Por Marcelo Minka
O rosto de uma mãe deveria oferecer segurança. Outra Mamãe transforma essa certeza em ameaça ao apresentar uma entidade que imita a aparência materna e conquista a confiança de uma criança. A ideia atinge um lugar íntimo do medo. Antes de temer o desconhecido, a menina precisa desconfiar daquilo que conhece.
Dirigido por Rob Savage (Host, 2020), o longa acompanha Bela, uma garota de oito anos cuja relação com a criatura cresce em meio às tensões familiares. Jessica Chastain (Os Olhos de Tammy Faye, 2021) interpreta a mãe e sua duplicação sobrenatural. Essa escolha concentra a promessa do filme num mesmo rosto, capaz de representar acolhimento e ameaça.
O conflito tem força porque a infância percebe o que os adultos se esforçam para esconder. Uma conversa interrompida, um gesto impaciente ou uma ausência prolongada alteram o sentido de uma casa. A entidade encontra espaço nessa insegurança. Sua aproximação transforma a necessidade de afeto numa abertura para a violência. O monstro interessa pelo vínculo que explora, não apenas pela forma que assume.
Outra Mamãe, porém, dedica pouco tempo a desenvolver essa relação. A narrativa avança com pressa e encadeia acontecimentos assustadores sem construir uma tensão equivalente entre eles. Há imaginação visual, mas falta continuidade emocional. O susto provoca uma reação imediata. O terror exige que essa reação encontre alguma coisa para corroer depois.

A presença de Chastain reforça a expectativa de uma personagem complexa, dividida entre a experiência concreta da maternidade e sua imagem deformada. O material limita essa possibilidade. A duplicação rende uma figura ameaçadora, mas não aprofunda suficientemente as contradições que tornariam sua presença mais dolorosa. O rosto é reconhecível. O conflito permanece raso.
Outra Mamãe e a filha em vulnerabilidade
A perspectiva de Bela oferece o caminho mais expressivo. Observar os adultos sem compreender inteiramente suas escolhas coloca a menina numa posição de vulnerabilidade que dispensa explicações sobrenaturais. O longa ganha interesse quando preserva essa percepção infantil. Perde força quando a submete às soluções habituais das histórias de assombração e possessão.
A falha central está nessa desproporção entre a riqueza da ideia e a pressa da execução. Uma criatura que disputa o afeto de uma criança exige mais do que aparições eficientes. Exige relações capazes de tornar cada aproximação uma perda.
Outra Mamãe encontra uma imagem poderosa para o medo, mas não lhe dá profundidade suficiente. A casa abriga uma ameaça. O filme abre suas portas cedo demais e deixa o desconforto escapar.
Marcelo Minka

Mestre em Antropologia Visual (UEL), artista visual e pesquisador, transita entre o pensamento e o fazer, inspirado pelas viagens, pelos sabores, pela natureza e pelas culturas que encontra pelo Brasil e pelo mundo. Cinéfilo nas horas vagas.
Me siga no Instagram: @studio6minka
Leia todas as colunas de Cinema
(*) O conteúdo das colunas não reflete, necessariamente, a opinião do O LONDRINE̅NSE

