Vender fotos é seguro?

TIATELMA (2)

Por Telma Elorza

“Tenho 23 anos, sou bonita, estou solteira e desempregada. Recebi uma proposta para vender fotos de parte do meu corpo (pés, mãos e pescoço). Fiquei meio chocada, mas estou precisando muito de dinheiro e a proposta foi boa. Você me explicar o que acontece com essas fotos depois? Posso ser identificada por elas? Sou desprezível por vender fotos que sei que serão usadas por tarados? Não estou sabendo como lidar com isso.”

Querida leitora, você me perguntou duas coisas. A primeira é o que acontece com essas fotos depois que elas saem do seu celular. A segunda é se você é desprezível por vende-las. A resposta da segunda é bem mais fácil: não, você não é desprezível.  

O corpo é seu. Você faz o que quiser com ele. Não existe um “teste de caráter” para decidir quais os trabalhos são moralmente aceitáveis para uma mulher que quer simplesmente pagar suas contas e viver. A vida já é suficientemente difícil para que a gente tenha que carregar culpas que os outros querem que a gente tenha. Mesmo que você estivesse se prostituindo – o que não é o caso -, ainda assim você não seria desprezível. E quem fala isso merece um bom palavrão.

Agora, vamos para a primeira pergunta, que é bem mais complicada. Tive que pesquisar bastante para responder.

Existe um mito na internet de que vender fotos de pés ou outras partes do corpo é 100% anônimo. Não é. É apenas menos identificável do que mostrar o rosto.

Uma foto carrega muito mais informações do que aquilo que enxergamos. Dependendo da forma como ela é enviada, pode contar metadados com informações sobre data, horário, aparelho utilizado e, em alguns casos, até localização.

Além disso, pequenos detalhes aparentemente inocentes podem identificar uma pessoas, como tatuagens, cicatrizes, pintas, um anel, o piso da sua casa ou até um móvel no fundo. Parece exagero, mas investigadores digitais conseguem descobrir muito sobre alguém, através de uma foto. Muito mais que imaginamos. Está cheio de casos, nas redes sociais, de mulheres que descobriram traições dos maridos por causa de uma simples foto publicada.

Então, sim, você pode ser identificada por elas. É uma possibilidade real.

O que acontece com uma foto quando sai do seu celular

E existe também outra verdade que pouca gente conta, quando romantiza esse mercado de fotos nas redes sociais. Depois que uma foto vai para a internet, você perde o controle sobre ela. O comprador, por exemplo, vai guardá-la só para si? Talvez. Mas também pode compartilhá-la. Pode utilizá-la em montagens ou alimentar a inteligência artificial, por exemplo.

Veja bem: não estou dizendo que isso acontecerá, mas que é um risco real. Afinal, nunca se sabe o que o comprador poderá fazer com sua foto. Você não o conhece, não sabe sobre seu caráter, seus objetivos reais com a foto. A gente imagina que ele vai bater punheta. Mas será que é só isso?

Se você decidir vender suas fotos, já dou um conselho importante. Não misture sua vida pessoal com esse trabalho. Nunca utilize seu perfil pessoal para negociar, nem mesmo no direct. Preste atenção nas fotografias que faz. Retire todos os objetos identificáveis do fundo. Aliás, o melhor seria montar algo parecido com um estúdio fotográfico, com uma lona branca cobrindo parede e parte do chão, para fazer suas fotos, se quiser se profissionalizar na área.

Também aprenda a remover os metadados das imagens, antes dos envios. Dê uma busca no Google e você vai achar aplicativos de celular para isso.

Além disso, evite mostrar marcas muito características do corpo (tatuagens, por exemplo, podem ser disfarçadas com maquiagem) e, principalmente, tome cuidado até mesmo com a forma de receber pagamentos, porque alguns tipos podem revelar seu nome completo para desconhecidos.

Entendido? Segurança é tudo.

Agora, deixa eu falar uma coisa sobre os “tarados”, como você disse.

Existe um preconceito enorme quando falamos de fetiches sexuais. Fetiches em pés, mãos e outras partes do corpo é algo extremamente comum.

Há pessoas que consomem esse tipo de conteúdo de maneira perfeitamente consensual entre adultos. O problema real não é alguém ter um fetiche e bater punheta com seu objeto de desejo à vista.

O problema é que a outra pessoa – a dona dos pés que causou o tesão, por exemplo-, não pode se sentir pressionada, enganada ou exposta além do que já foi consentido. Então, a pergunta que você deveria se fazer é “como vou viver sabendo que tem homens (e até mulheres, vai), batendo punheta por uma parte do meu corpo”? Se isso a afetar psicologicamente, não venda. Agora, se não a afeta em nada, vai fundo, guria.

Mas estabeleça limites, ok? Até onde você está disposta a mostrar.  Mesmo que depois a pressionem e ofereçam muito dinheiro para mostrar mais e mais do seu corpo – o que também é muito comum de acontecer -, mantenha seus limites firmes. Não é não. Ele não precisa de nenhuma explicação.

E para finalizar, um detalhe que percebi no seu texto. Você sente culpa por pensar em aceitar a proposta e vender suas fotos. Não sinta. Você não está explorando ninguém, não quer aplicar um golpe. Você está desempregada e recebeu uma proposta financeira. Apenas isso.

Você não pode ignorar os riscos, mas também não pode se sentir culpada por se sentir tentada a aceitar essa proposta, uma decisão que diz respeito apenas a você mesma. A única resposta errada é que aquela em que você tem que forçar a si mesma para fazer algo.

Espero ter ajudado.

Tem dúvidas sobre sexo? Mande sua pergunta para telma@olondrinense.com.br

A leitora, desempregada, está se sentindo em dúvida se deve ou não vender fotos dos pés para "tarados". Será que é seguro?
Tia Telma versão Inteligência Artificial

Quem é Tia Telma?

Telma Elorza é jornalista, divorciada, xereta por natureza e que sempre se interessou muito por sexo. Com a vida, aprendeu várias coisas, mas a principal é que sexo é uma coisa natural e deve ser sempre prazeroso.

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