Por Telma Elorza
Faz quase quatro meses que estou longe de Londrina, por motivos particulares. Mas acompanho tudo que acontece em Londrina, através de jornais, blogs e redes sociais. E, sinceramente, tenho a certeza que a cidade chega ao fim de janeiro de 2026 sendo administrada na base do improviso. Eu já tinha essa sensação durante todo o ano passado, o primeiro do mandato. Mas agora parece que o prefeito Tiago Amaral (ou Matagal, como estão chamando-o nas redes sociais) entregou para Deus e que vai ser assim mesmo, improvisando, pelo resto do tempo à frente da prefeitura. Isso que dá votar nas “promessas” de um cara que nunca administrou nada na vida.
O debate mais quente do momento – a suspensão do Cartão do Material Escolar às vésperas do início das aulas – juntou-se a algo maior. Nas redes sociais, blogs e jornais, o Cartão é mais um item no rol das críticas como o abandono urbano que a população vem sentindo. Não bastasse o abandono das populações vulneráveis (como a exclusão de cerca de 500 famílias do Programa Municipal de Transferência de Renda poucos dias antes do pagamento, além do corte no orçamento da Assistência Social, entre outros), agora também temos o abandono urbano: o mato tomando conta da cidade e os buracos no asfalto até em regiões como a Gleba Palhano.
A ideia do Cartão de Material Escolar até nasceu com um discurso bonito: dar autonomia às famílias, estimular o comércio local e modernizar a política pública. No papel, tudo lindo, maravilhoso, Na prática, virou exemplo clássico da falta de um planejamento sério, do improviso que tá sendo o tom administrativo. O valor do cartão – até R$200 – não cobria o custo real dos materiais nas papelarias (ainda mais em pleno período pré-aulas, onde tudo se encontra mais caro); os lojistas investiram pesado em estoque acreditando no discurso da prefeitura e, quando o problema veio à tona, a solução foi simples: suspender tudo.
Os resultados são pais inseguros porque não sabem se a prefeitura vai dar o material (já abriram licitação?), comerciantes no prejuízo e, mais uma vez, uma gestão que passou a imagem de que testou um projeto diretamente na população, sem estudo técnico suficiente. Meu: será que quem teve a brilhante ideia não sabe a diferença de custos entre comprar no atacado e comprar no varejo? O básico de uma administração pública?
A gestão agora argumenta que o recuo foi necessário para evitar desperdício de dinheiro público. Dãããã! Descobriram a pólvora. O argumento é legítimo, mas tardio, inconsequente. Evitar desperdício não é opção é uma regra. E, mais que isso, é obrigação legal e moral dos governantes (tá, não é isso que vemos em todos os níveis de governo). A Constituição Federal exige que a administração pública siga princípios como legalidade, eficiência, economicidade e moralidade. Ou seja: gestor não pode gastar mal, IMPROVISAR OU TESTAR política pública sem estudo, porque o dinheiro é da população.
Evitar desperdício não pode significar criar um problema para depois “consertar” com uma canetada. O Observatório de Gestão Pública de Londrina já havia alertado para os riscos do programa, mas foi ignorado. Quando o erro ficou evidente, quem pagou a conta foi, de novo, a população.
Improviso administrativo
Esse improviso administrativo está em tudo, pelo que a gente está vendo. Basta andar pela cidade – ou abrir o Instagram – para ver que o mato alto virou regra e não exceção. Como disse a Ana Paula Barcellos, na coluna desta semana, antes a gente até via mato alto em bairros periféricos. Agora, está em todos os locais, até no Centro. Há registros de calçadas intransitáveis, terrenos públicos tomados pela vegetação, tudo com um aspecto de descuido. E não se trata apenas de estética (o prefeito anterior tinha uma predileção estética por florzinhas, gastou horrores com elas, mas pelo menos mantia a capina e roçagem das áreas mais privilegiadas da cidade em dia). Mato alto traz risco de animais peçonhentos, dificulta a mobilidade e traz uma mensagem clara: a manutenção básica está o UÓ.
Até agora, a administração não apresentou um plano consistente de ação emergencial (nem mesmo absurdas como um ex-secretário de Meio Ambiente aplicou certa vez: espalhar mata-mato, ferindo tudo quanto é legislação ambiental). O silêncio institucional constrata com o barulho das redes sociais, onde os moradores de Londrina cobram uma resposta simples: quando vem a limpeza? Não é uma obra complexa, nem projeto de longo prazo, tem dinheiro para os serviços no orçamento, então não dá para entender o descaso e o improviso.

E então chegamos ao velho e persistente drama da infraestrutura: os buracos. Londrina sempre teve problemas com o asfalto, mas a insatisfação cresceu porque eles continuam surgindo e ressurgindo, mesmo após recapes recentes. Há reclamações no Centro, em bairros periféricos e, para o desconforto político do prefeito buracal, até na Gleba Palhano (todo mundo viu o buraco em que colocaram uma planta em plena área nobre, mas esse foram lá rapidinho e taparam. Infelizmente não consegui a foto pra mostrar aqui).
E quando os buracos aparecem em toda a cidade, a crítica é geral. Quando surgem na Gleba, a cobrança ganha outro tom: se nem a área mais valorizada de Londrina escapa, o que será de nós, moradores do resto da cidade? A percepção é de obras mal feitas, soluções paliativas e pouca efetividade. Tapar buraco que reabre semanas depois não é manutenção, é maquiagem.
No fim das contas, as três polêmicas se conectam. Cartão escolar suspenso, mato alto e ruas esburacadas apontam o mesmo problema: falta de planejamento. Não são debates ideológicos, nem disputas abstratas, são questões práticas que afetam a vida real de toda uma população, que nem cobra milagres, mas coerência. Governar não é testar ideias sem estudos, nem esperar a pressão das redes sociais para agir. Londrina precisa menos de discursos e fotos bonitas no Instagram e mais execução. Porque do jeito que está indo, a cidade vai continuar sendo prejudicada com os improvisos da gestão.
Telma Elorza
É jornalista, escritora e contadora de histórias, trabalhou na Folha de Londrina por quase 20 anos e no Jornal de Londrina por outros 10 anos, locais onde atuou como repórter, redatora e editora nas áreas de Economia, Política e Agronegócio, entre outras. Em 2019, fundou seu próprio jornal, O LONDRINE̅NSE, e se tornou entrevistadora do O LONDRINE̅NSE POD.
Leia mais artigos de Opinião
Siga O LONDRINE̅NSE no Instagram: @olondrinensejornal
