Por professor Renato Munhoz
Na Escola Estadual de Ponta Grossa, o rompante — violento e desproporcional — entre professor e aluno é apenas a ponta do iceberg. Esse e outros episódios ressoam em uma escola que já não é terra segura, nem para educadores, nem para estudantes, como se fosse um microcosmo da crise que atinge todo o sistema educacional.
Educadores à beira do esgotamento
Dados recentes mostram que transtornos mentais — como burnout, depressão e estresse — já são as principais causas de afastamento dos professores, superando até mesmo distúrbios físicos ou vocais.
Levantamentos como o da ONG Conectando Saberes (2022) apontam que 75,5% dos professores veem fatores psicológicos como decisivos para desistir da carreira, enquanto mais de 20% consideram sua saúde mental “ruim” ou “muito ruim”, com ansiedade presente em 60%, cansaço em 48% e insônia em 41%.
Um estudo no Paraná encontrou 44% de professores com depressão e 70% com ansiedade — um panorama que diz muito sobre o alerta vermelho no ambiente escolar.
Essa realidade não é individual — é estrutural. O professor adoecido não é um fracasso pessoal, mas resultado de escolas superlotadas, jornadas extenuantes (em muitos casos em mais de uma escola), falta de apoio institucional, vigilância pública e precarização das condições de trabalho.
A escola como ambiente inseguro e institucionalmente violento
A violência nas escolas não se limita a agressões físicas: há microviolências, clima de intimidação, discursos hostis, bullying e ambiente emocionalmente desgastante — formas sutis mas devastadoras de violência institucional.
Em um país onde 30% dos alunos já sofreram algum tipo de agressão no ambiente escolar, e 29% relatam bullying, a escola deixa de ser refúgio para virar espaço de tensão crônica.

O retorno ao autoritarismo não resolve. Os sujeitos importam mais
Ao invés de acolher, temos visto a insistência em reforçar o controle: mais disciplina, câmeras, militarização. A segurança é externalizada, quando, na verdade, o que transborda é o desequilíbrio emocional dos sujeitos da escola — educadores exauridos e estudantes ansiosos, muitas vezes longe de qualquer escuta real.
Ressignificar a escola: acolhimento, cuidado e transformação
A saída urgente é transformar a escola em um espaço de cuidado — para educadores e educandos:
- Projetos como o “Saúde Mental nas Escolas”, em SP, mostraram que a formação específica ampliou em 90% a 253% a percepção dos professores de sua capacidade de manejar transtornos mentais em sala de aula.
- Em outras realidades, relatos de iniciativas como rodas de conversa, ginástica, tele psicologia, teleatendimento, acesso a terapias — tudo integrada ao cotidiano da escola — mostram que acolher tem impacto concreto na resiliência da comunidade educacional.
- Estudos apontam ainda que oficinas educativas podem ressignificar o ambiente escolar, trazendo sentimento de pertencimento e cuidado que enfraquecem o adoecimento docente.
É missão educacional ou sobrevivência?
O copo transbordou porque a educação insiste em não enxergar a dimensão emocional dos sujeitos que a compõem. A militarização ou o endurecimento do ambiente só muda a rotina, mas não cura as feridas. O que cura é transformar a escola numa comunidade acolhedora, empática, coletiva — capaz de cuidar de seus próprios atores.
Repensar a escola é urgente, não como modismo, mas como condição de sobrevivência da missão educacional. Afinal, sem professor são lacunas; sem ambiente seguro são ruínas; sem acolhimento, não há futuro.
Professor Renato Munhoz

Educador, historiador, teólogo. Pós graduado em juventude gestão de programas e projetos sociais e educação ambiental.
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