Coletivo Marianas na Conferência UNESCO: as barreiras de gênero na economia criativa

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Por Edra  Moraes

Na última semana participei, na Universidade Federal de Viçosa (UFV), em Minas Gerais, da III International Conference of Creative Economy & Public Policies (ICCEPP 2026) que reuniu pesquisadores, gestores e profissionais da cultura, e foi promovida pela Cátedra UNESCO em Economia Criativa e Políticas Públicas. Fomos até lá apresentar, junto com os pesquisadores Andréia Ticiane Pires de Carvalho e Fernando Antonio Prado Gimenez, da Universidade Federal do Paraná (UFPR), o artigo completo Empreendedorismo coletivo na cultura: o caso do Coletivo Marianas. Em resumo: um coletivo de escritoras de Curitiba, com 150 integrantes e 12 anos de existência, virou objeto de pesquisa acadêmica, e a roda de debate que se seguiu à apresentação mostrou que o maior obstáculo na carreira dessas mulheres não é o talento. É a estrutura que as cerca.

A III ICCEPP 2026: economia criativa, políticas públicas e território em Viçosa

A conferência, sediada pela UFV, reuniu acadêmicos, profissionais e participantes do Brasil e do exterior e integrou três eventos: o XI Seminários InterNacionais de Administração Pública (SINAPs), o Simpósio Internacional de Educação Básica, Criativa e Inovadora (SIEBCI) e o Simpósio Internacional de Políticas Públicas em Turismo (SIPPTur), realizado de 12 a 15 de outubro com o tema do turismo em interface com a economia criativa.

É a terceira edição de uma série que já passou por Ouro Preto, em 2022, e por Belém, em 2024, e que a rede da Cátedra UNESCO, com sede na UFV, mantém com plano de trabalho renovado em 2026 para um ciclo que vai até 2030. A programação distribuiu mesas, sessões de trabalhos e debates entre prédios do campus, como a Biblioteca Central e o Pavilhão de Aulas II, e adotou o formato “Lixo Zero”, com lixeiras separadas para orgânicos e recicláveis, bebedouros em vez de água engarrafada e compostagem. Uma coerência que merece registro num setor que fala tanto de sustentabilidade.

O que torna essa conferência relevante para quem trabalha com cultura é que ela costura ensino, pesquisa, extensão e inovação, e aproxima a academia de quem formula política pública. É esse tipo de ponte que a economia criativa brasileira precisa construir de forma permanente, e não apenas a cada troca de governo.

OBEC e Cláudia Leitão: o futuro da economia criativa depende de dados e de território

No dia 15 de outubro, o Observatório Brasileiro de Economia Criativa (OBEC) realizou, dentro da conferência, o seu 2º Seminário Virtual, com a secretária de Economia Criativa do Ministério da Cultura, Cláudia Leitão, “O Futuro do Ecossistema Criativo: Diálogos e Perspectivas para a Autonomia dos Territórios” e a professora Bianca Araújo, da Universidade de Melbourne.

De acordo com a cobertura do Ministério da Cultura, Bianca Araújo defendeu que os ecossistemas criativos são sensíveis porque dependem de pessoas, de suas experiências e das formas como a sociedade organiza a vida, e que o futuro do setor será definido pelos valores que priorizarmos e pela autonomia dos territórios para reconhecer as próprias potencialidades. Cláudia Leitão reforçou a importância do diálogo entre universidades, instituições de pesquisa e gestão pública. O debate teve mediação de Magnus Emmendoerfer, da UFV, e de Gabriel Chati, da Secretaria de Economia Criativa, e foi transmitido pelo canal TV IFB, no YouTube.

A recriação da Secretaria de Economia Criativa e o próprio OBEC são avanços que reconheço. Mas é preciso dizer o que a fala sobre autonomia territorial implica: não existe política situada sem dado situado. Um observatório que não enxerga quem trabalha, com que vínculo, com que renda e em que condições, deixa de fora justamente o que discuti na coluna sobre o chão de fábrica da cultura.

