Denúncias de precariedade em condições de trabalho, insalubridade e insegurança chegaram ao O LONDRINE̅NSE
Telma Elorza
O LONDRINE̅NSE
As bibliotecas públicas de Londrina estão em uma situação de precariedade que está afetando tanto os servidores quanto usuários. A falta de funcionários, prédios insalubres, ausência de internet para o público, deficiência na manutenção, insegurança e sobrecarga de trabalho fazem parte da rotina na maioria das sete bibliotecas públicas espalhadas pela cidade.
As denúncias foram encaminhadas ao O LONDRINENSE por usuários e confirmados por funcionários da Secretaria Municipal de Cultura. O secretário municipal de Cultura, Marcão Kareca, ouvido pela reportagem, reconheceu que todas as denúncias são verdadeiras, embora afirme que já esteja adotando medidas para enfrentar os problemas.
Segundo as denúncias encaminhadas ao jornal, atualmente cerca de 20 servidores atendem as sete bibliotecas municipais: a Biblioteca Pública Pedro Viriato Parigot de Souza, a Central, a Biblioteca Infantil, CEU, Zona Norte, Zona Sul, Vila Nova e Museu de Arte. A Biblioteca Pública central e a Infantil têm mais servidores porque funcionam o dia inteiro. Nas unidades ramais, apenas um funcionário – geralmente a bibliotecária, mas nem sempre – acumula praticamente todas as funções, desde o atendimento ao público até limpeza.
“As bibliotecárias, sozinhas nas unidades ramais, são responsáveis por tudo: atendem público, organizam acervo, limpam as estantes, recebem doações, fazem separação e descartes de livros estragados, atendem escolas, organizam atividades culturais. Em algumas unidades, tem uma pessoa cedida por outras secretarias, que faz a limpeza, uma ou duas vezes por semana. Se acontecer de alguém passar mal e vomitar lá dentro, por exemplo, são elas que têm que se virar para limpar”, disse um denunciante.
A falta de internet para o público e até de bebedouros nos locais afasta os usuários. “Se não tem um ambiente acolhedor, que não tem uma água para beber, quem vai frequentar a biblioteca?”, lamenta o denunciante.
Hoje, a Biblioteca da Zona Sul está fechada. Na da Zona Norte, que foi totalmente revitalizada há poucos anos, o problema é segurança. A população de rua costuma ficar sob a marquise do local (que já foi um mercado municipal) e a bibliotecária fica sozinha. “Algumas estão trabalhando com as portas trancadas por segurança”, afirma.
A situação da Biblioteca da Vila Nova é a pior entre todas. Segundo os denunciantes, o prédio está insalubre, com infiltrações goteiras, mofo, com má ventilação e até mau cheiro, além de falta de acessibilidade. “Não tem condições de alguém ficar lá dentro, quanto mais ler, estudar e trabalhar”, aponta.
Ele também relata que a sobrecarga e más condições de trabalho têm provocado problemas de saúde entre as bibliotecárias. “Volta e meia, acontece de uma ter que se afastar por questões médicas e não há quem a substitua”, diz.
Biblioteca da Zona Sul fechada
O secretário explicou que a unidade da Zona Sul está temporariamente fechada porque a Secretaria Municipal de Saúde desocupou parte do imóvel que dividia e será necessária uma pequena reforma antes da reabertura, como pintura externa e interna. “A pintura será executada pela própria Secretaria de Saúde e o espaço, depois, passará a ser compartilhado com a Secretaria de Assistência Social”, disse.
Segundo Marcão Kareca, a divisão dos prédios das bibliotecas ramais com outras secretarias tem sido uma estratégia para garantir manutenção mínima e presença de mais servidores nos locais.
Vila Nova é considerada o caso mais grave

O secretário Marcão Kareca reconhece que a situação da Biblioteca da Vila Nova é a mais crítica. “A construção, com mais de 30 anos, possui características arquitetônicas que dificultam qualquer solução simples. O prédio é lindo, uma gracinha, parece um submarino, mas não é funcional, nem adequado”. Ele admitiu que a Secretaria de Cultura não tem recursos para uma reforma.
