Dentro da Baleia: ousadia visual e excesso de sentimentalismo

Dentro-da-Baleia-1024x576

Por Marcelo Minka

Alguns pais continuam devorando os filhos mesmo depois de mortos. Essa é a imagem brutal que sustenta Dentro da Baleia, suspense dirigido por Brian Duffield (Ninguém Vai Te Salvar, 2023), no qual um mergulhador engolido por um cachalote descobre que escapar das vísceras de um animal gigantesco é uma tarefa menos complicada do que se libertar da autoridade paterna.

Jay Gardiner, interpretado por Austin Abrams (Euphoria, 2019), mergulha no oceano em busca dos restos mortais do pai. Acaba aprisionado no interior de uma baleia, com apenas uma hora de oxigênio. A premissa beira o absurdo, mas Duffield compreende que a imaginação não precisa pedir licença à plausibilidade quando encontra uma imagem poderosa. O ventre da baleia transforma-se em prisão orgânica, câmara de tortura e representação física de uma memória que se recusa a morrer.

Dentro da Baleia transforma o horror físico em metáfora brutal dos traumas familiares
Fotos: Divulgação

O pai, vivido por Josh Brolin (Onde os Fracos Não Têm Vez, 2007), surge nas lembranças como uma figura de masculinidade autoritária, dessas que confundem educação com intimidação e afeto com resistência à dor. Brolin domina os flashbacks com uma brutalidade convincente. Abrams responde com uma interpretação essencialmente corporal, feita de respiração interrompida, movimentos desesperados e um medo que dispensa discursos.

A encenação encontra sua maior força na materialidade do horror. Tecidos viscosos, espaços sufocantes e a ameaça permanente da asfixia tornam o corpo humano insignificante diante de uma natureza indiferente. O desenho de produção impressiona porque faz do impossível uma experiência sensorial. O problema aparece quando o roteiro insiste em explicar seus próprios símbolos. A alternância entre sobrevivência e recordações familiares frequentemente interrompe a tensão para sublinhar uma mensagem que as imagens já haviam transmitido.

Dentro da Baleia divide crítica

A recepção crítica confirma essa divisão. No Rotten Tomatoes, Dentro da Baleia registra 70% de aprovação entre 105 avaliações profissionais. Parte da crítica celebra a ousadia visual e a entrega de Abrams, enquanto outra aponta o sentimentalismo excessivo e a fragilidade dramática dos flashbacks. A avaliação do público ainda não apresenta percentual consolidado, embora já existam manifestações favoráveis e negativas.

Adaptado do romance de Daniel Kraus (Whalefall, 2023), Dentro da Baleia encontra sua grande contradição na tentativa de transformar trauma em espetáculo e espetáculo em terapia. Nem sempre consegue equilibrar as duas ambições. Ainda assim, possui coragem formal, imaginação grotesca e uma ideia central devastadora.

O verdadeiro monstro não pesa sessenta toneladas. Ele habita a memória, transmite seus medos de geração em geração e exige obediência mesmo depois de enterrado. A baleia apenas lhe empresta um corpo.

Marcelo Minka

Mestre em Antropologia Visual (UEL), artista visual e pesquisador, transita entre o pensamento e o fazer, inspirado pelas viagens, pelos sabores, pela natureza e pelas culturas que encontra pelo Brasil e pelo mundo. Cinéfilo nas horas vagas.

Me siga no Instagram: @studio6minka

Leia todas as colunas de Cinema

(*) O conteúdo das colunas não reflete, necessariamente, a opinião do O LONDRINE̅NSE

Compartilhe:

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Anuncie no O Londrinēnse

Mais lidos da semana

Anuncie no O Londrinēnse