Por Edmilson Palermo Soares
A vinicultura de Portugal tem uma história rica e os registros arqueológicos apontam para mais de 2.500 anos de existência.
No século IX a.C., os fenícios fundam a cidade de Alis Ubbo (“porto seguro”), hoje Lisboa. Era um importante ponto estratégico e centro comercial de toda a região.

Os gregos e os fenícios introduziram o cultivo da videira nesta região por volta do século III a.C.
A produção de vinho consolidou-se durante a ocupação romana, entre o século I a.C. e o século V d.C. Os romanos não apenas cultivaram vinhedos, também estabeleceram práticas de vinificação que ainda influenciam a produção atual.
Durante a Idade Média, o vinho em Portugal teve grande importância religiosa e social. Os mosteiros se tornaram centros de produção vinícola, onde monges aperfeiçoaram técnicas de vinificação. O vinho do Porto, um dos mais famosos do país, começou a ganhar destaque nesse período, especialmente com a influência dos ingleses, que buscavam um vinho fortificado em resposta à escassez de vinho francês devido às guerras.
Durante os séculos XV e XVII, os navegadores portugueses exploraram novas rotas marítimas, estabelecendo contatos com diversas regiões do mundo, como a África, a Ásia e as Américas.
O vinho era uma bebida fundamental para os marinheiros, não apenas pelo seu sabor, também por suas propriedades conservantes. A água potável, muitas vezes, não era segura para consumo durante longas viagens e o vinho, graças ao seu teor alcoólico, podia ser uma alternativa mais segura.
As navegações abriram novas rotas comerciais, permitindo que os vinhos portugueses, especialmente, os do Douro, do Dão e da Madeira, fossem exportados para mercados até então inexplorados. O vinho do Porto, por exemplo, tornou-se um produto altamente valorizado na Inglaterra e em outras partes da Europa.
As trocas culturais que ocorreram durante as navegações resultaram na introdução de novas variedades de uvas e técnicas de vinificação em diferentes regiões do mundo. Assim, o vinho português influenciou e foi influenciado por tradições locais em lugares como Brasil, Índia e ilhas do Pacífico.
Vinho como identidade de Portugal
O vinho é uma parte essencial da identidade portuguesa. Durante as navegações, a produção de vinho também serviu como um símbolo de prestígio e de civilização, reforçando a imagem de Portugal como uma nação marítima e inovadora.
No século XVII, a vinicultura portuguesa começou a se expandir e a diversificar. A assinatura do Tratado de Methuen, em 1703, que estabelecia tarifas preferenciais para o vinho português no mercado britânico, foi um marco importante que ajudou a promover a exportação de vinhos, especialmente, do Porto e do Madeira.
O Marquês de Pombal, conhecido por ser um importante estadista português do século XVIII, teve um papel significativo na promoção e regulamentação da produção do Vinho do Porto.
Após o grande terremoto de 1755, que devastou Lisboa, Pombal implementou uma série de reformas para revitalizar a economia portuguesa e uma dessas reformas foi a regulamentação da viticultura, na região do Douro, onde é produzido o vinho do Porto.
Em 1756, ele criou a primeira demarcação de uma região vitivinícola no mundo, que estabelecia limites geográficos para o cultivo da vinha, visando proteger a qualidade do vinho produzido. Essa demarcação foi essencial para assegurar que o Vinho do Porto mantivesse sua reputação e qualidade, ao mesmo tempo, em que combatia práticas desleais e a produção de vinhos inferiores.
Pombal incentivou a modernização das técnicas de vinificação e a exportação do vinho do Porto, promovendo-o como um produto de excelência em mercados internacionais. Sua influência e políticas ajudaram a consolidar o vinho do Porto como uma das bebidas mais icônicas de Portugal, contribuindo para o desenvolvimento econômico do país.

A regulamentação foi implementada pela Companhia Geral da Agricultura das Vinhas do Alto Douro e envolveu a delimitação de uma área específica para a produção do vinho, bem como a definição de práticas vitícolas e enológicas a serem seguidas pelos produtores.
Com o tempo, o conceito de Denominação de Origem Controlada (DOC) se expandiu em Portugal, levando à criação de várias outras DOCs em diferentes regiões vinícolas do país, cada uma com suas particularidades e regulamentos específicos.
Essas denominações ajudam a preservar a identidade dos vinhos portugueses e garantem a qualidade dos produtos oferecidos aos consumidores.
O reconhecimento das DOCs e a valorização dos vinhos regionais levaram a um aumento da qualidade e da reputação dos vinhos portugueses no mercado internacional.
Durante o século XIX, a crise da filoxera, um inseto que devastou vinhedos na Europa, afetou significativamente a produção vinícola em Portugal. Foi por Portugal que esta praga entrou na Europa.
O país conseguiu se recuperar, adotando novas técnicas e replantando vinhedos com variedades resistentes.
Reestruturação e modernização
No século XX, a vinicultura portuguesa passou por uma reestruturação, com a introdução de novas tecnologias e métodos modernos de cultivo e vinificação.
Atualmente, Portugal é conhecido por sua diversidade vitivinícola, com várias regiões distintas, cada uma produzindo vinhos únicos, que refletem o terroir e as tradições locais.
O país tem conquistado prêmios internacionais e atraído a atenção de amantes do vinho em todo o mundo, consolidando sua posição.
A talha, um recipiente tradicional de argila utilizado na vinificação, desempenha um papel significativo na produção de vinho em Portugal, especialmente, na região do Alentejo.
A talha é um símbolo da viticultura ancestral portuguesa. Sua utilização remonta a séculos, refletindo as práticas e conhecimentos transmitidos de geração em geração. A preservação dessa técnica contribui para a identidade cultural das comunidades vinícolas.
A fermentação, em talhas de barro, proporciona uma micro oxigenação natural, que pode resultar em vinhos com aromas e sabores únicos. O contato do vinho com as paredes de barro influencia a textura e a complexidade do produto, conferindo-lhe uma singularidade que pode ser muito valorizada pelos apreciadores.
A utilização de talhas, feitas de materiais naturais, é frequentemente vista como uma prática mais sustentável em comparação com métodos modernos de vinificação. Elas são reutilizáveis e têm uma menor pegada ambiental, alinhando-se com as tendências atuais de produção consciente e sustentável.

Nos últimos anos, houve um renascimento do uso das talhas, com muitos produtores buscando reviver métodos tradicionais. Isso tem atraído o interesse de novos consumidores e enólogos, promovendo a valorização do vinho produzido dessa forma e incentivando a diversificação dos métodos de vinificação.
As adegas, que utilizam talhas, têm se tornado destinos populares para turistas que buscam experiências autênticas e imersivas no mundo do vinho. Isso não só ajuda a promover os vinhos da região, mas também contribui para a economia local.
O volume de produção de vinho em Portugal varia a cada ano, mas, em média, o país produz cerca de 6 a 8 milhões de hectolitros de vinho anualmente.
Portugal é um dos maiores consumidores de vinho per capita do mundo, com uma média que varia entre 50 e 60 litros por pessoa por ano.
Que tal experimentar um vinho português?
Saúde!
Foto principal: Cidade de Porto – Foto: Pixabay
Edmilson Palermo Soares


Enófilo, sócio proprietário da Confraria da Taverna, loja de vinhos e espumantes que traz novas experiências no mundo do vinho, estudioso e entusiasta, com conhecimento prático provando vinhos de mais de 20 países e diversas uvas desconhecidas do público em geral. Me siga nas redes sociais: no Instagram @contaverna, Facebook Confraria da Taverna e Linkedin
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