Por Telma Elorza
“Meu filho completou 14 anos recentemente e parece que virou outra pessoa depois disso. Antes era um menino comportado, obediente, meu parceiro em tudo, para jogar bola, passear ou fazer qualquer outra coisa. Agora, não posso falar com ele ou chamar a atenção por alguma coisa que ele vem com agressividade. Não quer mais sair comigo e quando está na minha casa (sou separado da mãe dele há 5 anos), só fica no celular ou dentro do quarto jogando. Não sei mais lidar com ele e acho que a mãe está fazendo alienação parental contra mim. Estou até pensando em entrar na justiça contra ela. Pode me dar dicas para neutralizar o que ela está fazendo para meu filho voltar a ser como era?”
Caro leitor, antes de procurar um advogado para tentar imputar uma alegação de alienação parental a sua ex-esposa, que tal pensar um pouco, comigo? Respire fundo, sente-se e leia devagar o que vou falar agora. Seu filho é um adolescente. Ponto.
Sua suspeita de que a mãe está fazendo alienação parental é ridícula, ainda mais nessa faixa etária. Seu filho está mais irritado, prefere passar horas jogando videogame e não demonstra o mesmo respeito que tinha quando era criança. A culpa é da mãe? Não, é da chamada adolescência. Esses comportamentos são típicos dessa fase.
Tente lembrar como você era aos 14 anos. Você nunca revirou os olhos para seus pais, quando tinha essa idade? Nunca achou que eles não entendiam como sua vida era? Como se sentia quando era obrigado a sair com eles, para algo tipo um passeio no parque, se estaria melhor com seus amigos? Quantas vezes você discutia com eles porque queria ouvir música alta e eles reclamavam? Ou queria ir a uma festinha sabe-se lá onde e eles não permitiam? Nunca morreu de vergonha quando seu pai ia buscá-lo na escola? Nunca achou que todo mundo estava errado, menos você?
Se não lembra de nada disso, é bom fazer uma revisão das suas memórias.
Seu filho não virou outra pessoa, ele está apenas crescendo. E não, sua ex não tem culpa por isso. Essa transformação entre criança e vida adulta costuma ser um grande espetáculo de irritação, contradições, portas fechadas – defendendo a unhas e dentes a privacidade – e uma capacidade impressionante de achar os pais insuportáveis. Principalmente quando eles insistem em tratá-los como crianças ou seres não pensantes.
Aos 14, o adolescente – de qualquer gênero – já não quer ser chamado de criança, mas também não sabe exatamente o que fazer com a pessoa que está se começando a se tornar. E, para piorar, há um turbilhão de hormônios em ebulição dentro do corpo dele(a), principalmente os hormônios sexuais.
Durante a puberdade, a testosterona tem papel predominante no desenvolvimento sexual masculino e o estrogênio, no desenvolvimento sexual feminino (aliás, só um detalhe: os dois gêneros produzem os dois tipos de hormônios, quantidades e proporções diferentes, ok?). Mas os efeitos hormonais não se limitam ao corpo. Eles também participam de mudanças no cérebro, no humor e no comportamento, embora não determinem sozinhos a personalidade de um adolescente.
Aos 14 anos, o adolescente quer independência, acha que já sabe tudo o que precisa para tomar decisões, mas ainda precisa de orientações. Quer ser tratado como adulto, mas, dependendo da situação, pode reagir como se o mundo estivesse acabando porque o pai ou a mãe mandou para lavar a louça.
É uma fase difícil, de mudanças físicas (o adolescente não está confortável com seu próprio corpo, que está mudando de forma “estranha” e acelerada), emocionais e sociais. Os amigos ganham importância (principalmente a opinião deles), privacidade é artigo de primeira necessidade e os pais deixam de ser os heróis para se transformar em criaturas que fazem perguntas inconvenientes ou “burras”, dão conselhos não solicitados e, pior, têm a ousadia de impor regras.
