Na segunda-feira, a cidade pega no tranco

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Por Ana Paula Barcellos

A cidade acorda antes do sol, mas, na segunda-feira, ela parece dar aquela espreguiçada relutante, como quem aperta o “soneca” do despertador. São seis e pouco da manhã, e eu, já de pé por causa da rotina escolar (mãe não tem escolha, é a vida), observo a cidade ganhando vida.

A padaria da esquina já tem uma fila que serpenteia até a calçada, um batalhão de olhos meio fechados atrás do pão quente. O cheiro do café, mais forte que nos outros dias, se mistura ao cheiro da água que ainda não secou nas calçadas. Segunda-feira tem esse jeito: é caos e preguiça, tudo ao mesmo tempo, como se a cidade inteira estivesse tentando lembrar onde estacionou a energia do fim de semana.

Na rua, o trânsito já sinaliza um tanto de caos. Os carros por aplicativo estão mais disputados que mesa de bar na sexta-feira à noite. Você abre o app e vê aquele preço dinâmico que parece rir da sua cara. Os motoristas, coitados, costuram entre as faixas como se fossem pilotos de rali, só para te encontrar no próximo sinaleiro.

“É sempre assim, né? Correr pra esperar”, digo ao motorista, que solta um riso cansado, já sabendo a piada de cor. Tem sempre um apressadinho que buzina como se o som pudesse dissolver os carros da frente, e outro que joga o carro pro lado, quase beijando o retrovisor do vizinho.

Mas, no fim, ninguém vai muito longe. Segunda-feira é o dia em que a pressa encontra a inércia, e o resultado é uma fila de veículos num balé mal coreografado.

Desço do carro e sigo a pé, porque às vezes é mais rápido enfrentar a calçada do que o asfalto. A cidade, nessa hora da segunda-feira, tem um ritmo estranho, quase em câmera lenta. O “bom dia” das pessoas é mais baixo, mais arrastado, como se cada sílaba custasse um esforço enorme. Seu Mauro, que já me espera na porta, entrega a encomenda com um comentário sobre uma notícia que viu, mas até ele parece falar mais devagar.

É como se a cidade inteira estivesse de ressaca – alguns, literal, carregando as consequências de um domingo bem aproveitado; outros, apenas com a preguiça existencial de quem sabe que a semana vai ser longa.

Mas nem tudo é lentidão. Tem um frenesi lá no fundo, a energia das entrelinhas. Na padaria, a fila do pão é um microcosmo da segunda-feira: tem o cara de terno que já está atrasado pro trabalho, olhando o relógio a cada 30 segundos; a mãe, como eu, que já deixou o filho na escola e agora tenta equilibrar as sacolas e a sanidade; e o avô que pede “o de sempre” com uma calma de quem já viu muitas segundas-feiras passarem.

O atendente, coitado, voa atrás do balcão, mas não sem soltar um “tá puxado hoje, hein?”. É, tá puxado. Mas também tá vivo.

As pequenas coisas que a segunda-feira traz

Enquanto caminho, reparo nessas pequenas coisas que a segunda-feira traz. O varredor da rua, que parece mais filósofo que funcionário, arrasta a vassoura com uma cadência quase poética, como se estivesse desenhando no asfalto.

A moça do pet shop organiza os produtos perto da porta, mas com um bocejo que denuncia a noite mal dormida. Até os cachorros dos vizinhos parecem latir com menos entusiasmo, como se soubessem que o fim de semana ficou pra trás.

Ainda assim, há algo de mágico nesse recomeço torto. A segunda-feira é o dia em que a cidade se reinventa, mesmo contra a vontade. É o dia de promessas silenciosas: “Essa semana eu organizo minha vida”, “Essa semana eu começo a dieta”, “Essa semana eu não me atraso”.

Spoiler: a maioria dessas promessas vai pro espaço de hoje, terça-feira. Mas, na segunda, elas são sinceras. É o dia em que a cidade, com toda sua preguiça e seu caos, se olha no espelho e tenta de novo.

Volto pra casa com o pão quentinho na sacola e o café já me espera na cafeteira. Tento puxar pra mim um pouco do movimento da cidade que, mesmo pegando no tranco, já está a todo vapor. E é isso: um misto de relutância e coragem, de pressa e lentidão, de café forte e bocejo fraco, pra iniciar essa semana que, mais uma vez, por aqui, começa teimosa pra caramba.

Foto principal: Imagem criada por IA/Grok

Ana Paula Barcellos

A segunda-feira impõe, em Londrina, um ritmo totalmente diferente dos outros dias. Um ritmo estranho, quase em câmera lenta

É graduada em História pela UEL, Mestre em Estudos Literários, integra coletivos culturais da cidade e é agente cultural.

Sacoleira e brecholenta, trabalha com criação de joias artesanais e pesquisa de tendências, e escreve também a coluna de Moda deste jornal. Siga o Instagram @yopaulab

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