Doshi: um izakaya de maravilhas culinárias

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Com toda cara de boteco brasileiro, o bar/restaurante serve porções e pratos na melhor tradição dos izakayas japoneses

Telma Elorza

O LONDRINE̅NSE

Para quem não sabe, izakaya é um tipo de bar japonês informal, similar aos nossos botecos raiz, onde são servidas bebidas e comidas – sim, sempre tem que ter comida para ser um izakaya, não basta ter uns aperitivos. No Japão, são locais populares, onde as pessoas vão para se encontrarem com os amigos, para relaxar e, principalmente, para desfrutar de bons pratos ou beliscar porções. E o Doshi se enquadra perfeitamente na definição: uma mistura de boteco brasileiro – com toda nossa informalidade – e comidinhas deliciosas para serem completadas por drinks ótimos ou cerveja gelada.

O Doshi é um yzakaya que reúne o conceito de boteco com comidas de alta qualidade, exatamente como no Japão
O bar/restaurante cresceu tanto, que ocupa o espaço do vizinho, à noite.

O divertido é que, por trás de todo esse conceito e delícias japonesas, não tem nenhum descendente de japonês. Os responsáveis são três jovens chefs de cozinha, nascidos em Londrina, na faixa dos 30 anos, que, após anos trabalhando em outros restaurantes, decidiram se unir e montar um bar tradicional japonês. A iniciativa começou em 2021 no mesmo local onde está hoje (mas era apenas uma portinha, hoje já são três e mais mesas ocupando o espaço do vizinho, com permissão, claro!), na Rua Mossoró, 603.

Guilherme (de boné) e Pedro

O Doshi começou com o Pedro Henrique Moreira Nolli e o Vinícius Mello (que não conhecemos porque estava em férias); o Guilherme Bassetto Louzada se juntou um ano depois à dupla. A ideia era oferecer comida quente japonesa, já que a maioria dos bares e restaurantes japoneses, em Londrina, focam em comida fria (shushis, sashimis e outros). “Nenhum de nós gostava muito de sushi e sashimi, mas adoramos a comida quente japonesa. A gente cresceu comendo comida asiática no Taiwan, no Minato”, conta Guilherme.

Eles começaram oferencendo sandos (os sanduíches japoneses) e algumas porções como o Karage. Hoje, o cardápio é vasto, dividido em sete categorias (sanduíches, pratos, donburi, kare don, porções, acompanhamentos e sobremesa), além de expressivas cartas de drinks, vinhos e bebidas. Boa parte dos pratos são uma “interpretação” feita pelos meninos. “A gente foi pesquisando, testando, pegando referências e dando nossa interpretação, mas tentando ser o mais tradicional possível para oferecer clássicos de izakaya”, conta Pedro, que hoje não vai mais para cozinha e se concentra na administração.

Gyoza feito com um blend de carnes e cogumelos: sabor suave e delicioso

E toda essa cara de boteco nipo-brasileiro esconde um segredo: a maioria dos frequentadores vai lá mesmo pela comida. “Nosso público não é a galerinha de balada. Temos mais pegada de restaurante, nosso público são famílias e pessoas que gostam de comer bem e tomar uma bebida para acompanhar. Raramente vem alguém só para beber”, conta Pedro. Inclusive, aos sábados, quando o Doshi abre para o almoço ao meio dia e só fecha às 23 horas, muitas famílias aproveitam para almoçar até um pouco mais tarde, porque as comidas são preparadas o dia inteiro. Então, quer almoçar no sábado às 16 horas? Vai lá.

As comidas do Doshi

O cardápio é tão variado, com opções tão tentadoras que, em vez de quebrar a cabeça sobre o que escolher, pedimos aos meninos que nos dessem sugestões E olha, foi uma refeição daquelas, inesquecíveis. .

Começamos com duas porções tradicionais: o Gyoza (R$27,90, cinco unidades) e o karage (R$39,90 a versão com 320 gramas; e R$28,90, com 160 gramas). E agora deixa eu tentar explicar cada um deles, , mas é difícil sem que a pessoa prove.

O Gyoza tava tostadinho por fora (eles grelham antes de cozinharem), o que já dá um sabor diferente aos tradicionais. Mas o recheio é o grande diferencial dos tradicionais feitos basicamente com carne de porco. Ali, o recheio é um mix de carne de porco, de frango e cogumelos, bem temperados e, ao mesmo tempo, suave. O sabor chega a ser surpreendente e mesmo eu que tenho muita experiência com o prato (comendo, é claro), fui definitivamente pega de supresa pelo sabor (só fui ver o blend descrito no cardápio depois de experimentar o primeiro). Acompanhado por um molho ra-yu (molho à base de óleo de pimenta, óleo de gergelim puro e óleo de gergelim torrado, mas estava suave, nada muito picante) ficou perfeito.

