O que antes parecia distante agora acontece no quintal. E a pergunta já não é se vai acontecer, mas se estamos preparados
Por professor Renato Munhoz
Durante muito tempo, a emergência climática pareceu uma história contada sobre lugares distantes.
Enchentes no outro lado do mundo. Incêndios em países que pareciam pertencer a outro planeta. Ondas de calor na Europa. Furacões no Caribe. Secas severas em regiões que aprendemos a localizar apenas no mapa.
Assistíamos às imagens, lamentávamos as perdas e, depois de alguns dias, voltávamos à nossa rotina.
Até que o clima resolveu bater à nossa porta.
E talvez esta seja uma das grandes ironias do nosso tempo: aquilo que durante décadas não foi suficiente para nos mobilizar quando acontecia longe, agora começa a nos assustar porque acontece perto.
O extraordinário está deixando de ser extraordinário

Os sinais estão por toda parte.
O Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais – CEMADEN registrou, apenas em junho de 2026, 116 alertas e 60 ocorrências de desastres hidro-geo-climáticos no Brasil. Nordeste e Sudeste concentraram a maior parte dos alertas.
Em fevereiro, a Zona da Mata de Minas Gerais enfrentou chuvas extraordinárias que deixaram dezenas de mortos e milhares de pessoas deslocadas. Estudos posteriores apontaram que, em um cenário de maior aquecimento global, chuvas desse tipo podem se tornar ainda mais intensas.
No Paraná, Londrina conhece muito bem essa história. Em 2026, uma obra de R$ 5,5 milhões, financiada pelo Fundo Estadual para Calamidade Pública, começou justamente para enfrentar um problema crônico de alagamentos e erosões na região central, no entorno do córrego Água Fresca.
E não estamos falando apenas de chuvas.
O próprio CEMADEN aponta que as ondas de calor vêm aumentando continuamente no Brasil nas últimas quatro décadas, em todos os estados, e que a tendência pode se agravar com o fortalecimento do El Niño esperado para 2026-2027.
O Brasil já não precisa olhar para longe para entender o que está acontecendo.
O clima mudou. E nós estamos descobrindo que nossas cidades não mudaram na mesma velocidade.
A pergunta incômoda: quanto custa prevenir?
Existe uma conta que quase nunca fazemos. Quanto custa uma obra de drenagem? Quanto custa recuperar uma ponte? Quanto custa reconstruir uma escola? Quanto custa retirar uma família de uma área de risco? Quanto custa perder uma casa? Quanto vale uma vida? E, principalmente: quanto custa não fazer nada?
Os números ajudam a provocar essa reflexão. No orçamento de 2026 de Londrina, a classificação específica “Defesa Civil” aparece com R$ 70 mil na Lei Orçamentária Anual. Setenta mil reais.
Não estou dizendo que esse seja todo o recurso municipal destinado a prevenção climática. Obras de drenagem, saneamento, infraestrutura, meio ambiente e outros programas podem estar em diferentes rubricas. Mas o número deveria, no mínimo, nos provocar.
Porque enquanto uma cidade precisa pensar em drenagem, contenção, monitoramento, alerta, abrigo, comunicação, arborização, áreas permeáveis, infraestrutura verde, planejamento urbano e resposta emergencial, R$ 70 mil parecem muito mais próximos de uma lógica de reação do que de uma política robusta de preparação.
O Governo Federal, por sua vez, anunciou no Novo PAC R$ 11,7 bilhões para obras de drenagem e contenção de encostas, enquanto o Plano Clima lançado em 2026 passou a organizar ações nacionais de mitigação e adaptação para 2035.
Há dinheiro? Sim. Há iniciativas? Sim. Há políticas públicas sendo construídas? Também. Mas a questão que precisamos fazer é outra: o volume, a velocidade e a distribuição desses recursos são suficientes diante da dimensão do problema? Essa é a pergunta que não pode desaparecer depois que a água baixa.
Precisamos aprender a conviver com o que já está dado
Há décadas, o Brasil desenvolve uma ideia extremamente importante para regiões do semiárido: conviver com o semiárido.
A expressão carrega uma sabedoria que talvez precisemos ampliar. Conviver não significa aceitar passivamente. Significa compreender o território, reconhecer seus limites, respeitar seus ciclos e desenvolver tecnologias, políticas e modos de vida capazes de existir dentro daquela realidade.
Talvez seja exatamente isso que precisaremos fazer diante da emergência climática.
Aprender a conviver com um clima que já não é aquele que conhecíamos.
Não significa abandonar a luta pela redução das emissões. Muito pelo contrário.
Precisamos mitigar e adaptar. Mitigar significa reduzir aquilo que provoca o aquecimento. Adaptar significa preparar a sociedade para aquilo que já está acontecendo e para aquilo que, infelizmente, não conseguiremos evitar completamente.
Porque existe uma diferença enorme entre dizer: “Vamos impedir que o clima mude.” e dizer: “Vamos impedir que a mudança climática destrua nossas cidades e nossas vidas.”
Existe um ponto de não retorno?
Essa talvez seja uma das perguntas mais difíceis.
A ciência climática trabalha com os chamados pontos de inflexão, limiares a partir dos quais determinados sistemas podem sofrer mudanças profundas, rápidas e potencialmente irreversíveis. A discussão inclui riscos relacionados à Amazônia, mantos de gelo, oceanos e outros componentes do sistema terrestre.
Mas talvez exista outro ponto de não retorno que deveria nos preocupar ainda mais.
O ponto de não retorno social.
Aquele momento em que uma família perde a casa pela terceira vez. A agricultura deixa de produzir como antes. O preço dos alimentos dispara. A água começa a faltar. As cidades precisam gastar cada vez mais para reconstruir o que foi destruído.
Os seguros ficam caros ou deixam de existir em determinadas áreas. As pessoas mais pobres são obrigadas a morar justamente nos territórios mais vulneráveis. E a emergência climática passa a aprofundar a desigualdade. Porque o clima não atinge todos da mesma maneira.

