Por professor Renato Munhoz
Uma pergunta simples, mas que ecoa como um trovão nas paredes nem tão silenciosas das salas de aula: os alunos são felizes na escola? Não se trata de perguntar se gostam de estudar, tampouco se acham importante estar ali. A questão é outra: o espaço escolar tem permitido que a infância e a juventude experimentem momentos verdadeiros de alegria, liberdade e pertencimento?
Vivemos tempos de escolas que acumulam tecnologias, murais de avisos coloridos, salas climatizadas e protocolos bem afinados. Mas, por baixo dessa estrutura, muitas vezes o que se vê é um cotidiano que esmaga a espontaneidade, silencia as expressões emocionais e coloca a produtividade acima da subjetividade. Em meio a tantas cobranças e metas, quem ainda se lembra que aprender deveria ser um processo bonito, prazeroso, e até um pouco divertido?
Educação como experiência
O filósofo Walter Benjamin já alertava: “a experiência está em vias de extinção”. Em muitos espaços escolares, as experiências — essas que marcam a alma, que permitem o encantamento — são trocadas por atividades que precisam apenas ser cumpridas. Isso gera uma lógica do dever, mas não do afeto.
A educadora Maria da Glória Gohn (2006), ao discutir os sentidos da educação cidadã, lembra que a escola precisa ser lugar de formação integral, onde se aprende com o corpo, com o coração, com o outro. E isso não acontece em ambientes mecânicos, mas em contextos vivos, abertos ao novo, ao erro e ao encontro.
A felicidade que cabe no recreio
Pesquisas recentes do Instituto Alana e do Cenpec indicam que a felicidade dos alunos está profundamente ligada a três fatores: escuta ativa dos professores, valorização da autonomia e espaços para criar e conviver sem medo de errar. Não estamos falando aqui de uma escola que cede à lógica do entretenimento raso, mas de uma escola que entende que estar bem é condição para aprender bem.
Em um estudo de 2022 da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico), que analisou a saúde emocional e o bem-estar escolar em 30 países, o Brasil apareceu com dados preocupantes: mais de 60% dos estudantes afirmaram se sentir ansiosos ou tristes com frequência no ambiente escolar. A felicidade, portanto, não é um luxo, mas uma urgência.

A escola como lugar de viver e não apenas de passar
Ser feliz na escola não é estar rindo o tempo todo. É sentir que aquele espaço reconhece, acolhe, provoca. É ter voz. É poder dizer o que sente, errar sem ser humilhado, viver um momento de arte, de escuta, de poesia — mesmo que entre uma equação de Bhaskara e um verbo no gerúndio.
O psicanalista Jorge Larrosa (2002) nos ensina que educação é sempre passagem, e que nela deve caber o estranhamento, a pausa, a metamorfose. Para isso, é preciso tempo e clima. Clima emocional, clima ético, clima humano.
Caminhos possíveis para tornar alunos felizes
Se queremos escolas felizes, precisamos pensar em:
- Projetos que valorizem a expressão criativa dos alunos;
- Aulas que permitam o diálogo, o corpo e a sensibilidade;
- Formação docente que inclua o cuidado emocional e relacional;
- Ambientes que sejam bonitos, vivos, simbólicos.
Como escreveu Rubem Alves: “a escola deveria ser o lugar onde as crianças vão para brincar com as ideias.” Para isso, talvez precisemos de menos currículo e mais vida.
Professor Renato Munhoz

Educador, historiador, teólogo. Pós graduado em juventude gestão de programas e projetos sociais e educação ambiental.
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