Por Robson Moretão
Ao longo de mais de 20 anos acompanhando a indústria dos games, aprendi que a tecnologia nunca muda apenas a aparência de um jogo. Ela também transforma a maneira como nos relacionamos com aquele universo. Basta lembrar da passagem dos gráficos 2D para o 3D, do surgimento dos mundos abertos e, mais recentemente, da realidade virtual. Cada avanço tenta responder à mesma pergunta: até onde podemos levar o jogador para dentro da experiência?
Ao ler um estudo científico publicado na revista PLOS ONE, essa questão ganhou uma nova perspectiva para mim. A pesquisa comparou a experiência de jogadores diante do mesmo game apresentado em 2D, 3D estereoscópico e realidade virtual. Os resultados ajudam a entender que quanto mais sofisticada é a tecnologia, maior pode ser a sensação de presença no ambiente digital — mas isso não significa necessariamente que todas as outras percepções aumentem na mesma proporção.
Mais imersão não significa necessariamente mais atenção
No experimento, 237 participantes jogaram um game de plataforma criado especificamente para a pesquisa. A experiência era essencialmente a mesma, mas podia ser acessada em três formatos tecnológicos diferentes. A versão em realidade virtual apresentou o maior nível de sensação de presença, seguida pela versão 3D e pela tradicional 2D. Em outras palavras, o jogador sentia-se mais inserido naquele espaço quando utilizava o headset de realidade virtual.
Para quem está acostumado com títulos como Resident Evil Village, Half-Life: Alyx ou experiências imersivas de realidade virtual, isso faz bastante sentido. Quando colocamos um headset, deixamos de observar apenas uma tela. O ambiente ao redor praticamente desaparece, enquanto o mundo digital passa a ocupar nosso campo de visão.
Mas existe um detalhe interessante: o aumento da imersão não veio acompanhado necessariamente de uma avaliação mais positiva do jogo ou de maior excitação emocional. O estudo também identificou maior carga cognitiva na experiência de realidade virtual. Além disso, participantes desse grupo relataram mais tontura e sintomas relacionados ao desconforto provocado pelo movimento.

O curioso efeito das marcas dentro do jogo
É aqui que a pesquisa fica especialmente interessante para a indústria. Os pesquisadores também analisaram marcas fictícias inseridas no jogo e descobriram que os participantes lembravam menos delas na realidade virtual do que nas versões 3D e 2D. A explicação passa pela quantidade de informações que o jogador precisa processar.
Imagine uma partida de futebol em que você precisa controlar um atacante, acompanhar adversários, interpretar o espaço, calcular uma jogada e ainda prestar atenção em uma placa publicitária. Quanto maior for a exigência da experiência principal, menos recursos de atenção podem sobrar para elementos secundários.
Isso ajuda a explicar uma aparente contradição do mundo gamer: uma tecnologia pode tornar uma marca mais presente visualmente e, ao mesmo tempo, fazer com que o jogador se lembre menos dela. O foco principal continua sendo vencer, explorar, sobreviver ou completar a missão.
Da tela para a vida real
Para mim, a principal lição desse estudo ultrapassa o universo dos games. A forma como uma experiência prende nossa atenção também aparece em situações muito comuns do dia a dia. Quando estamos concentrados em uma tarefa importante, por exemplo, uma notificação no celular pode passar despercebida. Quando estamos envolvidos em uma discussão, podemos deixar de perceber como nossas próprias palavras estão afetando a outra pessoa. E quando passamos horas rolando vídeos ou redes sociais, muitas vezes nem percebemos quanto tempo passou.
Nos games, essa concentração pode ser necessária para vencer uma partida ou completar uma missão. Na vida real, porém, também precisamos saber quando sair desse modo de imersão.
Isso vale para quem joga depois de um dia de trabalho, para quem estuda, para quem cuida da família ou simplesmente para quem busca alguns minutos de diversão. A tecnologia pode proporcionar experiências incríveis, mas também pode ocupar tanto espaço da nossa atenção que outras coisas importantes ficam em segundo plano.
O estudo analisou uma experiência específica e possui limitações, entre elas o uso de uma amostra predominantemente estudantil e a realização de uma única sessão de jogo. Por isso, seus resultados não devem ser tratados como uma explicação definitiva sobre todos os jogadores ou todas as formas de realidade virtual.
Ainda assim, a pesquisa oferece uma reflexão bastante prática: não basta perguntar quanto tempo passamos diante das telas. Também precisamos perguntar o que está recebendo nossa atenção enquanto estamos ali.
Um jogador pode terminar uma campanha, conquistar uma platina e lembrar de cada detalhe de uma aventura virtual. Mas será que, durante esse período, deixou de perceber uma conversa importante, adiou uma decisão necessária ou simplesmente deixou de aproveitar momentos que estavam acontecendo fora da tela?
No fim, talvez a grande habilidade que precisamos desenvolver não seja apenas dominar controles, estratégias ou novas tecnologias. É aprender a controlar a própria atenção.
Porque, na vida real, não existe botão de pause para recuperar tudo aquilo que deixamos passar enquanto estávamos completamente imersos.
Robson Moretão

Um maluco por games desde a era dos pixels — e sem cura! 🎮 São mais de 30 anos nessa. Sou daqueles que piram em histórias incríveis, desafios que parecem impossíveis (mas não são) e gráficos realistas de hoje (que a gente nem acredita). Aqui na minha coluna, o papo é sobre a evolução dessa indústria insana e todos os rolês que vêm com ela, e as vezes games que mudam o cotidiano.
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Essas opiniões são minhas, viu? O LONDRINE̅NSE só deixa eu postar aqui. Se gostou, foi sorte deles. Se não gostou, foi coisa da minha cabeça. E as broncas estão tudo no meu CPF. Combinado?
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