Na rua, na chuva, numa casinha verde

malvarosa

Raquel Santana (*)

Cheguei em Londrina para prestar vestibular em 1982. Numa época em que internet era ficção científica e a gente procurava hospedagem em catálogo telefônico ou classificados de jornal, consegui o contato do pensionato da dona Catarina, na secretaria do cursinho quando me inscrevi para o vestibular.

Cheguei numa manhã quente de verão, na antiga rodoviária. Ao passar no vestibular, nada mais natural do que ir morar no pensionato, já que era meu único ponto de referência na cidade . A casa – uma mansão ao estilo inglês -, ficava na esquina da Paranaguá com a Sergipe e hoje virou um prédio de luxo. Nela, havia inúmeros quartos, todos lotados de beliches.

Era uma profusão de camas empilhadas que se misturavam aos lustres de cristal, remanescentes dos antigos donos, barões do café. Um paranauê neo-clássico inglês, decadente, mas digno. Um amigo levou alguns pingentes de lembrança quando saiu e até hoje usa como decoração e cenário.

No pensionato, as meninas ficavam na casa principal e os meninos, nas dependências dos fundos. No quintal, um casal de cães da raça Doberman fazia a festa nas roupas do varal e em quem ousasse invadir o espaço deles. Incrível, mas fiz amizade com a dupla. E com o pensionato inteiro. Algumas, carrego pra vida até hoje.

Talvez por isso tenha ganhado a confiança de dona Catarina, uma nissei rígida, que assim garantia a integridade das moçoilas do pensionato, incluindo eu. Com o passar do tempo fui me enturmando e descobri as repúblicas da cidade. Claro que queria sair debaixo do quimono da Catarina.

Na sala da universidade, uma colega de São José do Rio Pardo me convidou para dividir apartamento com ela, a irmã e mais duas amigas da mesma cidade. Lá fui eu com minha mochila para um cubículo, na Souza Naves. Lá, comi o pão que o Diabo amassou. Como elas eram amigas de infância, eu era o peixe fora d’água. Estava tão triste que até pensei em voltar pra casa.

Quase sem dinheiro, foi numa tarde de um dia de chuva de verão que bateram na minha porta e deu-se o seguinte diálogo: viemos buscar você pra tomar chuva e morar com a gente. Fomos primeiro para um apartamento na Rio de Janeiro e depois para a Casa Verde da Paranaguá.

Toda vez que chovia nas tardes quentes de Londrina, nem precisava falar nada. Um olhava pra cara do outro, colocava uma roupa velha e saía tomar banho. Tem uma história clássica do choque que levei num poste, na esquina da Biblioteca Pública. Foi sério. Fiquei grudada. Se não fosse a rapidez de um amigo nem sei o que poderia ter acontecido. Pior que ele encostou em mim e ficamos nós dois “grudados”. A vida toda ele, ao esbarrar em mim, fazia um som com a boca e a gente rachava de rir.

Tomamos muita chuva, porre, dividimos histórias, agregamos amigos, nos dividimos, nos separamos, formamos nossas próprias famílias. Alguns dos nossos já não estão mais aqui, incluindo o amigo do choque. Foram tomar chuva no céu. Agora, cada vez que chove e vejo o clarão de um relâmpago, acho que é ele tirando sarro na minha cara. Bzzzz

(*) É jornalista radicada em Curitiba mas apaixonada por Londrina

Foto: Acervo Pessoal

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