Por André Luiz Lima
Hoje, pensando sobre a travessia, me dei conta de quantas formas ela assume.
Travessia pode ser uma região.
Um continente.
Um mar.
Uma mudança de trabalho.
Um recomeço silencioso.
Ou simplesmente o deslocamento interno entre quem fomos e quem estamos nos tornando.

E foi nesse pensamento que me veio uma lembrança doce.
Em minhas andanças com o Comboio Cultural, viajando por várias cidades como contador de histórias, encontrei o menino José — pés descalços, olhar aceso e o céu como testemunha.
Ao convidá-lo para entrar na história, coloquei em sua cabeça meu pandeiro como coroa e o consagrei rei.
Mas foi ele quem me coroou.
Apontou uma estrela e me disse que aquela era minha. Que sempre que eu olhasse para o céu saberia que ele me ama.
Ali compreendi algo que nunca mais esqueci:
a arte é travessia.
O menino que fui encontrou o menino que ele era.
E, naquele encontro, dois reis nasceram.
Desde então, entendo que são as mãos que se levantam ao longo do caminho que me ajudam a atravessar.

E é por isso que sempre trago a arte comigo — esse olhar sutil, acolhedor, respeitoso, amoroso. Porque atravessar não é empurrar. É sustentar.
E talvez seja por isso que, ao pensar sobre expressão, eu não consiga separá-la da travessia.
Há uma diferença silenciosa entre aprender a falar e aprender a se expressar.
A primeira busca técnica.
A segunda exige encontro.
A travessia exige compromisso
Nos últimos dias, algumas pessoas me procuraram querendo melhorar a oratória. Queriam falar melhor em público, organizar ideias, projetar a voz, sustentar presença diante da câmera. Tudo legítimo. Tudo necessário.
Mas algo sempre me chama atenção: quase nunca o problema começa na fala.
Começa antes.
Na respiração encurtada.
No corpo que não se escuta.
Nas crenças que moldam a própria imagem.
Na dificuldade de se ver com honestidade.
Na fragmentação entre o que se sente e o que se diz.
Vivemos um tempo que valoriza a performance. Ajustamos postura, treinamos dicção, aprendemos técnicas de persuasão. Mas seguimos, muitas vezes, sem saber quem está falando dentro de nós.
A verdadeira expressão não nasce da garganta.
Nasce do encontro.
Encontro consigo mesmo.
Encontro com o outro.
Encontro com aquilo que ainda está em construção.
Talvez por isso exista resistência quando falamos em processos mais profundos. Queremos ferramentas rápidas, resultados imediatos, métodos objetivos. E quando ouvimos o valor de um percurso contínuo — que envolve olhar, escuta, prática e reorganização interna — o susto aparece.
Não porque seja caro.
Mas porque exige compromisso.
Compromisso com a própria travessia.
A técnica melhora a fala.
O encontro transforma a presença.
E presença não se compra pronta.
Constrói-se.
Quando alguém chega buscando oratória, muitas vezes está buscando autorização para existir com mais clareza. Quer ser ouvido — mas ainda não se escutou. Quer convencer — mas ainda não se alinhou. Quer ensinar — mas ainda está atravessando silenciosamente suas próprias dúvidas.
Não há julgamento nisso.
Há humanidade.
A arte dos encontros nasce exatamente nesse ponto: sustentar um espaço onde a expressão possa amadurecer. Onde o corpo participe. Onde a respiração organize o pensamento. Onde o silêncio também tenha valor. Onde não seja preciso performar para ser aceito.

Oratória, quando desconectada do ser, vira técnica vazia.
Expressão, quando amadurecida no encontro, vira presença.
E presença comunica antes da palavra.
Talvez o que muitos chamam de “melhorar a oratória” seja, na verdade, um desejo mais profundo: reorganizar a própria presença diante da vida.
A travessia da expressão não é sobre falar bonito.
É sobre sustentar quem se é enquanto se fala.
E isso não se aprende em um truque.
Aprende-se em processo.
Em campo compartilhado.
Em encontros reais.
Porque a verdadeira fala começa antes da voz.
Começa quando alguém aceita atravessar a si mesmo.
Sempre antes.
É a partir dessa compreensão que nascem os encontros O Poder da Expressão.
Um espaço vivo para pessoas em fase de transição — profissionais mudando de área, criativos que sentem sua potência espalhada, empreendedores reorganizando identidade, pessoas que percebem que já não cabem onde estão.
Um encontro para quem deseja organizar narrativa, clarear direção e sustentar presença.
Não é palestra.
Não é curso técnico.
Não é terapia.
É travessia com clareza, ferramentas e presença.
Um campo seguro onde o corpo participa, a escuta acontece, a expressão amadurece e cada pessoa constrói sua própria forma de existir e comunicar.
Porque melhorar a oratória pode ser apenas o começo.
A verdadeira transformação acontece quando alguém se encontra antes de falar.
E talvez seja isso que este tempo esteja pedindo de muitos de nós:
não mais técnicas isoladas, mas espaços de encontro.
Viva a Arte dos Encontros.
Viva a Vida, André.
Foto principal: Freepik
André Luiz Lima

Londrinense, ator, diretor, professor, palestrante e produtor cultural.
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Respostas de 4
Perfeito, tradução do que queremos para nossa expressão, seja como indivíduos únicos na busca de identidade ou de n de pessoas com os meemos objetivo de vida! obrigada André Luiz Lima pelas palavras compartilhadas em sua coluna!
Obrigado Andrea… Muito bom ter você por aqui!
Sempre muito bom ler você.
Que honra minha! Obrigado Edra.