Uma tempestade pode ser meteorologicamente igual para toda a cidade, mas socialmente é completamente diferente.
Quem mora em uma área segura perde, talvez, uma árvore. Quem mora em uma área de risco pode perder a casa.
Quem tem dinheiro compra um gerador, água, comida e se desloca.
Quem não tem, espera a Defesa Civil. É aí que a sustentabilidade deixa de ser apenas ambiental. Ela passa a ser uma questão de justiça social.
O que está em jogo?
Está em jogo muito mais do que o meio ambiente. Está em jogo o direito à cidade. A segurança alimentar. O acesso à água. A saúde pública. A mobilidade. A educação. A moradia. O trabalho. A economia.
E, principalmente: a capacidade de uma sociedade proteger os mais vulneráveis.
Por isso, não basta plantar árvores para fazer uma fotografia bonita. Precisamos repensar o desenho das cidades. Precisamos recuperar rios e córregos. Ampliar áreas verdes. Criar corredores de biodiversidade. Reduzir a impermeabilização do solo. Rever sistemas de drenagem. Mapear áreas de risco. Evitar novas ocupações em territórios vulneráveis. Criar sistemas eficientes de alerta. Preparar escolas, hospitais, empresas e comunidades para situações de emergência. Treinar pessoas. Criar protocolos. Fortalecer a Defesa Civil.
E, sobretudo, colocar adaptação climática dentro do orçamento público, e não apenas dentro dos discursos.
O próprio Ministério das Cidades já trabalha com uma estratégia de adaptação que propõe integrar a emergência climática ao planejamento urbano, incluindo zoneamento, regularização fundiária e instrumentos de planejamento territorial. É esse o caminho.
A emergência climática precisa deixar de ser um assunto da secretaria de Meio Ambiente e se transformar em uma agenda de toda a prefeitura. Talvez o problema seja que ainda esperamos a tragédia para começar a agir.
Existe uma característica curiosa na política pública brasileira: somos excelentes em reconstruir. Somos habituados a agir no “depois”. Uma obra que evita uma tragédia não tem vítimas para mostrar, nem ruínas para inaugurar.
Talvez seja justamente por isso que prevenção seja tão difícil de vender politicamente. Mas precisamos mudar essa lógica. Uma cidade preparada não é aquela que possui uma boa resposta depois do desastre.
É aquela que consegue reduzir a possibilidade de o desastre se transformar em tragédia.
Precisamos preparar nossas cidades, nossos governos e nossas comunidades para conviver com um mundo mais instável. Precisamos transformar prevenção em prioridade orçamentária.
A surpresa já acabou. O que temos diante de nós é uma realidade. E, como sempre acontece na história humana, existem duas possibilidades: podemos esperar que a realidade nos obrigue a mudar — ou podemos escolher mudar antes que ela nos obrigue. O clima já está batendo à nossa porta.
Será que, desta vez, vamos abrir?
Foto principal: TV Brasil
Professor Renato Munhoz

Educador, historiador, teólogo. Pós graduado em juventude gestão de programas e projetos sociais e educação ambiental.
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(*) O conteúdo das colunas não reflete, necessariamente, a opinião do O LONDRINE̅NSE.