E isso acontece mesmo que os pais continuem casados, ok?
A culpa não é da ex
Alienação parental é o nome jurídico (aliás, uma lei muito questionável, principalmente quando aplicada em casos de divórcios cheio de conflitos) para a prática na qual um dos genitores manipula a criança ou adolescente para que rompa vínculos afetivos com o outro genitor. Isso envolve condutas como campanhas de desqualificação da imagem do genitor; dificultar o contato ou direito de convivência familiar; omitir informações médicas ou escolares relevantes; ou apresentar falsas denúncias de violência ou abuso sem embasamento.
Agora, filho que não faz o que o pai quer, questiona, discorda, tem opiniões próprias e prefere se isolar não sofreu alienação parental. Ele apenas está crescendo. Em vez de acusar a mãe por uma coisa que não está acontecendo, você já se questionou se não há possibilidade de seu filho estar reagindo a um comportamento seu?
Veja bem, não estou dizendo que você seja culpado de alguma coisa. Estou dizendo que seria inteligente olhar para seu próprio comportamento no seu relacionamento com seu filho.
Você dá chance dele opinar sobre os programas que gostaria de fazer junto com ele? Você respeita a privacidade dele ou quer saber tudo o que está acontecendo no corpo dele (homens adoram falar para os amigos algo tipo “nossa, o pênis do meu filho já tá do tamanho do meu”, quando espalhar essa informação pode deixá-lo extremamente constrangido), você entende que ele prefere jogar videogame nas horas vagas do que jogar futebol com você?
Os pais precisam respeitar a pessoa que o filho é
Sim, não é porque ele foi gerado e nasceu de vocês, que deve ser tratado como uma criança eternamente, que deve apenas obediência e respeito aos mais velhos. É maravilhoso quando nossos filhos pequenos adoram brincar e participar das atividades dos pais, pedem nossa opinião para tudo. Mas o objetivo de criar um filho não é produzir um ser que vai dizer amém para nós pelo resto da vida.
Pelo contrário. Criamos os filhos para desenvolvam autonomia, façam escolhas, construam a própria identidade e, um dia, consigam tocar a vida sem nossa presença e, também, sem nossa aprovação, se for o caso. Filhos independentes também significa discordância do modo de ver e viver a vida.
O que fazer para diminuir os conflitos com ele?
Uma coisa que você precisa saber é que, embora pareça que o vínculo entre vocês tenha sido quebrado, isso não aconteceu. Ele ainda o ama e respeita, mesmo a contragosto. Mas o vínculo precisa mudar de formato.
Eu vou passar algumas dicas de uma mãe que viveu tudo isso, com o próprio filho. E que conseguiu ter sucesso onde o pai dele falhou (nossa, foi muito conflituoso o relacionamento dos dois).
Primeiro de tudo, pare de tentar recuperar o passado. Seu filho não vai voltar a ser a criança que era. Eu sugiro que aceite e procure conhecer os novos interesses dele. É videogame? Tente jogar com ele. Mas não imponha, peça. É skate? Música? Xadrez? Estimule.
Aí entra o segundo ponto. Troque o interrogatório pela conversa. Converse com ele. Pergunte – sem agressividade, mas querendo realmente entender – o que ele vê nessa atividade que ele tanto gosta, peça para explicar. Você não precisa virar especialista naquilo que ele gosta, mas demonstrar interesse é muito legal.
A terceira dica é convide, mas não imponha, nem ameace. Quer ir jogar bola? Chame. Quer sair para comer alguma coisa? Fazer um passeio diferente? Convide. Ele recusou? Ok. Não transforme isso em prova de amor. Tente em outro momento. Adolescentes precisam de espaço, mas também precisam saber que os pais continuam disponíveis para quando eles estiverem a fim de participar de algo.
