Por professor Renato Munhoz
Vivemos em uma era paradoxal: nunca tivemos tanto acesso à informação, e talvez por isso mesmo, nunca estivemos tão expostos à desinformação. O excesso de dados, a velocidade dos compartilhamentos e os algoritmos que privilegiam o sensacionalismo vem distorcendo nossa capacidade de discernimento. Nesse cenário, o papel da escola não é apenas transmitir conhecimento, mas formar consciências críticas, sensíveis e éticas. Em tempos de fake news, deepfakes e discursos polarizados, o que a educação pode – e deve – fazer?
A filósofa Hannah Arendt já alertava que o ato de pensar é a única maneira de resistir ao totalitarismo. Pensar é perigoso – e urgente. Por isso, educar para o pensamento crítico é um gesto político. Mais do que “ensinar verdades”, é preciso ensinar a perguntar, desconfiar, verificar fontes, interpretar contextos. Não se trata de impor uma visão de mundo, mas de garantir que o estudante tenha ferramentas para compreendê-la e transformá-la.
Filmes como O Dilema das Redes (Netflix) nos mostram como a manipulação dos algoritmos pode reforçar bolhas ideológicas e disseminar mentiras. Mas a escola, diferente das redes sociais, não pode ser uma bolha. Ela precisa ser um espaço de confronto respeitoso de ideias, de convivência entre diferenças, de escuta real. E isso só se constrói com metodologias que valorizem a empatia, o diálogo e o pensamento argumentativo.
Desmontando a desinformação

A produção de projetos interdisciplinares que envolvam análise de fake news, criação de podcasts informativos, rodas de conversa sobre atualidades e oficinas de checagem de fatos pode ser um caminho concreto. A Base Nacional Comum Curricular (BNCC), quando fala da competência de “trabalhar com diferentes linguagens e tecnologias de maneira crítica e responsável”, nos autoriza – e nos desafia – a fazer da escola um laboratório de cidadania crítica.
Educar hoje também é alfabetizar midiaticamente. Trabalhos como os de Roxane Rojo e seus estudos sobre letramentos múltiplos apontam que ler o mundo exige muito mais do que decodificar palavras. Um meme, uma manchete, um áudio do WhatsApp… tudo precisa ser lido com lentes críticas. O filósofo Edgar Morin, em Os sete saberes necessários à educação do futuro, afirma que ensinar a “enfrentar as incertezas” é uma das tarefas mais nobres da pedagogia contemporânea. Em um mundo em que a certeza virou moeda fácil para manipuladores, aprender a conviver com a complexidade é revolucionário.
Nesse contexto, não se trata de uma “educação neutra”, mas de uma educação ética e comprometida com a verdade factual. Como nos lembra o historiador Timothy Snyder em Sobre a Tirania, “a verdade é uma resistência”. O professor e a professora não são transmissores de uma verdade absoluta, mas mediadores de processos que desafiam, provocam e inquietam.
Por fim, talvez o caminho para uma educação “não polarizante”, mas profundamente política e crítica, seja justamente recuperar a potência do encontro. Como nos ensina Paulo Freire, “é na problematização do real que o educando se torna sujeito”. E talvez seja esse o maior antídoto contra a desinformação: uma escola que faz pensar, que não alimenta certezas fáceis, mas que abre espaço para o questionamento sensível, ético e transformador.
Professor Renato Munhoz

Educador, historiador, teólogo. Pós graduado em juventude gestão de programas e projetos sociais e educação ambiental.
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