Por Ana Paula Barcellos
Mulher não tem um minuto de paz. E isso se reflete ainda pior quando mora em uma cidade grande.
Viver no centro de uma cidade como Londrina é habitar um labirinto de concreto onde os prédios se erguem como grandes torres. E as janelas desses prédios, tão próximas quanto anônimas, são olhos que observam, julgam e invadem. A privacidade vira um luxo distante quando você está cercada de vizinhos a poucos metros da sua sala, do seu quarto, da sua área de serviço.
Mas essa sensação de exposição constante ganha contornos mais sombrios quando você é mulher. E no Brasil, onde o machismo mata, pelo menos, de acordo com números subnotificados, 1.319 mulheres por ano (dado do Fórum Brasileiro de Segurança Pública de 2022), ser observada não é apenas incômodo — é risco.
Na semana passada, em um dia normal e de muito calor de Londrina, já era de noite quando fui pendurar roupas no varal da área de serviço. Vestia um sutiã. Em questão de segundos, sim, segundos, comecei a ouvir assovios. Ao olhar pra fora da janela da área, avistei a cabeça de um homem numa janela de um dos prédios que fazem fundo com o meu. Então, assomei a minha cabeça pela minha janela, como quem desafia: “Quer conversar?”. A cabecinha do vizinho sumiu rápido, o som parou. Fiquei ali, paralisada. Não pelo medo, mas pela raiva. Raiva de precisar calcular cada movimento, cada peça de roupa, cada gesto banal dentro da minha própria casa, enquanto homens circulam sem camisa nas sacadas, nas ruas, nos bares — ninguém assovia, ninguém os ameaça.
Sim, é sobre isso. A desigualdade entre homens e mulheres está nos detalhes: um mamilo masculino é apenas um mamilo. O feminino, mesmo que exposto acidentalmente, vira convite, provocação, pecado – sendo que todos os mamilos do mundo são potencialmente excitáveis. A instituição Homem sexualiza o corpo da mulher como se ele fosse patrimônio coletivo, brinquedo para os homens, e não das próprias mulheres.

E essa lógica não é apenas opressiva — é letal. Os números confirmam o que digo, não são apenas as vozes da minha cabeça gritando com raiva: a cada sete horas, uma mulher é vítima de feminicídio no país, ou seja, é morta por um homem. Os nossos corpos são transformados em alvo por existirem em um espaço que os homens insistem que não pode ser nosso.
Mulher sempre leva a pior
A regra é clara: mulheres devem se adaptar. Fechar janelas no calor de 40°C, usar peças mais “discretas”, evitar varandas em certos horários e com certas roupas. A culpa, sempre nossa. Aprendemos a vigiar a nós mesmas para não sermos vigiadas. Mas e o conforto? E a liberdade? Por que somos nós quem pagamos o preço da incapacidade alheia de enxergar um corpo sem objetificá-lo? Ou melhor, a gente se obriga a isso porque os homens nao querem parar de olhar, não querem parar de erotizar e objetificar?
O episódio do assovio me fez colocar uma regata. Não por vergonha ou medo, mas por cansaço. Cansei de servir de “pedaço de carne” para vizinho punheteiro. E cansei de saber que, enquanto eu me ajusto, eles seguem sem camisa, impunes, donos do espaço. Ser mulher em Londrina, no Brasil, é um inferno; é viver sob a ditadura do medo e do cansaço, onde até as janelas do seu apartamento são brechas para a invasão.
Os olhos dos prédios não são neutros. Eles reproduzem a doutrina de uma sociedade que ensina os meninos, desde cedo, que nosso corpo é território de disputa dos homens. Até quando precisaremos trancar janelas, cobrir ombros, mamilos e conter a respiração para sobreviver? Nós, mulheres, vamos ter que começar a revidar? Enquanto penso, com raiva e mais roupa, seguimos, as mulheres da cidade, disputando cada centímetro de sombra e de paz.
Foto principal: Freepik

Ana Paula Barcellos
É graduada em História pela UEL, Mestre em Estudos Literários, integra coletivos culturais da cidade e é agente cultural. Sacoleira e brecholenta, trabalha com criação de joias artesanais e pesquisa de tendências, e escreve também a coluna de Moda deste jornal. Siga os Instagram @experienciasdecabide e yopaulab
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