Confinado: confrontando os próprios limites

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Por Marcelo Minka

Aqui, em Londrina, o tempo anda mais confuso que debate em rede social: chove, esquenta, venta, depois chove outra vez. E com esse clima bipolar da cidade, ir ao cinema se torna um ato de sobrevivência emocional. A dica da semana? Confinado, um thriller psicológico com cara de experimento — e resultado duvidoso. Mesmo assim, o ingresso ainda vale a experiência.

A trama é direta como um tapa na cara: Eddie, vivido por Bill Skarsgård (“It: A Coisa”, 2017), tenta roubar uma SUV de luxo estacionada em um bairro abastado. Mas em vez de sair dirigindo o veículo alheio, acaba preso numa armadilha engenhosa, controlada remotamente por William, interpretado por Anthony Hopkins (“O Silêncio dos Inocentes”, 1991). O carro é uma cela, o justiceiro um deus invisível com traços de sádico moralista — e Eddie, um rato urbano que entrou na ratoeira da meritocracia vingativa.

Confinado é um thriller psicológico com resultado duvidoso. Mas Bill Skarsgård e Anthony Hopkins ainda merecem seu ingresso.
Fotos: Divulgação

Confinado, um remake do argentino 4×4

A ideia é boa. O problema é que o filme a trata como se fosse uma metáfora inédita. O carro trancado, as câmeras internas, a voz onipresente do carrasco — tudo remete a uma crítica social que jamais se concretiza. A direção de David Yarovesky (“Brightburn – Filho das Trevas”, 2019) até constrói tensão nos minutos iniciais, mas logo se entrega ao vazio de seu próprio confinamento. Há repetição, redundância e um certo prazer estético no sofrimento do protagonista que chega a incomodar.

Skarsgård segura bem o papel, com entrega física e emocional, mas o roteiro não lhe dá profundidade. Eddie é apenas um homem em pânico, com flashbacks genéricos e uma motivação que parece ter sido escrita às pressas. Hopkins, por sua vez, surge como um oráculo do ressentimento de classe média alta. Sua performance está longe de ser ruim — ele jamais é ruim —, mas aqui soa como se estivesse cumprindo tabela, entregando monólogos que dariam vergonha até em reunião do condomínio. Nem Foucault gostaria de ver isso: o panóptico virou reality show.

O filme é um remake de 4×4 (2019), produção argentina que, com orçamento menor, conseguiu fazer muito mais. Aqui, a versão hollywoodiana transforma uma crítica social afiada em um jogo de gato e rato com verniz filosófico. Tudo muito limpo, muito polido, muito previsível. Até a sujeira é higienizada.

Confinado é, no fundo, um filme que se leva mais a sério do que deveria. Quer ser profundo, mas acaba sendo raso com pretensões de abismo. Quer ser claustrofóbico, mas apenas repete a mesma cena de desespero em looping. É como se o espectador também estivesse preso — mas não no carro: na ideia de que isso ainda vai dar certo. Não dá.

Para um final de semana em que tudo que você quer é uma experiência cinematográfica com substância…entre neste carro, mas leve pipoca.

Marcelo Minka

Graduado em licenciatura em Artes Visuais, especialista em Mídias Interativas e mestre em Comunicação com concentração em Comunicação Visual. Atua como docente em disciplinas de Artes Visuais, Semiótica Visual, Antropologia Visual e Estética Visual. Cinéfilo nas horas vagas. Me siga no Instagram: @marcelo_minka e @m_minka_jewelry

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