Secretaria da Economia Criativa: reparação tardia

Foto Rafa Neddermeyer Agência Brasil

Por Edra Moraes

Na coluna desta semana, retomo uma discussão que perpassa todas as reflexões sobre políticas culturais brasileiras: a relação entre discurso e prática no reconhecimento da economia criativa. Após dois anos e meio de espera e críticas crescentes ao Ministério da Cultura, o governo federal finalmente recriou a Secretaria da Economia Criativa, em decreto publicado no final de maio de 2025.

Como idealizadora do Movimento Londrina Criativa e colunista que acompanha de perto as contradições das políticas culturais, vejo essa medida como o que ela realmente é: uma reparação tardia, não uma inovação. A secretaria, criada originalmente em 2012, foi extinta, absorvida e esvaziada ao longo de governos posteriores, deixando um dos setores mais dinâmicos da economia brasileira órfão de políticas estruturadas.

Os números são eloquentes: o setor criativo representa mais de 3% do PIB brasileiro, gera milhões de empregos e conecta tradições ancestrais a inovações digitais. Enquanto isso, Brasília desperdiçava tempo em disputas internas e resistências que o colunista Alê Youssef definiu como “fogo cultural amigo” — aquela hostilidade que parte do próprio setor cultural contra modelos híbridos ou visões empreendedoras da cultura.

O custo do purismo ideológico

Essa demora custou caro ao setor. Desde 2023, o MinC enfrenta críticas por lentidão na execução de programas, decisões desarticuladas sobre crédito cultural e ausência de protagonismo em temas estruturais como a reforma tributária e o reconhecimento das profissões da cultura.

A recriação da Secretaria de Economia Criativa do MinC é uma reparação tardia, não uma inovação. A tensão entre cultura como expressão livre e cultura como atividade econômica estruturada precisa ser enfrentada sem dogmatismos
Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, durante reunião com Ministra da Cultura, Margareth Menezes – Foto: Ricardo Stuckert / PR

Mas será que é possível fomentar economia criativa mantendo a cultura como território exclusivamente estatal? A tensão entre cultura como expressão livre e cultura como atividade econômica estruturada precisa ser enfrentada sem dogmatismos. O “fogo cultural amigo” travou avanços necessários e impôs visões limitadas sobre o que pode ou não ser considerado política cultural legítima.

O que uma secretaria pode — e deve — fazer

A recriação da Secretaria da Economia Criativa não é apenas simbólica. Uma estrutura dedicada tem potencial para:

Articular políticas interministeriais, conectando cultura + educação + desenvolvimento econômico

Criar dados e indicadores confiáveis sobre os setores criativos — algo que o Brasil ainda não tem de forma sistemática

Fomentar territórios criativos com infraestrutura e governança participativa

Estruturar crédito cultural sob medida para empreendedores criativos

Reconhecer e regulamentar profissões da cultura, ampliando a proteção social do setor

Formar profissionais, combinando educação técnica com visão empreendedora

Com Claudia Leitão indicada para conduzir a nova estrutura, há expectativa de coerência técnica e diálogo com os diversos territórios culturais brasileiros. Eu particularmente mantenho profunda admiração por ela. Muito coerente e muito conhecedora da diversidade brasileira.

O impacto para territórios como Londrina

Para uma cidade como Londrina, que possui um ecossistema cultural diversificado — do teatro independente à gastronomia autoral, da música experimental ao design gráfico —, uma secretaria federal estruturada significa possibilidades concretas. Editais que compreendam especificidades regionais, linhas de crédito adequadas à realidade local e, principalmente, o reconhecimento de que economia criativa não se concentra apenas nos grandes centros.

Hoje, artistas e empreendedores criativos de cidades médias como a nossa enfrentam dificuldades extras: além dos desafios inerentes à criação, precisam traduzir suas propostas para linguagens e formatos pensados para realidades metropolitanas. Uma secretaria bem estruturada pode inverter essa lógica, criando pontes entre o local e o nacional.

O desafio da prática

Agora vem o teste real: transformar decreto em política efetiva. A economia criativa não é apêndice da cultura — é parte central de sua sustentabilidade no século XXI. O desafio da nova secretaria será provar que é possível combinar valores simbólicos com resultados econômicos e sociais, respeitando a diversidade e complexidade do setor cultural brasileiro.

Será que conseguiremos, finalmente, superar a falsa dicotomia entre cultura “pura” e economia criativa “comercial”? A resposta não está nos decretos, mas na capacidade de articular políticas que reconheçam a cultura como território de memória e, simultaneamente, como atividade econômica legítima.

A recriação da Secretaria da Economia Criativa pode ser tardia, mas não é irrelevante. Ela representa a chance de corrigir o rumo e desbloquear o enorme potencial criativo que sempre esteve aqui, esperando apenas que alguém em Brasília compreendesse sua importância estratégica.

Cabe a nós, que atuamos no campo da cultura e da economia criativa, acompanhar se a prática confirmará a promessa do decreto. Porque, desta vez, o Brasil não pode se dar ao luxo de desperdiçar mais dois anos e meio.

Para acompanhar os desdobramentos da nova Secretaria da Economia Criativa, consulte o site oficial do Ministério da Cultura.

Foto principal: Rafa Neddermeyer/Agência Brasil

Edra Moraes

Profissional de marketing, produtora cultural e escritora. Agitadora cultural e idealizadora do Movimento Londrina Criativa. Prêmios:  Obras Literárias Digitais 2020“Antologia Poética | Seleção da AutoraMemorial Vivência, Literatura, Livro e Leitura UnesparCultura nas Redes 2020 e FCC Digital 2020. Me siga nas redes sociais: Facebook, Instagram @edra_moraes, YouTube @edra-moraes27. Contatos: e-mail edra.moraes27@gmail.com e fone/whatsapp: (41) 997722447.

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