O filho promete o Estado enxuto que o pai prometeu e não entregou. A Argentina mostra o resto da história
Por prof. dr. Rogério Buchala
Programa de governo é um gênero literário. Fica entre o romance de cavalaria e o horóscopo. Promete-se uma reforma com corte de impostos, de gastos, venda de estatais e, por milagre de multiplicação que faria corar o evangelista, preservar todos os benefícios sociais. O eleitor lê e acredita. Ou finge acreditar, o que no Brasil dá no mesmo.
O plano de Flávio Bolsonaro para 2027-2030 é um bom exemplar do gênero. Promete enxugar a Esplanada, cortar cargos comissionados e despesas administrativas e retomar as privatizações. Seria uma proposta digna de debate se não houvesse um pequeno inconveniente, um detalhe biográfico que os marqueteiros preferem esquecer: o Brasil já viu esse filme, e o protagonista era o pai.
Em 2018, Jair Bolsonaro prometeu, na reforma, apenas quinze ministérios. Entregou mais de vinte e terminou o mandato com uma Esplanada maior do que a do primeiro dia, recriando pastas sempre que havia aliado do Centrão para acomodar. Paulo Guedes prometeu arrecadar um trilhão de reais com privatizações. Vendeu-se a Eletrobras, e o resto ficou no PowerPoint. Ao chamado “austericídio” nunca se chegou, ao contrário.
Segundo levantamento do economista Bráulio Borges, do FGV IBRE, o governo gastou R$ 794,9 bilhões acima do teto entre 2019 e 2022. Boa parte veio da pandemia, admito; mas a flexibilização começou já no primeiro ano e continuou depois que o vírus arrefeceu. Em 2022, ano eleitoral, a PEC Kamikaze acrescentou mais R$ 41,2 bilhões fora do limite, a três meses da urna. Liberalismo de Chicago, eleitoralismo de Brasília.
Não estou acusando o filho pelos pecados do pai. A Bíblia proíbe isso, e eu, que não sou religioso, concordo. Acontece que o filho apresenta como novidade o mesmo cardápio que o pai serviu frio. Se o Estado mínimo não foi entregue quando a família tinha a caneta, por que agora seria? Nenhum programa responde, e a ausência de resposta já é uma resposta.
Vamos às privatizações, que no Brasil têm sido sempre panaceia ou pecado capital, nunca um instrumento. Em água, energia e saneamento, o consumidor não tem para onde correr. Se a tarifa sobe, ele paga ou fica no escuro. Monopólio natural vendido sem agência reguladora com dentes vira apenas troca do dono do pedágio. Já houve privatização que ampliou investimento e baixou tarifa, e houve outra que só engordou o reajuste anual. Comparar a conta de luz “antes e depois” sem descontar inflação, subsídio e investimento é aritmética de palanque. O problema nunca foi a propriedade, pública ou privada. O problema é quem fiscaliza o fiscalizado.
A reforma argentina que empobreceu um país inteiro

Agora, a Argentina, que os bolsonaristas citam com a devoção que a esquerda dedicava a Cuba. Javier Milei fez o ajuste que prometeu, e isso já o distingue de muitos. A inflação caiu e o resultado fiscal virou. Lord Keynes lembraria, porém, que no longo prazo estaremos todos mortos, e no curto prazo estamos pobres. O INDEC informa que a pobreza atingiu 32,3% das pessoas nos aglomerados urbanos no primeiro semestre de 2026, uma alta de 4,1 pontos em relação ao semestre anterior. Estabilização macroeconômica e mesa farta não andam de mãos dadas. O Brasil não é a Argentina, graças a Deus e ao Banco Central. A lição, porém, vale aqui: nas reformas, quando se cortam subsídios de uma vez, a conta chega primeiro para quem não tem como pagar.
Flávio jura que manterá os programas sociais, “aperfeiçoando a gestão” e promovendo a “inserção produtiva” dos beneficiários. Anoto o compromisso. Também anoto que reduzir impostos, investir em infraestrutura, manter benefícios e fazer um ajuste duro, tudo ao mesmo tempo, exige uma planilha que ninguém apresentou. Fechar ministérios rende boa manchete e economia de troco. A folha de um ministério é poeira perto da Previdência e dos juros da dívida. Quem promete financiar uma revolução orçamentária cortando secretarias está vendendo terreno na Lua.
Há ainda o Brasil que não aparece na Faria Lima. No interior, o comércio da praça vive do benefício que entra no dia 20. Se a renda das famílias pobres encolhe, fecham os pequenos negócios, a farmácia, o armarinho e a loja de material de construção. Investimento privado gera emprego, sem dúvida, desde que haja estrada, crédito e alguém do outro lado do balcão com dinheiro no bolso. Uma coisa não dispensa a outra.
Não sou daqueles que acham que toda reforma liberal fracassa. Também não acho que todo gasto estatal seja virtude; a Esplanada de Lula está aí para provar o contrário. O Brasil precisa de responsabilidade fiscal e de serviços públicos decentes, coisas que só os ideólogos julgam incompatíveis. Para isso, é preciso dizer quanto custa, quem ganha e quem paga.
A pergunta é velha e continua sem dono: ao fim das reformas, o país produzirá mais, viverá melhor e dividirá com menos indecência o que produziu? Sem números, a promessa de eficiência é só promessa. Vinda de quem já teve quatro anos para cumpri-la, é reprise.
Foto principal: Esplanada dos Ministérios/Arquivo Agência Brasil
Rogério Buchala

Economista formado pela UEL, professor, mestre e doutor pela UNESP. Professor e coordenador dos Cursos de Administração e Ciências Contábeis da FAI. Instagram @rogeriobuchala
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