Por Marcelo Minka
Amores Materialistas revelou-se uma dessas surpresas que chegam com cara de comédia romântica, mas corta a gente como bisturi. O novo filme de Celine Song (Vidas Passadas, 2023) traz um retrato ácido e melancólico sobre o amor como transação.
Lucy (Dakota Johnson, em sua atuação mais desconcertante desde Suspiria, 2018) é uma casamenteira de elite em Nova York. Ela combina clientes de altíssimo padrão com base em critérios como profissão, renda e aparência — uma espécie de algoritmo humano de compatibilidade premium.
Seu mundo começa a desmoronar quando se vê dividida entre Harry (Pedro Pascal, The Last of Us, 2023), milionário elegante, e John (Chris Evans, Ponto Cego, 2019), seu ex de vida desorganizada e coração irrecuperável. Mas o conflito não é sentimental, é ideológico. Song, com sua habitual contenção estilística, questiona se ainda é possível amar alguém sem pensar em suas projeções financeiras.
Pensar sobre o amor
O filme é elegante até a crueldade. A câmera permanece estática em cenas com Harry, como se cada gesto fosse previsto, domesticado pela lógica da estabilidade. Já com John, a movimentação é fluida, quase amadora — imperfeita como o afeto. Dakota Johnson percorre essa travessia com um olhar que vai da convicção corporativa à dúvida existencial. Pedro Pascal está irresistivelmente contido, um homem que aprendeu a amar do mesmo modo como se fecha um contrato. E Chris Evans entrega vulnerabilidade como raramente se vê em atores que ficaram marcados por super-heróis: sua fragilidade não é só emocional, é social.

É um filme que exige do espectador uma disposição rara hoje: pensar sobre o amor, o que sentimos, e por quê. Ao final, não há catarse. Não há beijo no aeroporto. Há uma mulher olhando o skyline de Manhattan e se perguntando se o amor, tal como nos vendem, não é só mais uma forma de acumulação. Celine Song transforma um enredo aparentemente simples em uma meditação cruel sobre o modo como transformamos nossos afetos em investimentos emocionais.
Assisti ao filme e, ao sair, percebi o silêncio nos corredores: poucos risos, nenhuma discussão acalorada. Era como se o filme tivesse feito uma incisão invisível em cada espectador. Não por ser trágico, mas por ser real demais. Há quem chame isso de frieza. Prefiro pensar que é precisão.
Se o amor virou um mercado, Lucy é tanto cliente quanto produto. Em Londrina, creio que os encontros aconteçam mais no boteco do que no Tinder Select, pelo menos por enquanto, e talvez ainda exista espaço para o imprevisível. Mas quem somos quando escolhemos com base em planilhas emocionais? No final, o filme não pergunta se escolhemos certo — ele quer saber se escolhemos livres.
Marcelo Minka

Graduado em licenciatura em Artes Visuais, especialista em Mídias Interativas e mestre em Comunicação com concentração em Comunicação Visual. Atua como docente em disciplinas de Artes Visuais, Semiótica Visual, Antropologia Visual e Estética Visual. Cinéfilo nas horas vagas. Me siga no Instagram: @marcelo_minka e @m_minka_jewelry
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