A roda que gira e os desafios que persistem na educação

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Por professor Renato Munhoz

Ao fecharmos o calendário de 2025, é inevitável um olhar reflexivo sobre os caminhos trilhados nesta coluna Pensar Educação. Ao longo do ano, revisitamos temas que, à primeira vista, poderiam soar repetitivos: a urgência de políticas inclusivas, o esgotamento dos educadores, as violências que permeiam as salas de aula e as pautas persistentes como racismo, direitos humanos e questões de gênero. Mas, como bem sabemos, a educação não é uma linha reta de conquistas lineares; é uma roda que gira, cíclica e incansável.

Precisamos ecoar as mesmas vozes, provocar os mesmos debates, porque os desafios não se resolvem com um único artigo ou lei isolada. Eles demandam repetição, insistência e, acima de tudo, ação coletiva. Em 2025, essa roda girou com intensidade, marcada por um ano repleto de obstáculos que testaram a resiliência do sistema educacional brasileiro.

2025: um ano de alarmes e números que não mentem

Os dados do Anuário Brasileiro da Educação Básica 2025, publicado pelo Todos Pela Educação, pintam um quadro de avanços tímidos em meio a retrocessos profundos. Apesar de 93,3% das crianças de 6 a 10 anos estarem matriculadas nos anos iniciais do ensino fundamental e 82% dos jovens de 15 a 17 anos frequentarem o ensino médio, o Brasil ainda patina em metas básicas.

Cerca de 4,2 milhões de estudantes – equivalentes a 12,5% de todas as matrículas – estão com dois ou mais anos de atraso escolar, um lembrete cruel de que a pandemia e as desigualdades socioeconômicas ainda cobram seu preço. Pior: a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) Educação revela que 8,7 milhões de jovens entre 14 e 29 anos abandonaram ou nunca frequentaram adequadamente a escola, perpetuando um ciclo de exclusão que afeta gerações.

No coração dessas estatísticas, batem as salas de aula, onde a relação professor-aluno, outrora idealizada como um laço de confiança e crescimento, tem se tornado campo minado. Os casos de agressão e violência interpessoal explodiram: entre 2013 e 2023, os registros triplicaram, saltando de 3,7 mil para 13,1 mil vítimas em todo o país. Em 2023, 50% desses incidentes foram de violência física, seguidos por bullying e agressões psicológicas (23,8%).

O fenômeno não arrefeceu em 2025: os fechamentos de escolas por violência extrema cresceram 245% em dois anos, e os casos de bullying aumentaram 67% em apenas um ano, com danos emocionais agravados pelo ambiente virtual. Meninas emergem como as principais vítimas, representando a maioria dos casos reportados em 2024, com um crescimento de 23% na violência geral.

Essa pressão não poupa os educadores. A saúde mental dos professores e professoras tornou-se o calcanhar de Aquiles do sistema. Em São Paulo, 60% dos docentes da rede municipal se afastaram por problemas de saúde nos últimos 12 meses, impulsionados por sobrecarga e violência – fatores que afetam 80% deles, levando muitos a cogitar abandonar a profissão.

Nacionalmente, 21,5% dos educadores avaliam sua saúde mental como ruim ou muito ruim, um dado que ecoa pesquisas de 2022 mas que se agravou em 2025 com relatos de esgotamento generalizado. O ano foi marcado por debates no Ministério dos Direitos Humanos e Cidadania (MDHC), que registraram pelo menos 47 mortes relacionadas a violência escolar entre 2013 e 2023, com o Brasil figurando entre os países com maiores índices mundiais.

E como não falar das pautas persistentes? O racismo, as violências estruturais, os direitos humanos e as questões de gênero continuam a minar a equidade educacional. Uma pesquisa recente revela que 44% dos negros relataram experiências de racismo no ambiente escolar, enquanto 16% das crianças de 0 a 6 anos já foram vítimas dessa discriminação – um número que sobe para 21% entre as de 4 a 6 anos. Além disso, 63% da população brasileira acredita que o racismo impacta as crianças desde os primeiros anos, corroendo autoestima e desempenho acadêmico, especialmente na alfabetização de crianças negras.

Esses dados, escancarados por estudos como o da HSR Specialist Researchers, reforçam o racismo estrutural como barreira ao acesso e à permanência na escola. Questões de gênero se entrelaçam aqui, com meninas sofrendo mais bullying e agressões, enquanto direitos humanos são violados em contextos de misoginia e discriminação interseccional.

2026 vem aí com desafios que persistem na educação brasileira: bullying, racismo, violencia na escola e metas básicas abaixo do recomendado. Mas 2026 também é ano eleitoral
Fotos: freepik

2026: novos horizontes, desafios antigos e o peso das urnas

Com o sino de 2026 prestes a soar, a roda gira novamente – agora com o ruído das eleições gerais, que renovarão a Presidência, o Congresso e governos estaduais em outubro. Ano eleitoral, 2026 não é mero interlúdio político; é uma encruzilhada para a educação. Quais desafios ainda não vencemos?

O atraso escolar de milhões, a evasão no ensino médio (com taxa de conclusão em apenas 74%) e a baixa proficiência em leitura e matemática (49,4% e 45,6% dos alunos abaixo do básico, respectivamente) demandam prioridade orçamentária e reformas urgentes. Novos ventos sopram com a inteligência artificial e a desinformação, que o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) já regulamenta para as urnas de 2026, exigindo educação midiática nas escolas para combater fake news e polarização.

Aqui reside o papel pivotal da educação: formar cidadãos conscientes, capazes de exercer o voto com base em fatos, não em manipulações. Iniciativas como o Parlamento do Futuro, que elegeu 30 estudantes piauienses para jornadas parlamentares em 2026, e programas de educação política nas escolas, como os da Escola do Legislativo em Extrema (MG), mostram o caminho: incentivar o voto consciente e a participação democrática desde cedo.

O presidente Lula já o disse: “Educação é a única fórmula para o Brasil se transformar em um país competitivo”, e debates sobre excluir gastos educacionais do arcabouço fiscal reforçam a necessidade de investimentos robustos em alfabetização e inclusão. Em um ano de escolhas, a educação deve ser o eixo central das campanhas – não como slogan, mas como compromisso com equidade racial, saúde mental e prevenção à violência.

Que 2026 nos encontre girando a roda com mais vigor, repetindo o que precisa ser dito, mas inovando nas soluções. Porque, na educação, insistir não é redundância; é o motor da mudança. Feliz ano novo aos que constroem esse futuro, dia a dia, sala a sala.

Professor Renato Munhoz

Educador, historiador, teólogo. Pós graduado em juventude gestão de programas e projetos sociais e educação ambiental.

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