A quarta dica é “estabelecer limites negociados”. E o que significa isso? Bom, significa criar regras e combinados por meio do diálogo e da participação ativa do jovem, em vez apenas de impor ordens. Dessa forma, a gente consegue manter a palavra final sobre segurança e valores fundamentais, mas também damos espaço para que o adolescente argumente, sugira opções e participe das decisões. Isso é muito importante porque o “não pode e acabou” não funciona mais. Participar das decisões aumenta consideravelmente a cooperação deles.
Meu filho, por exemplo, adorava em ir festas com os amigos. Mas antes de eu permitir, a gente sentava e conversava, tipo “ó, só preciso saber onde é, com quem? Ok, você pode ir, mas vai ficar lá até tal hora, beleza? E se sair e for para outro lugar, vai me ligar e me avisar aonde você está indo e com quem (isso foi nos primórdios dos celulares e bem antes de whatsapp), combinado”? E ele cumpria o combinado e ficava orgulhoso de eu confiar nele.
Outra coisa importante que você precisa saber é que adolescência não é licença para ser agressivo e desrespeitoso. Você pode exigir respeito e estabelecer limites razoáveis para o uso de celular, do videogame, horários e uma convivência mais harmoniosa, tipo lavar a louça ou arrumar o quarto.
Mas é tudo na base da conversa, explicando seu ponto de vista direitinho e nada de discursos intermináveis. Tipo: “olha, meu filho, eu sei que você não gosta de tal coisa, mas é preciso. Pensa bem, somos tantas pessoas aqui em casa e você precisa fazer sua parte, para não sobrecarregar outros. Que tal trocar a atividade já que você não gosta de lavar louça? Que tal varrer e passar pano na casa? O que acha”? Negocie.
Outra dica é conversar com a mãe, se for possível. Mesmo separados, vocês continuam sendo responsáveis pelo filho. Procure alinhar as regras básicas, compartilhe as preocupações e evite que seu adolescente seja colocado no meio do conflito entre você e sua ex. E não use seu filho como mensageiro, espião ou instrumento para atingir sua ex, ok?
E se a agressividade for intensa e persistente, por mais que você tenha tentado a melhorar a relação, não tenha receio de pedir ajuda profissional de um psicólogo especializado em adolescentes, que pode ajudar seu filho a atravessar essa fase. Existem até os psicólogos de família, que cuidam da família como um todo, respeitando a individualidade de cada um.
O que importa nesse momento não é fazer o filho voltar a ser o que era, mas se tornar um pai melhor para ajudá-lo a se entender e passar por essa fase da melhor forma possível. Seu filho está crescendo e precisa de um pai que cresça com ele, alguém em que ele possa confiar e buscar ajuda sempre que necessário.
Só para encerrar com mais uma experiência minha e que pode deixar alguns pais chocados: a questão das drogas e sexo. Meu filho foi orientado sobre os dois assuntos desde pequeno, ainda antes da adolescência. E quando chegou a idade crítica que eu sabia que ele estava mais vulnerável a sedução das drogas, eu sentei com ele e expliquei tudo de novo, além de orientar sobre redução de danos. Eu disse claramente: você pode experimentar maconha, mas, por favor, fique longe do crack e outras drogas mais pesadas, que podem viciar rapidamente (nem existia tantas drogas sintéticas como temos hoje).
Eu permitia que ele e os amigos fumassem um baseado em casa, antes de sair para as baladas – porque era mais seguro para eles, do que fumarem na rua -, e ainda conversava de boas com todos eles sobre isso, principalmente sobre os estragos que as drogas viciantes faziam na vida das pessoas. Não vou garantir que nenhum deles não tenha experimentado algumas delas. Mas posso garantir que meu filho e 80% dos amigos dele não se tornaram viciados.
Espero ter ajudado,
Tem dúvidas sobre relacionamentos? Mande um e-mail para telma@olondrinense.com.br

Quem é a Tia Telma
Telma Elorza é jornalista, divorciada e adora dar pitaco na vida dos outros. Mas sempre com autorização.
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