Tenho atração por mulher “feia”

TIATELMA (2)

Por Telma Elorza

“Tenho 35 anos e sou um homem bonito, com um corpo malhado. Poderia ser um Mister Universo, sem querer me gabar. Mas o meu problema é que só tenho atração por mulheres que são consideradas “feias” (não feia de horrorosas, tipo bruxa de contos de fadas, mas mais comuns, aquelas que não se destacam na balada). Meus amigos tiram com a minha cara, porque, segundo eles, não posso ver uma “baranga” que tenho o maior tesão. Isso é considerado problema mental?”

Primeiro de tudo, vamos bater o pau na mesa: não, isso não é problema mental. No máximo, é um baita problema para seus amigos, que, pelo visto, são tipo uns Fiat 147 querendo pegar só Ferraris. Atração sexual não vem com tabela de beleza. Você não está quebrado, não precisa de terapia por causa disso e muito menos um manual de “como ter tesão em mulheres aprovados pela banca do grupo de WhatsApp”.

Relaxa, sentir atração por mulheres “comuns” ou fora dos padrões de beleza impostos pela sociedade não é doença. É personalidade.

Você diz que é bonito, malhado, quase um Mister Universo. Ok, anotado. E o que isso importa se o seu tesão não obedece ao padrão e procurar uma mulher que também tenha seu estilo? Se você se sente atraído por mulheres fora do molde “gostosona”, estilo Only Fans, o gosto é seu. Você é quem vai trepar com elas. Ou você se sente “diminuido” por sair e trepar com mulheres “feias” por ser bonito? Sim, você já virou motivo de piada no seu grupo de amigos, mas desde quando atração precisa de autorização coletiva? Você vai deixar de ir atrás do que gosta porque os “caras” tiram sarro?

Vamos falar de desejo adulto, o tesão de um homem (homem mesmo, não um babaca) que é uma coisa mais complexa do que seus amigos parecem entender. Tesão a gente não põe em planilha ou organiza como planilha de Excel. A gente não soma barriga de tanquinho com peitos de silicone, não subtrai celulite, umas dobrinhas de gordura, um nariz meio torto. Desejo é química, é história pessoal, memória afetiva, cheiro, conversa, olhar, saliva, espontaneidade, personalidade. Às vezes, o que excita é exatamente o que não foi pasteurizado.

Vou usar meu caso como exemplo: sou uma mulher gorda, totalmente fora dos padrões, quase “uma baranga” pelos olhos de seus amigos. Mas, ao longo da minha vida, namorei caras lindos ou muito charmosos. Por que? Porque tenho uma personalidade atrativa, sou inteligente, sei manter uma conversa sobre qualquer assunto, cozinho muito bem, sou compreensiva e, principalmente, conheço meu corpo muito bem e sei como aproveitá-lo, além de gostar muito de sexo.

Feia e baranga, será?

Aliás, vale um parêntese importante: chamar uma mulher de “baranga” diz mais sobre a imaturidade de seus amigos do que sobre as mulheres em questão. Beleza fora do padrão não é defeito, é diversidade. E muita gente confunde o “não me atrai” com “feia”. E são coisas bem diferentes.

Existe, inclusive, explicação psicológica simples – e nada patológica – para isso. Pessoas muito valorizadas pela aparência costumam se sentir mais à vontade com quem não entra em disputas de ego, performance ou expectativa social. Às vezes, o tesão mora no conforto, na naturalidade, na ausência de teatro. Tem gente que se excita com vulnerabilidade, com autenticidade, com gente real. Chocante, eu sei.

Outro ponto: atração não é caridade estética. Você não está “aceitando menos”. Você está escolhendo diferente. Isso não o diminui, não diminui as mulheres e não quebra nenhuma regra invisível do universo. Quem insiste que homem bonito “tem obrigação” de ficar com mulher padrão está só reproduzindo um mercado de corpos, não falando de desejo e tesão.

Se você se forçasse a ficar apenas com mulheres que seus amigos aprovam, mas que não lhe despertam nada, aí sim teríamos um problema. Gente adulta que ignora o próprio desejo para agradar plateia geralmente acaba frustrada e infeliz.

Agora, se existe algo a ajustar, não é o seu tesão. É o vocabulário e a turma. Talvez rever como você fala dessas mulheres – inclusive mentalmente – e, principalmente, se afastar da ideia de que desejo precisa ser validado por terceiros. Tesão não precisa de aprovação pública.

No fim das contas, você sente atração por mulheres que seus amigos não acham “à altura” da sua aparência. Ótimo. Menos competição, menos encenação, mais verdade. Se tem alguém saudável nessa história, provavelmente é você. Você só precisa parar de dar tanta importância à opinião desses “amigos”.

Então, da próxima vez que zoarem, responde simples: “Gosto não se discute. Tesão, muito menos.” E segue a vida. Quem trepa feliz não deve satisfação ao tribunal da estética alheia.

PS – A título de curiosidade, existe até uma palavra para definir o seu caso (pessoas atraentes estilo padrão se relacionando com as menos convencionais): “Shrinking“, um termo da Geração Z que descreve a tendência de escolher parceiros românticos considerados fora dos padrões tradicionais de beleza (o “feio” ou a “feia”), inspirado no ogro Shrek, para focar mais na personalidade, gentileza e conexão emocional, em vez da aparência física, buscando segurança e menos sofrimento em relacionamentos. 

Espero ter ajudado.

Tem dúvidas sobre sexo? Mande sua pergunta para telma@olondrinense.com.br

Quem é Tia Telma?

O bonitão vive sendo gozado pelos amigos porque sente tesão por mulher "feia". Mas isso não deveria ser um problema para ele.
Tia Telma versão Inteligência Artificial

Telma Elorza é jornalista, divorciada, xereta por natureza e que sempre se interessou muito por sexo. Com a vida, aprendeu várias coisas, mas a principal é que sexo é uma coisa natural e deve ser sempre prazeroso.

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