Em 1993, eu e Mira Benvenuto fomos convidadas para darmos aula no bairro União da Vitória…Para quem lembra, naquela época era um dos bairros problemáticos da cidade e várias famílias moravam debaixo de lonas…Muitas delas vinham de sítios.

O projeto geral era custeado pela prefeitura, o nosso projeto de arte, era…como direi? Um projeto dentro de outro! Nós tivemos a ideia de dar aulas como voluntários pois tínhamos a esperança de levar um pouco de tudo de bom que a arte nós trouxe.

Começamos no espaço de uma das igrejas do bairro…barracão cheio de goteiras e só tínhamos papel e giz de cera …Aos poucos fomos levando materiais que conseguíamos e, de verdade, ensinamos as crianças até a pintar nas pedras das ruas…
Com o tempo a igreja não quis mais as crianças lá, então fomos para outro barracão, um pouco melhor ….
Éramos vários voluntários que trabalhavam com as crianças de diferentes formas, desde a dona Gel, mulher forte na comunidade (e que era o tipo de pessoa que você queria ter o respeito dela!), que fazia as refeições para as crianças, até o pessoal do bairro e alguns orientadores que eram mandados pela prefeitura.
Não era fácil ser aceito pelas crianças, e o trabalho era árduo, pois tivemos que demonstrar que éramos sérias e constantes…Fora que toda sexta feira quando chegava em casa, geralmente eu tinha crises de choro….Eram tantas histórias tristes e tanta criança passando necessidade de tudo…

Foram 8 anos trabalhando no projeto, foram anos de ensinamento e de aprender como e porque as coisas nesse país não funcionam! Fizemos várias exposições e cada uma delas era um desafio diferente, não com as crianças em si, mas com o preconceito!
Na primeira expo, eu quis fazer na antiga sala Antônio Teodoro. Quando levei o projeto foi recusado. A diretora na época me disse que seria melhor eu mostrar obras de crianças da classe “A e B”…

Imaginem uma pessoa com uma pasta imensa…saindo do Museu de Arte indignada e soltando fogo! No caminho encontrei o Berrone (grande artista) que fazia parte do conselho…Ele me parou na rua e disse: “Não fique assim! Vai falar com o secretário da cultura, você vai conseguir!”
Eu fui! Pedi uma reunião aquele dia mesmo e já entrei abrindo a pasta na mesa do professor Alcides! Fiz o discurso acalorado com a frase final: “Professor, o mundo todo falando de cuidar das crianças e Londrina fazendo isso? Se eu não tiver as duas salas vou na imprensa e vou dizer que a cidade rejeita suas crianças!” Bom….as crianças expuseram na Antônio Teodoro!
O nosso projeto culminou com a pintura e as esculturas do PAI, como éramos o único projeto dela arte da cidade, fomos convidados …Mas, claro que seria de graça…Mais uma vez, com ajuda de amigos artistas, conseguimos com que as crianças que pintaram o muro recebessem um cachê e feitas 400 camisetas com as fotos do mural…Todo o dinheiro foi revertido para as famílias do projeto.
Foram tantas histórias, tantos momentos que dariam muitas colunas…E a ideia é contar um pouco de cada vez para vocês…
Por quê falar desse projeto depois de tanto tempo? Porque o mural do PAI foi apagado! Tínhamos a esperança de fazermos um filme dos projetos e do mural e mandar para o Unicef…a prefeitura nunca se interessou…

A ideia era a de que o projeto como um todo, com as oficinas de dança (que foi criado por um rapaz do próprio projeto que ainda conseguiu fazer a sala de espelhos), a oficina de trabalhos manuais, a de reciclagem , de atividades físicas…Todas seriam incluídas no filme e mais todo o processo dos artistas convidados e das crianças do começo ao fim do mural e as esculturas…Nunca aconteceu…
No final das contas, o mural caiu no esquecimento e ninguém deu a mínima importância a ponto de passar tinta por cima de tudo…Acredito que o mesmo será feito com as esculturas…Se já não estiverem no lixo.
O que me consola é que o projeto, como um todo, abrigou e cuidou de muita gente, não só as crianças, mas todos nós que crescemos como seres humanos batalhando pelo o que mais importa: vidas humanas!

Minha homenagem para Eloiza, Negão (in memoriam), Marly e todas as assistentes sociais que nos deram força, aos orientadores que passaram o “pão que o diabo amassou com o rabo” para conseguirem suas salas e darem mais estrutura para as crianças e, claro, aos jornalistas que sempre nos apoiaram também, com reportagens incríveis! Meu muito obrigada!
Boa semana e gente: #sejamresponsaveis #usemmascara
Angela Diana

Sou londrinense e me dedico à arte desde 1986 quando pisei pela primeira vez no atelier de Leticia Marquez. Fui co-fundadora da Oficina de Arte, em parceria com Mira Benvenuto e atuo nas áreas de pintura, escultura, desenho e orientação de artes para adolescentes e adultos.
Fotos: Acervo pessoal

