A violência de Igor e o descaso enraizado

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Por Telma Elorza

A imagem de uma mulher sendo brutalmente espancada com 61 socos no rosto dentro de um elevador, em Natal (RN), no sábado (26), não me sai da cabeça. Estou tendo pesadelos horrorosos depois que vi a cena, estampada em todos os veículos de comunicação e redes sociais. A violência explícita viralizou, como se diz hoje. O agressor, ex-jogador de basquete Igor Eduardo Pereira Cabral, foi preso em flagrante, mas não sem antes de se achar no direito de espancar uma mulher até ela ficar machucada gravemente e correndo risco de vida. E o mais triste: o que muitos chamam de “caso isolado” (o que não é: recentemente, um outro homem bateu tanto na mulher que até quebrou a mão e o caso também virou manchete dos jornais) é, na verdade uma engrenagem podre, sustentada pelo machismo estrutural e pela negligência institucional.

O caso do ex-jogador que agrediu a mulher com 61 socos no rosto é um exemplo que a violência de gênero ainda é tratada com descaso pelo Estado e sociedade
Print do vídeo da câmara de segurança do elevador

O agressor deste sábado não é uma aberração, uma exceção. Ele é o retrato de uma cultura que ensina que homens são superiores a mulheres e que elas estão aqui como propriedades para serem destruídas, se assim o quiserem. Quando contrariados, seus egos explodem em fúria. Mas o que assusta é que esse tipo de comportamento, violento e controlados, não é exclusividade de alguns poucos. Ele está ao nosso redor, nas relações, nos lares, nas instituições.

Em 2023, o anuário do Fórum Brasileiro de Segurança Pública registrou 1.467 feminicídios no Brasil. Só no Paraná foram 81. Só no primeiro semestre de 2025, o Monitor de Feminicídios no Brasil (MFB), produzido pelo Lesfem/Universidade Estadual de Londrina registrou 179 feminicídios consumados ou tentados no Estado. Vai me dizer agora que a violência registrada pela câmara de segurança de um elevador é algo raro de acontecer? O que foi raro foi a violência explodindo em frente a um equipamento de gravação. A maioria acontece silenciosamente nas casas das vítimas, às vezes sob os olhares aterrorizados dos filhos pequenos.

Violência doméstica sem Deam 24 horas

E com tudo isso, Londrina não tem uma Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher (Deam), que funcione 24 horas, como determina a Lei Federal 14.541, sancionada em abril de 2023 – HÁ DOIS ANOS. A lei é clara: todas as DEAMs devem ter funcionamento ininterrupto, inclusive à noite, nos finais de semana e feriados. Mas aqui, a delegacia especializada atende apenas em horário comercial, de segunda a sexta. Ou seja, nos períodos de maior incidência de violência doméstica, como à noite e domingos-, as mulheres são atendidas em uma “sala especializada” improvisada na Central de Flagrantes. Sem equipe fixa, sem estrutura acolhedora e sem a sensibilidade que a situação exige.

O governador Ratinho Jr, que quer ser presidente da República, não faz nada para cumprir o que determina a lei. “Não tem efetivo”, é a justificativa do estado. Mas têm gastos exorbitantes para publicidade e propaganda institucional. Só em 2024, só a Secretaria da Comunicação (Secom) do Paraná gastou quase R$110 milhões para falar bem do governo (sem contar a grana gasta na publicidade legal, que eu não tive saco para contabilizar). De janeiro a maio de 2025, já foram gastos outros R$47 milhões pela mesma secretaria (e quantas outras têm verbas próprias para publicidade?). Duvida? Os números estão aqui, no site da Secom. Entra lá e veja, mês a mês, como eu fiz. Quantos policiais especializados na proteção de mulheres poderiam ser pagos com esses valores?

Todo esse cenário escancara um descaso geral que também mata. Porque o feminicídio não começa com a faca, o revólver ou os 61 socos. Ele começa no desdém do policial masculino que duvida da vítima, quando ela faz a primeira denúncia de violência. Começa na educação que a sociedade dá a seus filhos, onde continua ensinando que os homens têm todos os direitos e que, às mulheres, resta o papel da subserviência. E começa no silêncio do Estado, que prefere gastar dinheiro para promover políticos a dar estrutura para o atendimento de uma mulher machucada. Um Estado que deveria protegê-la, mas prioriza sua autopromoção em vez de salvar vidas.

É revoltante que tenhamos leis, mas que elas não sejam cumpridas. Entidades civis se mobilizam, como o Néia – Observatório de Feminicídios, mas os números ainda gritam. E mesmo assim, nada muda. E a pergunta é: quantas mulheres ainda precisam morrer ou ficarem totalmente deformadas e incapacitadas para a que sociedade veja a violência de gênero como prioridade real? O machismo que mata e incapacita não está só no punho de Igor. Está na mente de toda uma sociedade e na omissão do poder público. Enquanto isso, seguimos, nós, mulheres, sendo violentadas, agredidas e mortas. Sozinhas, silenciadas e invisíveis.

Até quando eu vou ter pesadelos com violência bárbara?

Foto principal: Freepik

Telma Elorza

Jornalista, escritora e contadora de histórias, trabalhou na Folha de Londrina por quase 20 anos e no Jornal de Londrina por outros 10 anos, locais onde atuou como repórter, redatora e editora nas áreas de Economia, Política e Agronegócio, entre outras. Em 2019, fundou seu próprio jornal, O LONDRINE̅NSE, e se tornou entrevistadora do O LONDRINE̅NSE POD. Integra o Conselho da Mulher Empresária da ACIL.

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