Predador: Terras Selvagens faz público torcer pela criatura

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Por Marcelo Minka

Sem lançamentos relevantes na semana, vamos falar de uma franquia que, quando eu assistia TV aberta, me fez permanecer algumas madrugadas grudado na tela. E sim, várias madrugadas vendo a mesma reprise, “Predador”.

Há algo curioso na forma como Hollywood recicla seus próprios mitos: às vezes pela força, às vezes por pura teimosia, e às vezes porque o mundo parece pedir uma nova leitura de velhas criaturas. “Predador: Terras Selvagens” surge desse impulso, não tanto para reinventar o monstro criado nos anos 80, mas para deslocá-lo. Se no passado o Predador era a personificação da violência estilizada, aqui ele vira protagonista de uma fábula de sobrevivência e rejeição. É como se o cinema de ação estivesse admitindo aquilo que todos sabemos: monstros também carregam suas próprias tragédias.

O filme acompanha um jovem Yautja renegado, banido do seu clã, tentando provar que merece existir. Essa escolha narrativa, comandada por Dan Trachtenberg na direção (de O Quarto de Jack, 2015), puxa a franquia para outro registro: menos testosterona militar e mais um herói acidentado tentando arrumar um lugar num universo que não o quer. É um risco e funciona melhor do que deveria. A relação improvável com Thia, vivida por Elle Fanning (O Mau Exemplo de Cameron Post, 2018), traz uma camada inesperada de humanidade. Não no sentido banal da empatia, mas na fricção entre duas criaturas que só sobrevivem porque estão cansadas de serem caçadas.

Predador: Terras Selvagens traz uma nova leitura de velhas criaturas, onde o monstro vira protagonista de uma fábula de sobrevivência e rejeição
Fotos: Divulgação

O que o público espera de Predador

Visualmente, a nova versão de Predador entrega o que o público espera: paisagens selvagens, tecnologia ritualística e uma criatura redesenhada para equilibrar brutalidade e vulnerabilidade. O planeta remoto onde tudo acontece parece uma mistura de deserto mítico e campo de provas existencial, uma metáfora óbvia, mas eficaz: quem não se sente exilado em algum nível enquanto tenta provar valor? Trachtenberg filma esse deslocamento com ritmo seguro, ainda que por vezes prisioneiro de clichês da própria franquia.

O que realmente move o filme é a inquietação moral de colocar o Predador como protagonista. Ao retirar o humano do centro, a narrativa reorganiza o jogo de forças e desarma nossas certezas. Em certos momentos, quase esquecemos que estamos diante de um ícone do cinema de ação; em outros, somos lembrados da selvageria coreografada que fez o personagem atravessar décadas. Essa oscilação cria um charme estranho: o filme é mais emocional do que precisava e menos brutal do que poderia. E justamente por isso encontra sua graça.

“Predador: Terras Selvagens” não é uma revolução, mas é a prova de que ainda há fôlego nesse mito. Para o público brasileiro, acostumado a enxergar a franquia como sinônimo de pura pancadaria sci-fi, a proposta pode soar ousada. Mas a ousadia aqui é suave: um deslocamento de olhar, um novo pacto entre criatura e espectador. No fim, o que fica é a sensação de ter visto o Predador pela primeira vez sem a máscara, e não importa quantas vezes isso aconteça, ainda causa impacto.

Marcelo Minka

Mestre em Antropologia Visual (UEL), dá forma à linguagem estética da Angatu Joias, unindo arte, forma e símbolo em criações que revelam a poética entre design e significado. Artista visual e pesquisador, transita entre o pensamento e o fazer, inspirado pelas viagens, pelos sabores, pela natureza e pelas culturas que encontra pelo Brasil e pelo mundo. Cinéfilo nas horas vagas. Me siga no Instagram: @marcelo_minka 

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