Por Telma Elorza
No sábado passado, minha irmã e cunhado me convidaram para um passeio no Parque Arthur Thomas, aproveitando o dia de sol. Fazia anos – uma década e meio, pelo menos – que eu não caminhava por ali. Aceitei, claro, porque queria rever um dos lugares mais bonitos de Londrina e ver como ficaram as obras de recuperação do local. O parque estava cheio de gente e meu deu um quentinho no coração ver os londrinenses e turistas aproveitando o local.
Parte do parque está realmente incrível, muito bem cuidado, com trilhas bem assentadas, água potável disponível em vários pontos, lago bonito (mas nitidamente assoreado). O problema é quando se adentra a trilha que leva à primeira usina de energia elétrica de Londrina, a Usina Hidrelétrica do Cambezinho, um marco importante para a história de Londrina, localizada onde hoje está o parque.
A realidade tratou de colocar meus pés no chão. A trilha até a usina está interditada. Mirantes fechados. Áreas importantes de visitação e aprendizagem seguem inacessíveis ao público. O parque, que deveria ser um dos símbolos da conservação ambiental da cidade, ainda carrega marcas das chuvaradas que detonaram o local e da demora em executar obras de recuperação.
Enquanto observava as placas de interdição, não consegui deixar de pensar em uma pergunta inevitável. Se Londrina possui um Fundo Municipal do Meio Ambiente (FMMA) superavitário – que deveria ser usado para financiar a recuperação de áreas ambientais – , por que o dinheiro não foi usado ali? Por que as obras dessa parte do Parque ainda não foram feitas, ou, pelo menos, iniciadas?
O superávit do Fundo foi a justificativa dada pelo prefeito Tiago Amaral para direcionar esses recursos, cerca de R$20 milhões, para despesas de custeio da Educação, durante o ano de 2025. O argumento pode até parecer razoável para quem olha apenas os números. Afinal, quem seria contra por dinheiro em Educação? O problema é que custeio, gente, deveria estar no orçamento da pasta. Custeio é uma coisa previsível e, portanto, planejável. Mas a administração freestyle parece não saber o que é planejamento.

Como eu já disse em outro artigo, os fundos municipais não foram criados para servirem de “cofrinho” para a Prefeitura.
O Fundo Municipal do Ambiente existe para que os recursos arrecadados com multas ambientais, compensações e outras receitas vinculadas sejam aplicados na preservação, recuperação e proteção ambiental de Londrina. Ele tem dono e deveria ser usado para sua finalidade.
E Londrina está longe de poder dizer que não precisava dele e poderia dispor para outras coisas. O Arthur Thomas é só um dos exemplos onde esse dinheiro poderia ser investido. Mas há outros tão importantes quanto. O Lago Igapó está assoreado e há anos fazem promessas para resolver a situação. Nascentes de rios (são inúmeras na área urbana de Londrina) precisam de recuperação e proteção adequada. Fundos de vale necessitam de proteção e limpeza. Esgotos clandestinos funcionam à vontade por aí. A cidade possui uma lista enorme de passivos ambientais esperando recursos.
E não por acaso, os próprios planos de aplicação do Fundo Municipal já previam investimentos no Parque Arthur Thomas. Ou seja, havia o reconhecimento oficial que aquele dinheiro deveria estar sendo usado para fortalecer o patrimônio ambiental da cidade.
Mesmo assim, a Prefeitura preferiu outro caminho.
Detalhe que merece atenção de todos. A justificativa do “superávit” usada pelo prefeito deu impressão que era dinheiro sobrando, parado e sem destino. Mas não é assim que funciona um fundo público. Superávit financeiro significa apenas que havia saldo em caixa ao final do exercício de 2024. Isso não elimina a vinculação legal dos recursos.
Por que falta dinheiro para completar a recuperação do parque?
Se o dinheiro entrou no Fundo Municipal do Ambiente para recuperar áreas ambientais, ele continua pertencendo ao ambiente até que seja aplicado nessa finalidade, salvo autorização legal e inequívoca para fazer diferente, o que não houve já que o Conselho Municipal do Meio Ambiente (Consemma) sequer ficou sabendo dessas retiradas. Só foi perceber quando já estava feito. E é justamente essa interpretação que está sendo contestada pelo Ministério Público.
É difícil entrar na minha cabeça – e acho que na sua também – o porquê de faltar recursos para recuperar trilhas interditadas, restaurar mirantes, desassorear o Igapó ou revitalizar parques, enquanto milhões destinados exatamente para essas finalidades são deslocados para despesas que deveria estar no planejamento orçamentário de outra pasta.
A Educação merece todo o investimento possível, mais escolas, mais creches, melhores salários dos professores, merenda de qualidade. Mas financiar custeio de uma política pública enfraquecendo outra não é solução.
Ao sair do Parque Arthur Thomas, fiquei com a sensação que aquelas trilhas fechadas contam uma história maior que simples obras inacabadas. Elas representam a escolha administrativa do prefeito freestyle.
Em Londrina, até o dinheiro destinado ao meio ambiente – que traz qualidade de vida para população, serve de atrativo turístico e atrai empresas – pode seguir outro caminho. Que dirá o de outros fundos, né?
Foto principal: Rodolfo Gaion / CMTU
Telma Elorza
É jornalista, escritora e contadora de histórias, trabalhou na Folha de Londrina por quase 20 anos e no Jornal de Londrina por outros 10 anos, locais onde atuou como repórter, redatora e editora nas áreas de Economia, Política e Agronegócio, entre outras. Em 2019, fundou seu próprio jornal, O LONDRINE̅NSE, e se tornou entrevistadora do O LONDRINE̅NSE POD.
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