O artigo: como nasce e se sustenta um coletivo feminista na literatura?

Nosso estudo parte de uma lacuna: como coletivos feministas surgem e se desenvolvem no campo da literatura? O objetivo foi analisar o processo empreendedor do Coletivo Marianas, identificar as ações de estruturação, compreender o papel da liderança e descrever os desafios e resultados de 12 anos de trajetória. Trata-se de um estudo de caso único, de abordagem qualitativa, baseado em entrevista com a fundadora, no site institucional e na narrativa pessoal de uma das autoras, com análise por categorização temática. O referencial dialoga com o processo empreendedor de Borges e Filion (2012), o empreendedorismo cultural de Marins e Davel (2020), a governança participativa de Rodrigues e Malo (2006), o posicionamento político dos coletivos de Rocha (2009) e as redes afetivas de Oliveira e Davel (2025).

A tese central é que o empreendedorismo cultural pode ser coletivo, afetivo e cooperativo, o oposto do “empreendedor criativo” solitário, obrigado a se gerir como microempresa, que venho criticando nesta coluna.

Afeto como método: oficinas, editoras e feiras formam uma cadeia produtiva

O Coletivo Marianas nasceu em Curitiba, em 2014, e seu nome homenageia Mariana Coelho (1857–1954), intelectual e educadora que defendeu a emancipação das mulheres. Em 2024, recebeu a certificação federal de Ponto de Cultura; em 2026, formalizou-se como associação sem fins lucrativos e conquistou o 1º lugar no Prêmio Curitiba Mais Criativa, categoria Comunidades Criativas. Hoje reúne 150 escritoras, em diferentes estágios da carreira.

O “afeto como método”, conceito que atravessa a pesquisa, tem uma tradução prática: no Marianas, o afeto não vem do julgamento, vem da preparação. O coletivo realiza oficinas, entre elas 17 oficinas gratuitas de arte-educação, que ajudam a construir carreiras na literatura. A participação nas antologias é democrática e sem custo, e já foram organizadas 12 antologias até agosto de 2026.

Nasceram dentro do coletivo três editoras, por meio do projeto Marianas Edições, que conduz com mulheres 100% das etapas editoriais, da curadoria à revisão, diagramação, ilustração e fotografia, com capistas e ilustradoras na equipe. Entre as modalidades editoriais, são 30 livros impressos individuais, viabilizados pela Bolsa Nacional do Livro, e 27 e-books na Amazon. Os temas vão de etarismo e saúde mental a intolerância religiosa e à experiência de mulheres migrantes e refugiadas.

É aí que entram as feiras: a etapa que dá divulgação e comercialização ao que foi produzido, como a roda mensal de poesia Letra de Mulher, que soma 93 edições na Feira do Poeta. O financiamento combina mensalidades das integrantes, venda direta de livros e recursos institucionais, como prêmios e fomentos. Formação, produção, circulação e venda: em escala comunitária, é a mesma lógica de financiamento em camadas que analisei ao comparar o modelo canadense. E os desafios são os de qualquer organização que cresce: preservar coesão e pertencimento, fortalecer a autonomia das integrantes e ampliar a circulação nas escolas, universidades e livrarias, para que as autoras possam, de fato, viver da escrita.

Roda de debate: as barreiras invisíveis que as mulheres enfrentam para fazer carreira

Depois da apresentação, veio a parte mais produtiva: uma roda de debate sobre as barreiras que as mulheres enfrentam de maneira geral, na economia criativa. Duas delas apareceram com força. A primeira é a falta de apoio dentro de casa, sobretudo enquanto a atividade não gera sucesso financeiro e é tratada como hobby, e não como trabalho. A segunda é a cobrança social de que a mulher só frequente feiras acompanhada por um homem da família ou por um filho. Quem não circula, não vende, e quem não vende não sustenta a carreira.

