Por Marcelo Minka
Uma criança que gosta de futebol, dança e maquiagem não carrega contradição alguma. A contradição pertence aos adultos que celebram sua habilidade com a bola e vigiam seus gestos fora do campo. Feito Pipa, dirigido por Allan Deberton, chegou aos cinemas londrinenses e coloca essa violência cotidiana dentro de casa, no lugar em que o cuidado deveria começar.
Gugu, interpretado pelo jovem ator Yuri Gomes, vive com a avó Dilma, professora aposentada vivida por Teca Pereira. Perto dos 12 anos, encontra nessa convivência espaço para experimentar o mundo sem transformar cada preferência numa justificativa. O pai Batista, papel de Lázaro Ramos, representa uma relação atravessada por distância, expectativas e dificuldade de acolhimento. O avanço do Alzheimer da avó ameaça a continuidade da vida que o menino conhece.
O roteiro de Feito Pipa, de André Araújo, estabelece um conflito que vai além da aceitação da diferença. O medo de Gugu envolve perder a pessoa com quem sua existência dispensa defesa. Quando tenta esconder a doença de Dilma para evitar a mudança para a casa paterna, ele procura preservar o próprio abrigo. Esse segredo revela a gravidade de uma infância que precisa administrar os preconceitos dos adultos para continuar sendo infância.
Há algo profundamente político na liberdade oferecida pela avó, em Feito Pipa. Dilma permite que o neto descubra seus desejos sem exigir antecipadamente um destino, uma identidade fechada ou um modelo de masculinidade. Sua atitude questiona a educação fundada na vigilância. Quantas vezes a palavra proteção serve para encobrir o esforço de fazer uma criança caber na imagem que a família escolheu para ela?
Batista traz para essa discussão uma responsabilidade incontornável. O amor de um pai precisa chegar ao filho em forma de escuta, presença e segurança. A intenção de amar não apaga a ferida produzida pela rejeição. Reconhecer as dificuldades de um adulto exige também reconhecer sua obrigação de enfrentá-las. A criança não pode receber a tarefa de educar quem deveria ampará-la.
Feito Pipa mais que um drama familiar

Em Feito Pipa, essa mesma exigência impede uma leitura confortável do vínculo entre Gugu e Dilma. O cuidado do neto comove e expõe uma injustiça. Uma criança às voltas com a doença de quem a cria precisa de uma rede de apoio. Celebrar sua coragem sem perceber a sobrecarga transforma abandono em virtude. A beleza dessa relação convive com a urgência de garantir proteção aos dois.
Avó e neto vivem ao lado de uma barragem cujas águas, após anos de seca, revelam as ruínas de uma cidade submersa. A paisagem oferece uma imagem expressiva para pensar a memória. Enquanto o passado reaparece no território, as lembranças de Dilma ficam ameaçadas. A leitura desse encontro entre cidade e corpo amplia o drama familiar. Uma casa guarda histórias, hábitos e maneiras de reconhecer o outro. Sua perda atinge também quem construiu ali o próprio pertencimento.
Feito Pipa merece atenção por reunir essas questões em torno de um menino que deseja viver, jogar bola e experimentar suas possibilidades. Seu conflito nos alcança porque nasce de gestos familiares, de expectativas transmitidas como certezas e de afetos condicionados à obediência. A liberdade de Gugu exige adultos capazes de rever a própria ideia de amor. Criar um filho implica abrir espaço para uma pessoa cuja vida ultrapassa os nossos planos.
Escolhido pela Academia Brasileira de Cinema para representar o Brasil na disputa por uma indicação a Melhor Filme Internacional no Oscar de 2027, Feito Pipa leva essa discussão a uma vitrine mundial. A escolha nacional é uma etapa da seleção e a indicação ainda está em disputa. Sua força está em apresentar ao mundo um Brasil em que a liberdade de uma criança e a dignidade de uma mulher idosa merecem o centro da narrativa. A torcida pela estatueta ganha sentido quando amplia o encontro do público com essa história. Antes de qualquer prêmio, permanece a exigência que Gugu nos dirige, aprender a amar sem diminuir a vida do outro.
Marcelo Minka

Mestre em Antropologia Visual (UEL), artista visual e pesquisador, transita entre o pensamento e o fazer, inspirado pelas viagens, pelos sabores, pela natureza e pelas culturas que encontra pelo Brasil e pelo mundo. Cinéfilo nas horas vagas.
Me siga no Instagram: @studio6minka
Leia todas as colunas de Cinema
(*) O conteúdo das colunas não reflete, necessariamente, a opinião do O LONDRINE̅NSE