O Karage crocante e bem temperado com o drink Burbulinho
Karege com a maionese Kewpie, delícia

O Karage também estava maravilhoso e como deve ser: crocante por fora e úmido por dentro. Mas o do Doshi me surpreendeu por dois motivos: primeiro é que o tempero estava muito mais acentuado que o karage tradicional, que o tornou mais delicioso e que combinou muito com meu paladar (gosto de coisas bem temperadas, sem exagero no sal). Segundo, é que veio acompanhado por uma maionese kewpie, a famosa maionese japonesa preparada ali mesmo e que estava muito boa. Por onde já provei o prato, os molhos eram misturas, algumas até muito criativas, mas a simplicidade e o sabor da kewpie combinada com os temperos do frango me conquistou.

Depois dessas porções maravilhosas, ainda provamos o Yakiniko Don (R$37,90), um donburi (tigela de arroz coberta com diversos ingredientes como carne, peixe, vegetais ou outros acompanhamentos. É uma refeição completa e popular no Japão) de carne bovina, temperada com molho de maçã verde, shoyu e gengibre (chamado de yakiniko) estilo churrasco coreano.

Acompanhando a carne, tinha o gohan, salada de repolho, conserva de rabanete e cenoura, cebolinha e gergelin. Não sobrou um grãozinho de gohan para contar a história, de tão perfeito que estava. Um sabor um pouco diferente do que a gente está acostumada, mas incrivelmente bem temperado, onde cada elemento combina entre si, com um resultado fantástico.

A menos que os meninos me deem a receita exata, eu não conseguiria reproduzir em casa e olha que sou muito intuitiva com comida e seus temperos. Selo NHAM! de qualidade! Aliás, tire print dessa frase e mande no direct do Instagram do @olondrinensejornal. As primeiras cinco pessoas que fizerem isso vão ganhar um brinde quando forem ao Doshi.

Yakiniko Don: combinação de sabores perfeita. E uma tigela pode dar para duas pessoas, se tiverem uma fome normal

Já estávamos satisfeitas, quando o Pedro sugeriu que provássemos uma das porções campeãs da casa, o Nasu Dengaku (R$26,90), feita com berinjela temperada no missô, empanada, frita e coberta por gergelim, cebolinha e molho tonkatsu, um molho típico do Japão (feito com molho inglês, shoyu, ketchup, gengibre, alho, açúcar e óleo).

O divertido é que esse molho é mais usado no prato Tonkatsu, que são costeletas de porco empanadas e fritas. Mas com o Nasu casou perfeitamente. “Até quem não gosta de berinjela come essa porção e adora”, garante Pedro. E eu, que adoro todas as versões de berinjela e sei preparar dezenas de pratos à base desse fruto (ou legume, para quem preferir), amei porque eu nunca tinha provado desse jeito. Ela fica sequinha e crocante, deliciosa com o sabor do missô e do molho. E, sinceramente, dá para comer baciadas cheias dela sem enjoar. Ah, acompanha um molhinho doce de pimenta.

A porção mais pedida: Nasu Dengaku. Eu comeria uma baciada dessa berinjela crocante, sem brincadeira

Para encerrar a noite gastronômica, ainda comemos a única sobremesa do Doshi: o harumaki de maçã (R$23,90 três unidades). Eu já comi harumakis de todos os estilos e recheios, até de Romeu e Julieta. Mas o de maçã foi a primeira vez que provei e gostei. Tem uma forte semelhança com aquela tortinha de maçã daquela rede de fast food que não foi mera coincidência, não. O Guilherme explicou que eles queriam uma sobremesa estilo japonês, mas também algo ocidentalizado, que agradasse a todos. O resultado foi um harumaki bem gostoso, completado pelo açúcar e canela, outro diferencial dos harumakis doces que já comi. Aprovadíssimo.

Harumaki de maçã: qualquer semelhança não é mera coincidência. Ainda não tinha visto haramukis com açúcar e canela por fora. Esse molhinho também é muito bom

Para completar toda esse menu delicioso, os meninos fizeram a gente provar dois drinks do cardápio de inverno: o Hot Rapariga (R$22,90) e o Burbulinho (R$29,90), ambos muito gostosos, criados pela barwoman Julia Mansur.

O Hot Rapariga foi o meu preferido e leva pimenta dedo de moça (mas não fica ardido, calma), conhaque, angostura, mel e limão siciliano. Um drink equilibrado, deliciosamente no ponto, nem muito doce, nem muito amargo (a angostura é um bitter bem dos amarguinhos), com todos os sabores realçados sem que um deles se sobreponha.

Já o Burbulinho é mais doce. Feito com vinho porto seco, limoncello caseiro, tônica, xarope de quentão e finalizado com um espumante demi sec. Muito gostoso também, mas, como eu disse, é mais doce e, portanto, mais indicado para quem gosta de bebidas adocicadas.

Serviço:

O Doshi funciona de segunda a quinta, das 18 h às 22h30 e, às sextas, das 18 às 23 horas. De sábado, das 12 às 23 horas. Fica na Rua Mossoró, 603, centro de Londrina.

Fotos: Suzi Bońfím e Telma Elorza

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