Por professor Renato Munhoz
Nos últimos meses, o Brasil voltou ao centro do debate ambiental internacional. Desta vez, o motivo não foi uma conferência climática nem uma grande tragédia ambiental. O tema surgiu em meio ao chamado “tarifaço” dos Estados Unidos sobre produtos brasileiros, quando o governo norte-americano apontou o desmatamento como um dos fatores de preocupação em suas relações comerciais com o Brasil.
Mas afinal, o Brasil está desmatando mais ou menos? O discurso internacional corresponde à realidade dos dados?
Essa é uma pergunta que merece ser respondida com fatos, e não apenas com ideologias.
Durante muito tempo, o Brasil foi apresentado ao mundo como um dos grandes vilões ambientais. Em parte, essa imagem foi construída por números preocupantes registrados principalmente na Amazônia. No entanto, os dados mais recentes do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) mostram um cenário mais complexo do que aquele normalmente reproduzido nos debates políticos e econômicos.
Segundo o sistema PRODES, do INPE, a taxa oficial de desmatamento da Amazônia em 2025 foi de aproximadamente 5,8 mil km², representando uma redução de cerca de 11% em relação ao ano anterior. O Cerrado também apresentou queda superior a 11% no mesmo período.
Os dados de monitoramento em tempo real do sistema DETER apontam a mesma tendência. Em 2025, os alertas de desmatamento na Amazônia somaram cerca de 3.817 km², o menor índice dos últimos oito anos. No Cerrado, os alertas também diminuíram aproximadamente 9%.

Isso significa que o problema acabou?
Infelizmente, não.
Reduzir não é eliminar o desmatamento
Cinco mil quilômetros quadrados de floresta derrubada continuam sendo uma área gigantesca. Para se ter uma ideia, corresponde a mais de três vezes o território do município de Londrina.
Além disso, há uma questão que raramente aparece nas manchetes. O debate ambiental costuma concentrar-se apenas na Amazônia, enquanto outros biomas sofrem pressões igualmente severas. O Cerrado, por exemplo, é considerado uma das áreas mais ameaçadas do planeta devido ao desmatamento pela expansão agropecuária.
Outro ponto que merece reflexão é a utilização da pauta ambiental como instrumento econômico. O relatório comercial norte-americano que justificou tarifas adicionais sobre produtos brasileiros argumenta que o desmatamento reduz custos de produção e gera vantagens competitivas ao agronegócio nacional.
A questão é legítima, mas também revela uma disputa global por mercados. Afinal, os mesmos países que hoje cobram rigor ambiental do Brasil já desmataram grande parte de suas florestas durante seus processos de industrialização.
Isso não significa que devemos ignorar o problema. Pelo contrário.
O Brasil precisa proteger seus biomas não porque os Estados Unidos exigem, nem porque a Europa pressiona. Deve fazê-lo porque água, biodiversidade, clima e qualidade de vida dependem diretamente da conservação dos ecossistemas.
A floresta em pé não é apenas patrimônio ambiental. É patrimônio econômico, social e cultural.
O desafio, portanto, não é escolher entre produzir ou preservar. O verdadeiro desafio é produzir sem destruir.
Talvez a pergunta mais importante não seja quanto a Amazônia perdeu neste ano.
Talvez a pergunta seja outra:
Quanto vale uma floresta que continua existindo para as próximas gerações?
Enquanto discutimos tarifas, exportações e competitividade, a natureza continua nos lembrando de uma verdade simples: sem floresta, não há chuva; sem chuva, não há agricultura; sem agricultura, não há economia.
E essa conta, cedo ou tarde, chega para todos.
Professor Renato Munhoz

Educador, historiador, teólogo. Pós graduado em juventude gestão de programas e projetos sociais e educação ambiental.
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