Por Marcelo Minka
Em meio ao frio, um épico de amizade e bravura aquece corações com a chama dos dragões.
Como Treinar o Seu Dragão (2025) cai como uma luva nesse friozinho, ou melhor, como um cobertor. Enquanto o ar gelado lá fora chama por aconchego, a tela convida ao calor, à cumplicidade entre homem e fera alada. Assistir ao filme hoje, com seu visual caloroso e emocional, funciona como um cobertor narrativo — nos lembra que, mesmo com as nuvens espessas que dominam o inverno, há espaço para o brilho dos dragões e a chama da coragem.
Dirigido por Dean DeBlois (que comandou a trilogia animada entre 2010 e 2019), o novo filme não é apenas uma refilmagem em imagem real — é um exercício de tradução sensível. A animação, com sua estilização vibrante e narrativa fluida, ganha agora contornos mais densos e matizados. A fotografia de Bill Pope (responsável por Matrix, 1999, e Homem-Aranha 2, 2004) adota tons mais crus e íntimos, registrando o vilarejo viking de Berk com uma verossimilhança medieval que jamais recorre ao realismo sujo, mas tampouco se rende ao excesso digital.
Nesse sentido, o trabalho da Framestore, empresa por trás dos efeitos especiais (como em Gravidade, 2013), é decisivo: Banguela não é apenas convincente — é uma criatura dotada de alma e ritmo próprio. Ao seu lado, Mason Thames (O Telefone Preto, 2021) assume o papel de Soluço com contenção. E talvez aí resida um dos pequenos tropeços do filme: a atuação do jovem, embora tecnicamente precisa, carece do carisma e da vulnerabilidade que Jay Baruchel conferia ao personagem animado. Gerard Butler, que retorna como Stoico, ganha mais estofo dramático, explorando camadas de um pai endurecido pela guerra, mas aberto à dúvida.

A narrativa segue os trilhos conhecidos: um jovem frágil encontra coragem ao desafiar os dogmas de sua cultura — e de seu pai — ao criar uma amizade improvável com um dragão. Mas a familiaridade não é um obstáculo: ao contrário, o filme se beneficia do eco emocional acumulado pela trilogia original, reverberando especialmente o impacto de Como Treinar o Seu Dragão 2 (2014), com suas perdas e amadurecimentos. A trilha sonora, repaginada por John Powell (indicado ao Oscar por seu trabalho na primeira animação), preserva os temas mais memoráveis, dialogando com a memória auditiva do espectador.
Assistir a esse filme em Londrina — numa sala escura onde o som do dragão sobrevoa fileiras de poltronas comendo pipoca — é lembrar por que ainda buscamos a magia da tela grande. A cena de voo, sempre ela, volta a ser o ápice: um gesto de confiança, um salto para o invisível. Mais do que fidelidade à obra original, o novo Dragão conquista por sua tentativa sincera de emocionar — mesmo àqueles que já sabem exatamente para onde a história vai.
Se permitirmos que a fantasia alimente o real, Como Treinar o Seu Dragão (2025) prova que ainda há encanto no encontro entre homem e criatura. Quando Soluço estende a mão, hesitante, ao seu novo amigo alado, não vemos apenas um gesto animado: vemos o cinema fazendo aquilo que sempre prometeu — transformar medo em voo, dúvida em coragem, e um dia comum em algo extraordinário.
Como Treinar o Seu Dragão traz um épico sensível que vale cada centavo do ingresso.
Marcelo Minka

Graduado em licenciatura em Artes Visuais, especialista em Mídias Interativas e mestre em Comunicação com concentração em Comunicação Visual. Atua como docente em disciplinas de Artes Visuais, Semiótica Visual, Antropologia Visual e Estética Visual. Cinéfilo nas horas vagas. Me siga no Instagram: @marcelo_minka e @m_minka_jewelry
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Uma resposta
Que demais!! Assisti comeu sobrinho , quando lançaram o desenho! Amamos! O filme deve ter ficado incrível! Valeu a dica!