Wãre: quando a cidade esquece a própria história

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Por Telma Elorza

Um servidor público me mandou alguns documentos sobre a situação dos indígenas do Centro Cultural Kaingang Wãre, às margens da Avenida 10 de Dezembro. E fiquei sensibilizada. Confesso que, no meu dia a dia corrido, não tinha parado para pensar sobre a atual situação da comunidade que vive lá. Eu, que estive na inauguração oficial do Centro, fazendo a reportagem do evento para a Folha de Londrina, fiquei alheia sobre a questão. Infelizmente, não sou a única. Toda a sociedade londrinense esqueceu do Wãre.

E hoje faço uma pergunta simples que Londrina precisa responder, antes de retiraram dezenas de famílias indígenas do Wãre: como um espaço criado pelo próprio poder público para acolher indígenas pode, de repente, ser tratado como uma ocupação que precisa desaparecer?

O caso do Wãre deve ser um debate sobre memória, coerência administrativa e, principalmente, justiça histórica. Documentos públicos mostram que a relação da comunidade Kaingang e aquela área vem de mais de 30 anos. Eu estive lá, na inauguração, durante a gestão do então prefeito Antônio Belinati, em 1999. A prefeitura fez cerimônia de inauguração com tudo que tinha direito: fitas, discursos e muita claque para bater palmas.

A administração gastou dinheiro público, elaborou projeto (feito pelo IPPUL) e construiu o Centro para dar uma solução e dignidade às dezenas de famílias que saiam da reserva, em Tamarana, para vir a Londrina, comercializar artesanato e manter atividades culturais. E também para resolver um problema com os moradores dos bairros vizinhos do Lago Igapó, muito valorizado já naquela época.

Até então, eles acampavam ali e na beira do Lago Igapó, uma coisa natural para os povos originários: ficar perto da água. Mas que gerava reclamação e mais reclamação contra os grupos “que enfeiavam e sujavam o cartão postal da cidade (palavras da época, tá? Lembro bem disso)”. E foi um trabalho enorme de convencimento levar todos os indígenas para o Wãre.

E agora eu me pergunto: se a própria administração pública reconheceu a necessidade de criar um espaço para o povo Kaingang ter uma “casa” em Londrina, naquele local, como explicar que, décadas depois, esse mesmo povo seja tratado como invasores?  A última revitalização no espaço foi feita pela administração do então prefeito Barbosa Neto, em 2012, pouco antes dele ser cassado. Ou seja, mais um fato que aponta a intenção da administração pública com a comunidade.

O relatório oficial da Funai, de abril de 2026, trouxe elementos que tornam a discussão ainda mais complexa (estará anexado aqui embaixo). O levantamento apontou que cerca de 70 famílias vivem atualmente no Wãre. Duas, pelo menos, desde o início, outras com 20, 15, 10 anos de permanência no local.

As entrevistas realizadas também mostram que o local não funciona apenas como moradia. É também espaço de produção e venda de artesanato, ponto de apoio para estudantes indígenas, local de articulação cultural e política e base de acesso ao mercado de trabalho.

E o relatório da Funai deixa claro. Nenhuma das famílias quer deixar o local. Lógico, a Prefeitura propôs realocá-las na Fazenda Refúgio, a famosa “Pirambeira” (os mais velhos vão lembrar das polêmicas envolvidas na aquisição da fazenda pela Prefeitura – originalmente para construção de casas populares, mas que o terreno pedregoso ao extremo não permitiu).  

E, claro, levar o povo Kaingang para lá seria um absurdo. A transferência para essa área afastada significaria perda de renda, dificuldades de transporte, prejudicaria os estudantes, traria rompimento de vínculos comunitários e um maior isolamento social. Mais do que já sofrem. Seria desmontar uma estrutura social/cultural construída ao longo de décadas.

Ah, mas lá eles não tem infraestrutura básica, saneamento, nada do tipo. E você acredita que, na Fazenda Refúgio, vão ter? Numa área pedregosa, que não dá para passar redes de água e esgoto? Não seria melhor a prefeitura dar essas condições ali, onde já estão?

Depois de quase 30 anos de existência do Wãre Centro Cultural Kaingang, agora chama de invasão um local que foi construido com dinheiro público
Foto: Movimento Popular AntiCorrupção “Por Amor a Londrina!”

Wãre e as mansões do Igapó

Outro aspecto que merece uma reflexão maior é o tratamento dado pelo poder público às diferentes formas de ocupação urbana. Enquanto a retirada dos Kaingangs avança pelos tribunais, a própria 20ª Promotoria de Justiça já apontou 72 procedimentos instaurados para apurar a edificação de imóveis próximos da área de preservação permanente, envolvendo construções irregulares – casas de luxo com piscinas, muros, decks e outras edificações – no entorno do Lago Igapó. Tá, uma irregularidade não justifica a outra. Mas é legítimo questionar se todos recebem o mesmo tratamento, a mesma urgência e o mesmo rigor. Será que algum dia, aquelas mansões na beira do Igapó irão abaixo? Duvido.

O caso do Wãre também revela uma contradição frequente da sociedade brasileira. Todo mundo gosta de celebrar a cultura dos povos originários em datas comemorativas, visitar feiras de artesanato e defender a diversidade em discursos públicos. Mas, quando esses povos reivindicam espaço concreto dentro das cidades, surgem rapidamente argumentos para afastá-los para locais cada vez mais distantes e invisíveis.

É evidente que a Prefeitura tem obrigações legais e questões desse nível precisam ser resolvidas dentro da lei. Mas a própria lei exige diálogo, mediação e respeito aos direitos indígenas. E diálogo não significa comunicar despejo.

Londrina nasceu sobre territórios ocupados por povos indígenas. É fato histórico.  O debate sobre o Wãre, hoje, deveria ser sobre como construir uma solução que respeite a história da cidade, a dignidade das famílias e os compromissos assumidos pelo poder público há 30 anos.

Foto principal: Emerson Dias/N.COM

Telma Elorza 

É jornalista, escritora e contadora de histórias, trabalhou na Folha de Londrina por quase 20 anos e no Jornal de Londrina por outros 10 anos, locais onde atuou como repórter, redatora e editora nas áreas de Economia, Política e Agronegócio, entre outras. Em 2019, fundou seu próprio jornal, O LONDRINE̅NSE, e se tornou entrevistadora do O LONDRINE̅NSE POD.

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Respostas de 4

  1. O local destinado a nova ocupação diante do aumento da população indígena é na Fazenda São Miguel e não Refúgio.
    O governo federal através da FUNAI é que deve construir as novas casa de passagem.
    Deputados Federerais de região devem interceder e colocar emendas parlamentares para subsidiar essa mudança.
    Tamarana é a sede da Aldeia e recebe recursos por isso.
    Indígenas são vítimas.

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