo Minka

Mestre em Antropologia Visual (UEL), dá forma à linguagem estética da Angatu Joias, unindo arte, forma e símbolo em criações que revelam a poética entre design e significado. Artista visual e pesquisador, transita entre o pensamento e o fazer, inspirado pelas viagens, pelos sabores, pela natureza e pelas culturas que encontra pelo Brasil e pelo mundo. Cinéfilo nas horas vagas.

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