A Coordenadora das Bibliotecas Setoriais, Tatiane Santos – que acompanhava o secretário e a Diretora Geral das Bibliotecas, Zoraide Gasparini, em uma visita à Biblioteca da Zona Sul na manhã de quarta (5) – explicou que, emergencialmente, está prevista intervenções no prédio que incluem conserto do telhado, pintura e eliminação das infiltrações e mofo. Entretanto, segundo ela, mudanças estruturais como aberturas de janela ou alterações na arquitetura dependeria de projeto de engenharia e aprovação técnica, além de recursos, para melhorar a ventilação. “O que a gente pode fazer agora é recomendar que a bibliotecária deixe as portas da frente e do fundo abertas para circular o ar. Como as portas têm grades separadas, que podem ser mantidas fechadas, não vai comprometer a segurança”, explica.
“Falta de funcionários é o principal problema”
Apesar de todos os problemas relatados, o secretario avalia que o principal problema hoje, nas bibliotecas, é falta de pessoal. De acordo com ele, nos últimos 15 anos, mais de 30 servidores das bibliotecas se aposentaram sem reposição.
“Nós conseguimos chamar três novos bibliotecários que devem assumir em setembro. É pouco, mas essas três pessoas vão ajudar nas três unidades mais críticas. Onde tinha uma pessoa, passarão a ser duas”, garante. Além disso, Zoraide Gasparini explica que está sendo negociada a cessão de servidores de outras secretarias para trabalharem nas bibliotecas. “Já temos interessados e agora vamos tentar agilizar isso”, explica.
Segurança e internet
Marcão Kareca afirma que a Secretaria de Cultura está preparando um chamamento público baseado na Lei Municipal 14.061, que permite parcerias para alguns serviços. “Vamos buscar empresas que forneçam internet e sistema de monitoramento por câmeras em todas as bibliotecas municipais em troca da divulgação da marca”, afirma.
Descaso antigo com a Cultura
“Infelizmente, todas essas denúncias procedem. Elas são resultado de anos baixo orçamento e sem substituição de pessoal. A diferença é que nós não estamos parados, estamos trabalhando para resolver uma por uma”, garante. Segundo ele, desde que assumiu a Secretaria de Cultura no início de 2025, foi se inteirando das dificuldades e visitou todas com a equipe.
“O problema é que não existe um orçamento específico destinado às bibliotecas dentro da Secretaria. Nós utilizamos praticamente todos os recursos disponíveis para despesas obrigatórias como pagamento de pessoal e contas básicas como água e energia. As reformas dependem de parcerias com outras secretarias, emendas parlamentares ou projetos de captação de recursos. Mas nenhum projeto inclui despesas de pessoal – o maior gargalo do sistema”, explica.
Mesmo assim, Marcão Kareca garante que está buscando financiamento estadual e federal para projetos culturais voltados para as bibliotecas. “Nossas bibliotecas seguem sendo os poucos espaços públicos gratuitos, onde as pessoas podem se dedicar à leitura, ao estudo, à cultura e à convivência comunitária, em todos os pontos da cidade. Precisamos valorizar isso”, afirma.
Só para lembrar, o orçamento da Secretaria Municipal de Cultura – que inclui despesas da própria secretaria, FUNCART, PROMIC e fundos vinculados – está praticamente entre os menores de todas as secretarias municipais.
Em 2016, a Cultura correspondia a 0,46% do orçamento municipal. Em 2017, foi reduzido para 0,34% do orçamento municipal. De lá para cá, a pasta permaneceu com variações entre 0,39% e 0,55% do orçamento total que, no mesmo período, praticamente triplicou. Mesmo assim, sempre que vereadores querem fazer média com a população, aparece um projeto de lei para tirar dinheiro da Cultura para mandar para Saúde, Educação ou Esportes. Esse é o resultado.

