Toy Story 5 reconhece que a infância mudou

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Por Marcelo Minka

Toy Story 5 chega aos cinemas carregando uma pergunta incômoda: ainda há vida emocional possível numa franquia que já se despediu tantas vezes? Desde 1995, Toy Story não foi apenas uma série sobre brinquedos que ganham vida quando os humanos não estão olhando. Foi uma das grandes máquinas afetivas do cinema contemporâneo, capaz de transformar plástico, pano e pilha em medo do abandono, crise de identidade e luto pela infância.

O quinto filme entende que não bastava repetir a velha angústia de ser esquecido dentro de uma caixa. O inimigo agora é mais preciso, mais cotidiano e mais difícil de derrotar: a tela. A chegada de Lilypad, uma espécie de dispositivo tecnológico em forma de brinquedo, desloca a disputa para o centro do nosso tempo. Não se trata mais de um brinquedo novo ameaçando outro brinquedo antigo, como Buzz ameaçava Woody no primeiro filme. Agora o que está em jogo é a própria ideia de brincar.

Andrew Stanton, cineasta central da Pixar e diretor de WALL·E e Procurando Nemo, sabe que a força da animação não está apenas na piada visual, mas na ferida escondida sob ela. Ao lado de Kenna Harris, codiretora do filme, ele encontra em Toy Story 5 um tema atualíssimo: crianças que já não abandonam os brinquedos porque cresceram, mas porque foram hipnotizadas cedo demais por dispositivos que prendem nossa atenção por horas. É uma boa premissa, porque atualiza a melancolia da saga sem precisar traí-la.

Jessie ganha maior centralidade, e isso faz sentido. A personagem, vivida por Joan Cusack, atriz conhecida por sua energia cômica e por dar voz à boneca desde Toy Story 2, sempre carregou uma das dores mais profundas da franquia: a memória de ter sido deixada para trás. Colocá-la diante de uma infância mediada por telas amplia essa ferida. Já Woody e Buzz aparecem como presenças quase míticas. Tom Hanks, ator associado a uma certa ideia de decência emocional no cinema americano, e Tim Allen, voz original de Buzz Lightyear desde 1995, não retornam apenas como personagens, mas como arquivos vivos da memória afetiva do público.

Toy Story 5 traz os velhos conhecidos brinquedos lutando com uma nova vilã, a tecnologia. Seu melhor argumento é reconhecer que a infância mudou
Fotos: Divulgação

Toy Story 5: verdade nova ou apenas nostalgia?

O risco, claro, é o mesmo de quase toda continuação tardia: confundir permanência com necessidade. Toy Story 3 parecia ter encerrado o ciclo com rara elegância. Toy Story 4 já funcionava como epílogo, deslocando Woody para uma liberdade mais ambígua. Toy Story 5, portanto, nasce sob suspeita. Todos sabemos que a Pixar sabe emocionar, a pergunta que surge é se ainda existe uma verdade nova nesse universo ou se estamos apenas diante de mais uma operação de nostalgia bem embalada com a finalidade de inflar os cofres.

A resposta parece estar justamente na tecnologia. Ao transformar a tela em ameaça ao brinquedo, o filme toca num ponto delicado: a infância contemporânea está cercada por estímulos que reduzem o silêncio, a espera e a invenção. O brinquedo tradicional exige que a criança complete o mundo. A tela, muitas vezes, entrega o mundo pronto. Essa diferença é enorme. Toy Story 5 funciona melhor quando percebe que a perda não é apenas dos brinquedos, mas da imaginação como exercício diário.

Greta Lee, atriz de Vidas Passadas e voz de Lilypad, ajuda a tornar essa ameaça menos caricatural. A tecnologia não precisa ser vilã monstruosa para ser perigosa; basta ser sedutora, prática e sempre disponível. Há também um componente industrial inevitável. Toy Story 5 é filme, mas também é produto, marca, memória e vitrine. Jessica Choi, produtora ligada à liderança criativa da Pixar, trabalha dentro de uma máquina que sabe transformar emoção em evento global. Isso não invalida o filme, mas exige atenção crítica. A franquia fala sobre brinquedos temendo serem descartados enquanto ela própria tenta provar que ainda não deve ser descartada pelo público.

Mesmo a presença musical de Randy Newman, compositor cuja canção You’ve Got a Friend in Me se tornou quase sinônimo da série, funciona como senha emocional. E a nova canção de Taylor Swift, artista que domina como poucas a fabricação contemporânea de intimidade pop, indica uma tentativa clara de conversar com outra geração sem perder a anterior.

Toy Story 5 talvez não tenha mais a surpresa revolucionária do primeiro filme, que mudou a história da animação digital, nem o impacto terminal do terceiro. Mas seu melhor argumento está em reconhecer que a infância mudou. A criança de hoje não abandona necessariamente os brinquedos por crescer. Às vezes, ela nem chega a brincar com eles como antes. Isso é triste, mas é também uma boa matéria para cinema.

No fundo, Toy Story sempre foi sobre objetos que queriam continuar necessários. Agora a própria franquia parece fazer a mesma pergunta. E essa é sua contradição mais honesta: um filme sobre brinquedos tentando sobreviver à tecnologia, feito por um estúdio que nasceu justamente de uma revolução tecnológica.

Marcelo Minka

Mestre em Antropologia Visual (UEL), dá forma à linguagem estética da Angatu Joias, unindo arte, forma e símbolo em criações que revelam a poética entre design e significado. Artista visual e pesquisador, transita entre o pensamento e o fazer, inspirado pelas viagens, pelos sabores, pela natureza e pelas culturas que encontra pelo Brasil e pelo mundo. Cinéfilo nas horas vagas.

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