Os dados ajudam a medir o tamanho do problema. Segundo o IBGE, em 2019 as mulheres dedicaram em média 21,4 horas semanais a afazeres domésticos e cuidados, contra 11,0 horas dos homens. Em 2022, a PNAD Contínua apontou 21,3 horas para elas e 11,7 para eles: uma diferença que diminuiu, mas que ainda é de 9,6 horas por semana. Virginia Woolf já argumentava, em Um teto todo seu (1929), que escrever ficção exige dinheiro e um espaço próprio, duas coisas que a divisão desigual do trabalho de cuidado continua tirando das mulheres criativas.

O campo literário, por sua vez, não compensa essa desigualdade. O mapeamento da pesquisadora Regina Dalcastagnè, da UnB, com 258 romances de 165 autores publicados por editoras de prestígio, encontrou 72,7% de autores homens e 93,9% de autores brancos. A mesma linha de pesquisa mostrou que as personagens femininas aparecem sobretudo no espaço doméstico, enquanto os homens circulam por espaços variados. A literatura reproduz a casa, e a casa limita quem escreve.

O que a política cultural precisa responder

O Estado brasileiro tem investido em fomento, e esse esforço merece reconhecimento. O limite está na estrutura: editais e políticas ainda pressupõem uma proponente com tempo livre, deslocamento sem restrições, CNPJ aberto e retorno rápido. Quem cuida de filhos, de pais idosos e da casa, e ainda precisa de autorização tácita para circular, compete em desvantagem antes mesmo de enviar o projeto. Se o OBEC e a Secretaria de Economia Criativa querem políticas sensíveis ao território, precisam produzir indicadores desagregados por gênero, raça e carga de cuidado, e desenhar instrumentos que apoiem coletivos, editoras comunitárias e circuitos de feiras com segurança e acessibilidade, e não apenas o indivíduo que “empreende” sozinho.

O Coletivo Marianas mostra que há outro caminho: organização coletiva, formação gratuita, autoria compartilhada e circulação conjunta.

E você, o que pensa? Já deixou de participar de uma feira, de um edital ou de um projeto por falta de apoio em casa ou por não ter com quem ir? Conte sua experiência nos comentários, compartilhe este artigo com uma escritora, produtora ou artista que precisa ler isso e, se atua na cadeia do livro, diga que barreira a política cultural deveria enfrentar primeiro. Essa construção precisa de mais vozes.

Fontes e referências

  • Guia de Bolso 2.0 da III ICCEPP 2026, Cátedra UNESCO em Economia Criativa e Políticas Públicas (UFV)
  • Ministério da Cultura. OBEC debate o futuro da Economia Criativa e contribuições da Cátedra Unesco para as políticas públicas (16/10/2026)
  • MORAES, E. F.; CARVALHO, A. T. P.; GIMENEZ, F. A. P. Empreendedorismo coletivo na cultura: o caso do Coletivo Marianas (artigo apresentado na ICCEPP 2026)
  • IBGE. PNAD Contínua, Outras Formas de Trabalho (2019 e 2022)
  • DALCASTAGNÈ, R. Entre silêncios e estereótipos: relações raciais na literatura brasileira contemporânea. Estudos de Literatura Brasileira Contemporânea, UnB
  • Funarbe, SIPPTur 2026 e Cátedra UNESCO (catedraunesco.org)

Edra Moraes

Apresentamos na UFV, na III ICCEPP 2026, o estudo sobre o Coletivo Marianas e debatemos as barreiras de gênero na economia criativa

Profissional de marketing, produtora cultural e escritora. Agitadora cultural e idealizadora do Movimento Londrina Criativa. Prêmios:  Obras Literárias Digitais 2020, “Antologia Poética | Seleção da Autora, Memorial Vivência, Literatura, Livro e Leitura Unespar, Cultura nas Redes 2020 e FCC Digital 2020.

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